Sunday, November 01, 2009


António Sérgio (1950-2009)

Se bem que eu não pertença à geração “da frente” que o Lobo mais marcou, não deixa de ser uma referência para mim, desde que entrou para a RADAR com o seu “Viriato 25”, que acompanha as minhas noites radiofónicas. A voz gutural a conduzir a melhor música, aquela “colher de Blues” que eu tomo como se fosse um antibiótico especialmente saboroso…

Para além disso, estou agora a estagiar na mesma rádio onde o António Sérgio se estreou em 1968.

Hoje de manhã nem consegui assimilar a sms que a minha mãe me mandou e liguei-lhe logo para confirmar. O empobrecido éter nacional está agora ainda mais árido. R.I.P. António Sérgio

Monday, October 05, 2009

Mercedes Classe S


Mercedes Sosa
1935 - 2009
Es sudamerica su voz.

Tuesday, August 18, 2009

Pink Floyd - "See Emily Play"

Saturday, July 18, 2009

A Obra de Arte na Era da sua Reprodução Digital

original: Rapariga com Brinco de Pérola, Vermeer


reprodução: Filipa com Brinco de Pérola

original da reprodução do original:


Perdeu a sua "aura", claramente. O original que aqui apresento não é O Original, é uma reprodução, uma imagem. Ao procurar reproduzir o original em fotografia, apresento um outro género de reprodução, como acontece no Cinema, e ainda ao modificar a fotografia em photoshop para se aproximar à obra de Vermeer (com pouco sucesso, diga-se), retiro ainda mais "plenitude" ao ideal da obra original.

Ceci n'est pas une pipe (Isto não é um cachimbo), é o que está inscrito no quadro de René Magritte com um desenho de um regular cachimbo. No entanto, com esta afirmação, Magritte está certo: o desenho do cachimbo não é um cachimbo, é uma representação de um cachimbo. O próprio nome dado ao quadro, La Trahison des Images, (a traição/ falsidade das imagens), indica desde logo como todas as imagens são uma representação do real, conotada com o conceito de mimesis, a imitação da realidade. Uma imagem é enganadora: o quadro de Magritte é um quadro que representa um cachimbo, tal como o artista escolheu um cachimbo podia ter escolhido um lápis e aí diria: Ceci n'est pas un crayon.

Num outro famoso quadro do mesmo pintor, La Reproduction Interdite (a reprodução interdita/proíbida), um homem de costas, em frente a um espelho, não tem a sua imagem devidamente reflectida, antes, o espelho reflecte o mesmo homem ainda virado de costas. Uma das interpretações possíveis para o que Magritte pretendeu transmitir, é que a reprodução nunca pode ser igual ao original, não tem aquela aura de autenticidade que o caracteriza, numa visão platónica da teoria da representação e da mimesis: ou seja, a cópia do original, a imitação do real jamais atingirá qualquer estatuto de fidelidade à sua inspiração de origem. Está também relacionado com a "Obra de Arte na Era da sua Reproductibilidade Técnica" teoria de Walter Benjamin e a sua noção de "aura".

Walter Cronkite
1916-2009

Wednesday, July 08, 2009

blur - far out




Na voz de Alex James, o baixista, "far out", incluída no album "Parklife", é uma música harmoniosa e encantadora...como o restante repertório musical da banda.
Os Mogwai estão absolutamente errados quando afirmam "Blur: Are Shite", na sua campanha difamatória contra os Blur. E eles são melhores que os Oasis! Hahaha, as guerras musicais são fenomenais...relações que acabam porque o namorado preferia os Blur e a namorada preferia os Oasis, acabando por enfiar os albuns dos "arqui-inimigos" no microondas...em duas palavras: RI DÍCULO!

Tuesday, July 07, 2009

Les faces de la lune

Quand la lune se léve, c’est pour tous les amants de la nuit, elle les embrace en toute leur passion.
La lune assassine qui massacre les loups- garous dans la longue agonie de leur transformation. Les animaux obscures qui se révellent sur la lumiére de la lune et aterrorrisent les misérables et les imprévoyants.
La belle lune sorciére qui enchante les mal- aimés et les saisie a sa tour d’ angoisses impénetrables.
C’est elle, la racine du mal de la nuit, oui, elle, la lune. Il faut couper le mal par la racine, mais cette racine est eloignée et perdue dans les étoiles...
La lune, toutes les nuits aigre- douce pour satisfaire les malheureux et les bons- vivants.
La lune embrumée qui cache les creatures taciturnes dans la mélancolie de leurs chemins tortueux.
La chimie entre la lune et l’ homme fait en sort qu’ il lévite à cause de la magie lunaire.
La lune stimule les loups qui hurlent à sa passage pour entre les nuages sombres de la nuit.
Les lunatiques sont les répresantants de la lune sur la Terre et seulement ils sont les connaisseurs priviligés de l’ autre monde iluminé par l’ obscurité.
Lune – de – miel, Lune – de – fiel, pour la felicité et pour l’ amertume.
Le phénoméne du mysticisme du crépuscule qui commence a être illuminé par le clair de lune.

Sunday, July 05, 2009

Mais máscaras!

Como todo o português que se preze, fui hoje ao último dia da FIA (Feira Internacional de Artesanato). Uma enchente de multidão pisa-pés, pessoas com máscaras para se prevenirem da Gripe A (esses nem se aproximavam das bancas mexicanas...), o oriente e o ocidente, o norte e o sul tudo no mesmo espaço. Lá foi a Filipa mais uma amiga recordar os tempos de Cabo Verde, buscar mais máscaras africanas e outras decorações que tais. Regateei preços em português, inglês e francês, com senegaleses, marroquinos e vietnamitas, e saí de lá com duas máscaras, uma colcha, dois cachimbos de água e um mini ovo Fabergé das bancas russas. Contente!
O meu quarto agora cheira a África, e as máscaras andam penduradas nos móveis à espera que eu tire tudo o que tenho na parede e a pinte, para pôr lá as máscaras e os posters de cinema. Grande algaraviada...o meu quarto parece o Pavilhão Chinês do Príncipe Real, mas sem aquele kitsch todo e obviamente muito menos majestoso.
Ai quem me dera aquela colecção de arte tribal do José de Guimarães...

Tuesday, June 23, 2009

QUEM É, QUEM É???
QUEM É?
Ah pois. O Steven Patrick Morrissey aos 13 anos.
E o nosso Moz sem a habitual popa.

Monday, June 22, 2009

LA ROTTURA FAMILIARE E IL SENTIMENTALISMO NEL CINEMA ITALIANO:
ROCCO E I SUOI FRATELLI
DI LUCHINO VISCONTI

Regista: Luchino Visconti
Argomento: Luchino Visconti, Suso Cecchi d’Amico, Vasco Pratolini
Anno: 1960
Durata: 2 ore 43 minuti
Produzione: Goffredo Lombardo
Musica: Nino Rota e Franco Ferrara (maestri), Marino Marini e Louis Vian (musiche)
Fotografia: Giuseppe Rotunno
Montaggio: Mario Serandrei
Attori: Alain Delon (Rocco Parondi), Renato Salvatori (Simone Parondi), Annie Girardot (Nadia), Max Cartier (Ciro Parondi), Katina Paxinou (Rosaria Parondi), Rocco Vidolazzi (Luca Parondi), Spiros Focas (Vincenzo Parondi), Roger Hanin (Duilio Morini), Paolo Stopa (Cerri), Claudia Cardinale (Ginetta), Corrado Pani (Ivo), Alessandra Panaro (Franca).

Il Cinema italiano degli anni 1950 e 1960 è connosciuto per l’assoluto rompimento che ha fatto con il tradicionale cinema mainstream nord-americano e con il cinema europeo detto “di qualità”: con le revoluzione politiche, cominciavanno i movimentii e la lotta dopo il post-guerra, l’Europa era completamente rovinata per la seconda guerra mondiale e le economie, la politicca e le condizione sociale dei paesi erano anche sfregiati. Il cinema in Italia, un paese che è stato disorientato dopo il regime di Mussolini e il trionfo della democracia, ha chiarato principalmente la situazione sociale che raggiungeva la populazione di nord a sud. Con il Neo-Realismo, una corrente cinematografica che sorgeva in Italia giustamente per fare vedere la realtà sociale del paese, il cinema si è tornato un vero fenomeno di autenticità e qualità, questionando il perché della situazione al stesso tempo che ritrattava fedelemente le persone, il popolo, la cultura e abbitti proprii degli italiani, nella città e anche in campagna. I primi registi che hanno “inventato” questo genero di cinema sono riconosciuti fino ai nostri giorni: Roberto Rosselini (Roma, Città Aperta, Germania Anno Zero, Stromboli), Vittorio de Sica (Ladri di Biciclette, Umberto D.), Federico Fellini (La Strada), Pier Paolo Pasolini (Accatone, Mamma Roma) e il proprio Luchino Visconti.
Luchino Visconti è sempre stato un cineasta di un grande potere cinematografico ai tutti i livelli, variando tra il romanzo dramatico (Bellissima, Le Notti Bianche, Lo Straniero, Morte a Venezia, Gruppo di Famiglia in un Interno), il neo-realismo (Ossessione, La Terra Trema, Rocco e i Suoi Fratelli) e un cinema più ostensivo, ritrattando l’aristocrazia opulenta, decadente e cinica (Senso, Il Gattopardo, L’Innocente). Tutta la sua cinematografia è piena di questioni sociali in cui si trovano crime e rimorso, violenza e passione, ricchi e poveri, decadenza e speranza, gioventù e vecchiaia, belleza, alterazione dei abiti, l’adaptazione allo cambiamento, tra altri tanti temi. È rilevante dire che Visconti era un’aristocrata milanese, conte di Lonate Pozzolo, tanto che era comicamente conosciuto come "conte Visconti", ma, all’inverso, era anche un marxista convinto, e questa dicotomia stava presente nei suoi pellicolli, che variavano fra il ritratto del popolo proletario e quello dell’aristocrazia.
Il suo film Rocco e i Suoi Fratelli, appartiene all primo ritratto, quello del sub-proletariato venuto dal sud d’Italia, della antica Lucania, una provincia che in quello tempo non era conosciuta per gli italiani del nord, era proprio una terra senza condizione di vita, senza lavoro per tutti, abitata da una popolazione illetterata e povera. Parla della storia di una famiglia lucana, i Parondi, chi viaggia per il nord, a Milano, dopo la morte del padre, per andare all’incontro del figlio primogenito, Vincenzo, con la speranza che quello puoi aiutare la sua famiglia senza il padre e assumere la responsabilità per la mamma Rosaria e per i suoi fratelli più giovani: Simone, Rocco, Ciro e Luca, rispettivamente, dal più vecchio al più giovane. Arrivando alla casa dove si trovava Vincenzo, loro scoprono che lui è fidanzato da una bella giovane, Ginetta, e che si festeggiava il pre-matrimonio dei due. La mamma Rosaria, invece di restare contente con i promessi sposi, resta indispettita e comincia a ingiuriare le nozze perchè non stavano di accordo con il lutto per la morte recente del padre. Dopo questa situazione, tutta la famiglia è espulsa della casa dove all’inizio forano stati bene trattati per la famiglia della fidanzata, anche Vincenzo è espulso. Allora, debbono trovare un luogo da abitare e lo trovanno in un scantinato nel freddo Inverno milanese. Il film é diviso in cinque parti, corrispondenti ai tutti i fratelli, primo Vincenzo, dopo Simone, seguito da Rocco (la più importante), Ciro e, finalmente, Luca. Comincierò per annalizzare il tema della monografía, la rottura familiare e il sentimentalismo nel cinema italiano, secondo le fasi del film, all stesso tempo che ritratto le situazioni vissuti per i personaggi di Rocco e i Suoi Fratelli, un film a nero e biancho e con magnifichi piani cinematografichi, non fosse stato Visconti un cineasta reputato.
Come il proprio titolo della pellicola indica, l’azione centrasi in un personnagio, Rocco Parondi, interpretato da il bellissimo e magnanimo attore francese Alain Delon, e i suoi relazioni familiari e amorosi con la sua mamma, la sua amata e, essencialmente, con i suoi fratelli, Simone (splendido Renato Salvatori) da più. La prima parte specchia come i Parondi (senza Vincenzo) arrivano a la città di Milano, di treno, con tutti i suoi averi materiali e aspettando l’accoglienza di Vincenzo, che non era alla stazione. Tutta la famiglia sembra unita e fraterna, appoggiando la vecchia mamma e convivendo tutti insieme in buono comportamento. Prima del’ incontro con Vincenzo, le cinque partono di autobus dentro la notte di Milano, con i suoi negozzi e luci di néon che fascinano quatro degli personaggi, eccetto Rocco, che rimane nostalgico e malinconico per avere abbandonato la sua terra natale, la Lucania che trovava bella. Rocco, benché è il protagonista, è all’inizio del film un personaggio un po spento e timido, e anche è l’unico chi mai si addaterà alla città e al suo movimento: questo è un indizio sottile della rottura che si abbatterà su la famiglia. Questa si trova con Vincenzo nella casa dei suoi futuri suoceri, ma come ho già scritto, non finisce bene l’incontro e puoi tutta la famiglia si muove per un appartamento in città dove non hanno molti condizioni per essere abitato per sei persone. In questo appartamento in un scantinato, un giorno Vincenzo protegge una ragazza che fuggiva da suo padre e portala a sua casa. Chiaramente la ragazza, di suo nome Nadia (meravigliosa atrice francese Annie Girardot), è una ragazza di vita, una prostituta, bella e provocante, che comincia un flirt con tutti i ragazzi della casa, incantando soprattutto Rocco e Simone. Anche qui si verifica un altro indizio della futura separazione, quando i due fratelli si appassionano per la stessa moglie. Nadia si comporta come una principessa che ride molto e fa piaccere ai uomini, faccendo la mamma Rosaria sospettare della sua condotta. Rosaria, interpretata per l’eloquente attrice greca dell teatro Katina Paxinou, è una vera mamma italiana: è fantastica nel suo ruolo di matriarca stemperata, impulsiva, effusiva, isterica, ossessiva con i suoi figli, che grida e piange per tutto e per niente, di lutto per tutta la vita per la morte del marito, porta il tipico temperamento latino dei italiani. Lei è il centro aggregativo di tutta la famiglia, nessuno si rivolta contro lei perché è una figura imponente, la mamma amata da tutti i figli, i suoi “figli belli miei”, come tante volte afferma nel film. Quanto a Nadia, Annie Girardot in questo film rappresenta la povera ragazzina rigettata per i suoi genitori e chi anda alla deriva in un destino incerto come prostituta, quello tipo di ragazze che si vendono ma senza essere volgare, ordinaria, all’invece, è la seduttrice infame ma che ha un profondo desiderio di cambiare di direzione, vivere una megliò vita con chi voglia. Incarna anche la pura tragedia drammatica attraverso il suo tragico fato, in una vita fatta degli alti e bassi.
La vita dei ragazzi in Milano si trasforma quando cominciano a lavorare: Vincenzo lavora in riparazioni, Rocco è un stafeta in una lavanderia, Ciro studia e puoi comincia a lavorare, Simone diventa boxeur e Luca anda alla scuola e è un fattorino di drogheria. Tutti portano denaro a casa, alla mamma che bada per i suoi figli.
La seconda parte, dedicata a Simone, centrasi nella sua attività come boxeur in un ginnasio dove Rocco anche esercita il boxe. Simone ha forza fisica ma non è veloce, ma anche così diventa campione di boxe, attirando l’attenzione di un cacciatore di talenti, Duilio Morini, che lo impiega e scommette in lui per fare di Simone un grande campione, con l’aiuto di Cerri, proprietario dell ginnasio. Dopo un combattimento trionfale nel ring, Simone ritrova Nadia, che lo aspettava per un giro. I due finiscono per si avvolvere amorosamente, ma un giorno, tutto è finito. Simone è un individuo senza carattere, impulsivo, inconseguente, il più insensato degli cinque fratelli. Allora, è lui chi fa Rocco dimetirsi del suo lavoro nella lavanderia, dove le donne gli chiamavano “il bello adormentato”, per causa della sua malinconia e tristezza e per essere giovane e bello, pensavano loro che lui non aveva ragione d’essere così intravertido. Rocco è sensato e è un angelo e quando Simone ruba della lavanderia una camicia e sedurre la proprietaria rubando il suo portaspilli, Rocco abbandona il suo lavoro. La causa è la pigrizia del suo fratello ladro e così, Rocco sacrifica il suo lavoro. C’è il primo dei molti sacrificci che Rocco farà per Simone, giustamente per mantenere i valori di giustezza e bravura che erano promulgatti nella Lucania natale e anche per mantenere la famiglia unita senza qualche tipo di problemi causati per un solo membro. È Rocco il portatore della notizia che Nadia ha finito tutto con Simone dopo questa l’avere donato il portaspilli rubatto: Nadia s’incontra per caso con Rocco e lo porta in macchina, lasciandolo con il portaspilli, la notizia e un baccio. Arrivando a casa, Rocco dice tutto al fratello, e Simone, furioso e incomodato con la rottura di Nadia, simula stare confortato e non avere nessun rissentimento, ma sapiamo che lui non si conforma: “È solo una ragazza come tante altre...ma si creda una signora..Vada al diavolo!”. Quella notte, Rocco si mette al letto amareggiato con il futuro di suo fratello dopo l’abbandono di Nadia e cominciando anche lui a pensare a lei. Vediamo la sua espressione facciale di ragazzino tormentato e con un sguardo scrutatore, non sapiamo che passa in testa sua ma potriamo immaginare quello che lui sente in quello momento in un close-up della sua faccia.



La terza parte di Rocco e i suoi Fratelli è la più lunga e parla giustamente della vita di Rocco e le sue esperienze un’anno dopo questi avvenimenti: quatordici mesi faccendo il servizio militare fuori di Milano, la mamma screve una lettera per lui diccendo quello che si passava con la famiglia: Vincenzo si è sposato con Ginetta, contro la volontà dei suoi genitori, e abitano in casa propria, Ciro lavora nella fabbrica automobile dell’Alfa-Romeo e finalmente la famiglia aveva cambiato di casa per un congiunto di appartamenti con ringhiere e più spazio e condizione da vivere. Rocco si sente felice e l’ambiente e clima della città dove si trova è favorevole al buono umore. In quella città si inizia l’envolvimento di Rocco con Nadia quando le due s’incontrano per caso. Nadia spiega che era stata in prigione per la sua attività come prostituta nella stessa città e in una conversazione in un caffé, Rocco comincia a rivellarsi, i suoi sentimenti, la sua conscienza...lui ha detto con tristezza che nel suo paese, “bellu paese mio dove sono nato e cresciuto”, i ragazzi poveri della Lucania erano spesso in prigione, allora, stava abituato a quella situazione che affettava Nadia. Rivella anche che ha uscito la Lucania in busca di una vita migliore, ammetendo che mai si sarà abituato a Milano. Quando Nadia lo questiona su quello che pensa di lei, lui risponde “niente...ma tu mi fai tanta pena”. È qui che Rocco e Nadia si aprossimano, inquanto lui dimostra il suo carattere solido diccendo, come è abbitudine in Lucania che il popolo deve essere forte: “Io avrò fiduccia, non avrò paura. Avreia tanta fiduccia in tutto.” Rocco è forte, Nadia si sente fragile e dice “Forse mi insegnerai a non avere paura”. La prossimità fra le due è asseverata con una carezza della mano di Rocco nella mano di Nadia.
Rocco ritorna alla nuova casa più ridente e allegro, e al stesso tempo, nell ginnasio, comincia a combatere con Simone, il campione che con il tempo si logora e perde l’entusiasmo con gli combattimenti, cominciando Rocco a rivellarsi una promessa nel mondo del boxe, tornandosi una figura più centrale. Oltrapassando la sua timidezza, Rocco sembra un’altra persona, molto differente dell’inizio, quando non parlava quasi niente e soltanto cantava musiche del suo paese. Comincia a innamorare con Nadia, chi si allontana della sua antica vita di prostituta, e il loro avvolgimento si torna molto intimo e tenero, come si riflette nella cena del autobus, le due abbraciati, assumono la rilazione davanti a tutti, senza pudore. C’è una liberazione per tutti e due, liberazione per Rocco della sua antica disolazione con la città di Milano e la sua gente e con la nostalgia di Lucania; liberazione per Nadia della sua grigia e amara vita, chi finalmente attinge un buono sentiero con l’amore di e per Rocco, che non è paragonabile con quella rilazione breve con Simone.
Simone, inquanto questo, combatteva nel ring, con il pubblico, ma si sente impotente e stanco: “non ne posso più...!”. C’è il primo combattimento che perde. Cerri, l’allenatore, sta arrabbiato e deluso con la performance di Simone e per questo dice a Rocco, che accompagnava suo fratello, che è lui a tenere le chiodi piantati per Simone con il suo comportamento nel ring, perciò deve portarsi bene. È nella retroscena del boxe che un amico di Simone, chi si da con uomini di male affare, Ivo, che racconta a Simone il romanzo tra Rocco e Nadia, suo proprio fratello e la sua anteriore amante. Simone resta confuso, intrigato e annoiato perché Nadia è innamorata per Rocco e la gelosia comincia a consumarlo. Adesso, tutti i sentimenti per Nadia scalano un’altra volta e nella sua testa cattiva e egoista trova che l’amore per la ragazza non è finito, ormai ha un’avversario con chi non contava: Rocco, suo fratello del cuore. Questa familiarità serve per lasciare più il sangue salire alla testa di Simone, rivoltandosi contro la propria famiglia: c’è propriamente l’inizio della rottura, che sarà consumato in un atto di violenza fondatrice e, alla fine, con la tragedia della famiglia. Simone cambia la sua attitudine davanti al suo fratello e comincia la disrupzione familiare centrata nei due. Una notte, Simone, Ivo e qualchi amici seguono Rocco e Nadia quando loro vanno innamorare per un luogo recondito. Simone è perduto in gelosia ma voglia ancora credere che non è lei, Nadia, l’amante di Rocco, voglia Nadia solo per lui stesso, appunto sapendo la vita che lei facceva anteriormente. Questa cena è centrale nel film, è di grande tensione e violenza: Simone osserva la coppia e diventa pazzo, grida per Rocco “Quella è stata la mia ragazza. Non porto le corna per colpa tua!”. Rocco non capisce come è possibile quello, è una vecchia storia, due anni fai che Simone non vede Nadia. Ma intanto, Simone voglia che Rocco li chieda perdono prima di cominciare la lotta. I amici di Simone aferrano Rocco inquanto Simone corre indietro di Nadia, chi fuggiva, quando la prende dice per Rocco: “Vedrai com’è la tua Nadia! Come fa all’amore!!”. Atravverso la violazione di Nadia, Simone voglia fare vedere a Rocco chi lei è e proffittare per restare con lei. Rocco è disperato quando l’atto è consumato, grida e piange, rivoltado con la brutalità del fratello e con la miseria di Nadia, che anche piange. Simone volta le spalle come si era vergognoso e pentito, lottando contro i sentimenti contrastanti in lui stesso. I amici rimangano impassibili davanti alla situazioni, lasciano Rocco, chi dice a Simone, “Mi fai schiffo!”. Simone comincia a pestare Rocco, chi grida: “Sei mio fratello, che posso fare??!”. Dopo Nadia usci, la lotta fra le due fratelli sviluppasi e Simone abbandona Rocco ferito al mezzo della strada. Leso fisicamente e nei suoi sentimenti, Rocco chiedi aiuto a Vincenzo e Ginetta che lo lasciano dormire in loro casa.
Dopo quella miserabile situazione, Rocco e Nadia sono nella cattedralle di Milano discutendo lo che si è passato. Ambidue affermano loro amore e che solo un uomo crudele come Simone potreva fare quello. Nadia non crede a niente di più, tenta il suicidio ma non ha coraggio, lei non voglia veramente morire. Si sente colpevole per quello che è successo, per avere credetto che tutto era giusto e bello e che è diventato una colpa. Rocco ammette che sono le due colpevoli e, impressionantemente, dice che Nadia deve ritornare per Simone perché solo lei può aiutarlo: Rocco sacrifica il suo amore per salvare il fratello dello squilibrio che lo consumava, Rocco non pensa a si stesso o a Nadia, ma alla sua famiglia, disposto a fare tutto per aiutare la mattia di Simone. Dice a Nadia che non si possono vedere mai più e lei dice che lui si ripenterà e che l’oddia dopo dire che l’ama. Questi sacrificci della parte dei due sono una virtù quasi impossibile in questo mondo: per salvare un’anima folla (Simone) loro si sottomettono a una disgrazia d’amore adesso impossibile di continuare. Così, Simone, imbevuto nel gioco, ebbrezza, abbatimento e chiodi, sommerge in una vita disgraziata e Nadia, giustamente come Rocco ha detto, va d’incontro a Simone. Ubriacca, dice ironicamente a Simone che lui è la vittima a chi lei stessa e Rocco hanno fatto tanto male, intanto, è vero che Simone si sente una vittima. “Con te mai più”, dice Nadia acerca di ritornare da Simone perché il “poverino necessita aiuto...ti oddio, ti oddio!!!”. Ma finisce per cedere, contut­toché lo ha mai amato e che essere com lui e il stesso d’ essere com qualcun’altro.
Nel suo primo combattimento serio di boxe, Rocco vince, tornandosi un reconosciuto campione, ma dopo il combattimento piange perché c’era l’oddio dentro di lui chi combatteva, l’oddio di un angello che diventa disperato. Lui piange per tutto quello che stava acquistando com Nadia e che Simone ha distrutto, e così sia non può tradire il fratello e la famiglia.
Invece, Ciro, nella quarta parte del film, incontrasi bene nella vita, lavora in un lavoro buono e fisso, ha un’innamorata, Franca, va bene con i suoi futuri suoceri, nel Carnevale, un’ epoca festiva, cantano “tintarella di luna”. Ma quando arriva a casa encontra Nadia, fidanzata di Simone, sistemata alla casa. Ciro è l’unico degli cinque fratelli intento a fare qualcosa per risolvere la situazione. Lui è il più razionale, tiene la ragione dall suo fianco, inquanto Rocco parla e agisce con il cuore e la passione. Con conscienza, Ciro dice a Rocco che tutti i fratelli sono buoni frutti, ma si ha un’ erbaccia dentro del seno familiare, in questo caso, Simone, è necessario disunirlo della famiglia. Rocco, il santo, difende Simone diccendo che “non è cambiato, è soltanto demoralizzato... ferito nell' amore proprio”. Per lui, Rocco puoi desistere di Cerri e del boxe, si fa Simone combattere un’altra volta. Rocco mantiene l’idea che si erano rimasti in Lucania, sarebbero tutti uniti. È l’unico inadatto alla città che Ciro non capisca, pensa in Luca, il più giovane (tra gli 10, 12 anni), quello che può ritornare ancora perché adesso non è corrotto per la città. Qui troviamo la simbologia della città, contro quella della campagna: la prima come una viziosa, la seconda come la purezza.
Mentre, Simone ha sempre bisogno di denaro, e lui s’incontra con Morini nella casa di questo. Morini parla di Simone come l’antico campione ch’era, “un vero Appollo”, caduto in disgrazia, come boxeur e come uomo. Anche come Rocco abbia detto, Morini dice a Simone che “Mi fai schiffo”, iniziando una lotta nella quella Simone finisce vinto e umiliato. In casa della famiglia, Ciro, Luca e la mamma Rosaria ricevono la visita della polizia che busca Simone per portarlo in questura, invece c’è Ciro che l’accompagna. Dentro di casa, Rosaria e Nadia iniziano una discussione. Nadia fu portata per Simone da casa qalchi mesi fai e rimanga lá contro la volontà della mamma chi bada per i suoi figli e colpa Nadia d’avere rovinato la vita di Simone. Nadia sembra vivere in un’apatia indifferente, ma ero stato Rocco chi ha sacrifficcato le due per salvare Simone. Nadia è contenta per Simone stare nel fondo del pozzo e la mamma dice per lei andare via, Nadia voglia uscire per volontà propria ma Rosaria pentisi e dice che chi puoi ordinare la partenza è Simone, una volta che può perdere il suo “figlio mio bello”. Nadia piange e grida e dice que non voglia vedere nessuno di loro mai più, esasperata per dov’è caduta e dove non arriva a uscire. Rocco non è in casa, vive con Vincenzo, e Simone quasi mai dorme là, vagliando come un delinquente che ande per le strade con le puttane e perdendo denaro. Così, Rocco, Vincenzo e Ciro andano a casa di Morini, uscindo di sè quando sanno le chiodi di Simone per Duilio, nel valore di 400.000 lire. Di nuovo per Simone Rocco si sacrifica, contro la volontà di Ciro, chiedendo a Morini da telefonare a Cerri per guarantire che Rocco si torna un vero campione di boxe, lucrando così per pagare le chiodi del fratello. Duilio telefona a Cerri e Rocco dice a Ciro che Cerri paga molto si si compromettere con lui per dieci anni nel boxe. Vincenzo e Ciro non capiscono che “e per quello inconsciente vai cambiare la tua vita?!”, rispondendo Rocco “E allora?”, c’è il suo fratello, e benché è disgustato con la situazione, non li piace fare il pugilato ma è buono in quello e lotta per Simone. Parlando al telefono, Rocco e Cerri arrivano a un’accordo nel quale Rocco si sente disperato ma non ha paura di fare tutto quanto Cerri voglia per salvare Simone e pagare le chiodi. Allora, capiamo che Rocco va a distruggere la sua vita per una causa perdutta: Simone mai prendrà una condotta certa e corretta. Al telefono, Rocco si sacrifica, incomodato quando capisca lo che sta facendo, ma come ha insegnato a Nadia, non ha paura e non rinuncia al contratto di dieci anni come “schiavo” di Cerri. Non voglia la rottura familiare, il rompimento con i vincoli del sangue, ma quello è necessario per la sua famiglia essere più felice. Ma con il suo allontanamento non sarano tutti insieme: c’è la disgrazia degli poveri italiani.
In casa, Ciro da a Simone 5000 lire per uscire per sempre della città e che lui gli fa pena. Luca assiste a tutto quello senza prendere partito di nessuno, tuttavia, è giovane e puro e capisce le cose che devono cambiare o restare uguale.
Simone è dentro di un bar è godado per gli altri, che vedono quello che lui era prima e vedono quello che lui è adesso: agisce come un pazzo, un disgraziato, inquieto e lontano di tutto che si passa alla sua volta, non sa neanche del combattimento di Rocco quella notte. Ivo, provocatore, corrompe più il stato di Simone diccendoli dove si trova Nadia, che è ancora una volta prostituta. Di botto, ad ascoltarlo parlare in Nadia, si sveglia con un’esprezione di puro contentamento pensando che vedrà Nadia un’altra volta. Simone si allontana del bar e del gruppo e corre all’incontro di Nadia. Qui, due cene del film si incrociano: Rocco preparasi per il campionato, guradando in faccia il suo avversario con rabbia. Al stesso tempo, si svolge una cena centrale nel film: in un luoco desertico vicino a un fiume e una campagna, Simone osserva Nadia con un cliente. Nadia, quando lo vede, viene al suo incontro e Simone dice che voglia cominciare tutti di nuovo, una vita nuova per loro, ma lei non voglia e dice “vai via!”, quando lui comincia a tirarla per si, lei grida per aiuto ma il cliente fugge con paura di chi Simone può essere. Simone afferra Nadia, non voglia che lei fugga, dice che l’ama e che li voglia bene, ma Nadia è spaventata e continua a tentare scapare, diccendo che non ha paura. Nel fratemppo, Rocco combate l’altro nel ring, con ovazione del pubblico. Simone e Nadia lottano in atti e paroli: lui dice “amore mio”, lei dice “ti oddio. Tu non sei un uomo, sei una bestia. Tutto quello che tocchi diventa lurido, ripugnante...volgare. Non ti voglio vedere più (...) sei tu chi ha rovinato l’unica cosa bella della mia vita”, il romanzo con Rocco. Simone si tace e Nadia si allontana calmamente. La tensione tra le due consome Simone di dentro, che lo conduce a commettere una matezza, l’atto di violenza che origina la tragedia dei Parondi. Simone tira fuori un coltello a serramanico con un’aria rabbioso e diabolico. In quello ambiente sordido e lontano vicino al fiume sporcho e alla campagna vuota. La musica indica la tensione e quello che sta per succedere. Nadia fermasi e accostasi a un palo. Simone l’incalza di coltello in mano. Nadia sa qualle il suo destino, ma tale come Rocco gli ha insegnato non ha paura, consegnasi al suo boia volontariamente, pronta per il martirio finale, conformata e quasi indifferente dopo la vita triste e disgraziata che ha vissuto, solo punteggiata per il felice amore con Rocco. Per lei tutto è perduto e non ha ragione da vivere. In una cena terrificante e simbolica, la figura di Nadia è tappata per la figura di Simone inquanto, accostata al palo, appena si vedono le braccia di Nadia che si aprono in croce, sacrificandosi come Cristo si sacrificò nella croce. Qui, il marxismo e ateismo di Visconti acquistano altri proporzioni, stabilendo un parallello tra il sacrificio di Nadia, una prostituta, e di Cristo, un santo. Nadia può essere vista come una Maria Magdalena che fu salva del suo destino di lapidazione per un uomo celestiale, Cristo, in questo caso, Rocco. Simone è un Giuda volgare che pensa solo a si stesso, martirizzando quelli alla sua volta: la famiglia che lo ama e Nadia che l’oddia. Rocco e Simone, in un altra comparazione biblica sono diversi della storia di Abele e Caim, figli di Adamo e Eva: uno, Caim, uccide Abele per gelosia e nonostante Simone non uccide Rocco fisicamente, lascia il povvero ragazzo a vivere una vita inutile che non gli appartene: il boxe non è per lui , il nostalgico della Lucania che voglieva pace, buono lavoro, buona vita per i suoi e per si. Simone uccide in lui quello desiderio, sacrificando lui ancora più, principalmente adesso che è l’assassino di Nadia.
Mentre Rocco combate con intensità e lascia suo avversario caduto nel ring. Vince il combattimento, inquanto che Simone pugnala Nadia, che grida disperata “non voglio morire!!!”. Pugnala molte volte e quando lei morre, lui pulisce il sangue e, spaventato, abbandona il corpo della ragazza nella boscaglia, freddo vicino al fiume e fugge dopo capisca la mattia che ha comesso.
La quinta parte di Rocco e i Suoi Fratelli appartiene a Luca: tutta la famiglia esultante pranza con Rocco dopo la vittoria, tutti sono felici eccetto Rosaria, chi solo starà felice quando tutti i suoi cinque figli sono insieme. Tutti i viccini degli altri appartamenti celebrano il confronto di Rocco con brindisi e discorsi di buona volontà. Rosaria pensa avere ascoltata il campanello, aspettando Simone. Quando Rocco ritorna indietro esprime il suo desiderio mai perduto di voltare alla lontana Lucania e si non è possibile per lui, “forse qualcuno altro di noi potrà tornare nella nostra terra...forse tu, Luca”, e questo risponde che è con Rocco che voglia tornare. Tutti si commuovono. “Ricordati, Luca, quello paese nostro è il paese degli ulivi, della luna, è il paese degli arcobaleni...ti ricorda Vincenzo? Quando il capomastro comincia a costruire la casa getta una pietra sull’ ombra del primo che passa. Perchè ci vuole un sacrificio perché la casa venga su solida”. Questo sacrificio è comparabile a quello di Rocco per mantenere la famiglia unita, anche se lui stesso non essi là. Tutti ricordano con nostalgia le parole di Rocco e capiscono il suo significato. Allora, il campanello suona: è Simone. Lui non ha coraggio di sguardare la mamma nei occhii, solo sguarda Rocco, che va all’incontro del fratello. Lo abbraccia e tappa la sua bocca, diccendo che si ha qualche cosa da dire per dire solo a lui, portando Simone alla camera da letto. In un ‘altra cena centrale del film, Rocco e Simone, fermati nella stanza, impedindo che gli altri si avviccinano, Rocco chieda gli parlare. Simone si stende disperato nel letto e comincia a a parlare l’ ultime parole di Nadia. All’inizio Rocco non capisca, ma Simone dice “L’ho ammazzatta!” e Rocco cade nel letto abbracciatto al fratello e urlando “NO, no, no!!!”, piangendo in disperazione per la sua amata e per la sventura del fratello, diccendo “È colpa mia!”. Rosaria, la figura più caricatorale della storia, entra nella camera e piage e grida in un teatralismo puro, di vedova e vecchia mamma che non sopporta vedere la disperazioni dei suoi figli. Rocco si libera di Simone e afferrasi alla mamma che grida “È per gelosia, che l’ha fatto, e ha perso la ragione!”. Ciro voglia consegnare Simone alla polizia con ragione, ma Rocco appella che sono loro chi devono aiutare Simone in quello dramma familiare, a oltrapassare lo che ha fatto senza dire niente a nessuno: “Ecco che siamo diventati nemici” e Ciro sortisce di casa per andare in questura a denunziare Simone. Rocco e Luca vano in suo incalzo ma non lo prendono. Rocco dice che “tutto è finito adesso”, abbracciando il piccolo Luca.
Più tardi, Luca vade all’incontro di Ciro all’Alfa-Romeo, per rapportare che la polizia abbia trovato Simone dopo tre giorni nascosto. Luca chiede a Ciro si è contento per avere denunciato il fratello, sentindosi traduto per Ciro. Quello dice che quando Luca sarà più grande capirà il quanto sta essendo ingiusto con lui, che nessuno ha vogliuto tanto bene a Simone che lui, piange e dice che fu Simone, quando hanno arivato a Milano chi gli diceva che i paesani nella sua terra erano schiavi e che le persone non possono dipendere schiavizzate di nessuno. Questi erano i valori di Simone che il stesso ha dimenticato: ha fatto tanto male a Rocco, a tutti loro, è diventato un’erbaccia. Allora Luca comincia a capirlo. Ciro dice che “Rocco è un santo, ma nel mondo che può fare?”: il mondo, la città, la campagna non furono fatti per alcuno così affabile e fraterno come Rocco, “uno come lui non si vuole difendere. Lui perdona sempre tutti, invece non si puoi sempre perdonare”. Luca abbraccia il fratello e dice che si Rocco ritorna alla terra, ritorna anche con lui. Ciro non crede che Rocco ritornerà, forse Luca. Crede che nel futuro la vita sarà più giusta e onesta. Finalmente, Ciro deve ritornare al lavoro nella fabbricca, al suo lavoro fisso e buono, rifatto della tragedia che si abbatteva su la famiglia, con la sua innamorata Franca, una ragione per sentirsi megliò.
La parte finale è così importante e simbolica: nelle vie quase desertiche di Milano, Luca passeggia solo, e la musica che inizia il film, la nostalgia e tristezza della canzone “Bellu paese mio” cantata da Marino Marini, sta presente anche nella fine. Luca osserva i affissi che annunziano i combatimmenti di Rocco Parondi a Londra, Bruxelles e Melbourne, tutti molto lontani da Italia, dovuto al contratto di dieci anni che Rocco ha firmato con Cerri. Perché non puoi vederlo e tenerlo presso a si , Luca appena puoi accarezzare il rosto di Rocco rappresentato nei afissi, ma non puoi così calmare la sofferenza e rimpianto. Alfine Rocco si è sacrificato per niente, perché Nadia è morta, non ha salvato Simone e due fratelli mancano alla famiglia. La rottura familiare è così consumata.
Solo resta il vuoto, nella famiglia Parondi e per i spettatori, che sanno che era inevitabile la rottura e la tragedia, lasciando un’imensa tristezza, un sentimentalismo permanente. Questo vuoto è proiettato nelle vie di Milano che Luca parcorre da solo in un piano generale inquanto la parola “FINE” occupa il schermo.Rocco e i Suoi Fratelli può essere congiunto alla “Questione Meridionale” di Antonio Gramsci, il teorico marxista italiano: Gramsci dice che il nord e centro d’Italia, più sviluppati, non percepiscono le difficoltà dei campagnuoli del sud, quindi quando i Parondi arrivano a Milano sono visti, criticati e godette per la sua mentalità e aspetto fisico. Gramsci parla di questi sudisti meredionali come il sub-proletariato, e che c’è la classe lavoratora emergente in Italia che doveva aiutare al svvolgimento dei popoli e non criticarli e allontarnarli ancora più. Con il miracolo economico in Italia, questo sub-proletariato non era reconosciuto per lo Stato, si tratava di una massa lavoratrice, un numero di poveri famigli venite dal sud (come i Parondi) e che crescevano nelle suburbi e periferie dei grandi città. Come si è passato con i Parondi, si abituavano e gli piacevano la grande città, dove avevano lavoro, denaro, casa, migliori condizioni d’igiene e di vita: c’è l’incontro tra il capitalismo della urbe e il suo appello e la rustichezza della campagna. Per il marxista Visconti il lavoro era essenciale per educare la massa sub-proletaria, focandosi nel buono lavoro e comportamento morale, com’è esempio il poema di Pier Paolo Pasolini, Le Ceneri di Gramsci, dove rincontriamo qualchi similitudini con la situazione di Rocco.


*Monografia que fiz para Italiano, sobre um dos meus filmes favoritos "Rocco e os seus irmãos", ao qual corresponde a imagem do blog neste momento.

Sunday, June 21, 2009


Lou Reed - "The Raven" de Edgar Allan Poe

(poema alterado), dito por Willem Dafoe, que voz...

Saturday, June 20, 2009

Infância tardia...e macabra

A cigana Dalila, a minha 1ª

Estas bonecas são a minha perdição. Quero coleccioná-las mas até agora apenas 4 povoam uma das minhas prateleiras. É dificil arranjá-las a um bom preço no e-bay e vindas dos E.U.A. podem ficar presas na alfândega...Quem é que deixaria passar um artigo em forma de caixão vindo da América? hehehe

Todas as Living Dead Dolls têm uma história, algumas até são criadas de propósito acerca de lendas, contos, filmes, acontecimentos reais, músicas. Vêm com uma certidão de óbito e com adereços peculiares. Todas estão mortas e olham-me fixamente daquela prateleira. Hummm, nada melhor para adormecer do que acender o meu lava lamp vermelho a projectar sombras na parede, a observar as minhas bonecas e a minha coruja de peluche do Harry Potter, ao som da banda sonora do Twin Peaks, a fazer festas no meu gato e a semicerrar as pálpebras enquanto o João Pestana chega...

A minha mãe diz que, aos 20 anos, estou a viver uma infância tardia. Dado o facto de que nunca fui uma daquelas pitas chatas com'a potaça que berram e birram por tudo o que é novidade, os brinquedos nunca me interessaram por aí além e era meia maria-rapaz, questiono-me porque é que à vigésima primavera eu não haveria de ter um apetite, mesmo que mórbido, por bonecas, bonequinhos e demais extasiantes produtos? As Barbies pouco me diziam, até eu lhes fazer as habituais tropelias dos cortes de cabelo à Debbie Harry, os decepamentos, as pinturas estilo-tribal. Do que guardo memória e ainda hoje tenho no meu quarto, bem à vista: a minha ovelha Dolly, roliça, ar simpático, com patas traseiras e dianteiras balançantes; o meu Gremlin gigante, o Gizmow, do qual eu fugi quando o meu tio mo deu pelo Natal, mas depois passei a acarinhá-lo; um cavalinho de madeira baloiçante em miniatura; a minha luz de presença em forma de bebé de cu pró ar a dormir pacificamente; os mini-Ferraris que gamei ao meu pai; um fio de prumo atinquíssimo que gamei ao meu pai; as caixinhas que eu sempre adorei cuscar; todos os objectos que eu fui sacando do resto da casa e acumulando nas minhas prateleiras; o meu Furbby, que, segundo o próprio, chama-se Sumô...lembram-se dessas criaturinhas falantes, com voz de hélio, que pediam comida, ressonavam, assobiavam e assustavam toda a gente quando de repente acordavam a meio da noite?? Que maravilha...o Verão em que eles atingiram o mercado foi uma loucura...
A Sloth Serafina, a Dalila e a eyeless Isabel
Hoje em dia, o meu consumismo orienta-se não só no sentido académico, cultural e das necessidades básicas, mas também me conduz impulsivamente à compra (não compulsiva, mas comedida) de um certo tipo de objectos que passam a pertencer ao meu imaginário. Como as Living Dead Dolls, os figurinos de filmes do meu culto pessoal, peluches de desenhos animados manga, ratinhos de corda (que ofereci ao meu gato mas ele não brinca com eles...), brinquedos de latão, cavaleiros medievais...aiiii, aquelas peças baseadas em quadros famosos na "Arte Periférica" do CCB!!!...Ui, demasiado caros...O €uro chegou e aumentou para o dobro...um corneto custa quase 2€, 400 escudos!!! Então a porra destas bonecas deliciosas quase chega aos 5 contos, até mais, dependendo da própria edição da boneca, do país da encomenda, do estado da embalagem, dos portes de envio... Só casando com o Cristiano Ronaldo, pá...

Eliza Day, the wild rose, morta pelo Nick Cave

Wednesday, June 17, 2009

Crónica suburbana

Vizinhos. Esse substantivo que quer dizer "alguém que está próximo", mas ao mesmo tempo estamos tão distanciados dos mesmos. Na minha vilazinha suburbana na área da Grande Lisboa, tenho-os aos montes e todos eles me conhecem, eu é que tenho uma péssima memória para registar caras e não os reconheço quando se me dirigem. Todos eles são caricatos e carismáticos. As velhotas já corcundas que querem beijocas pra lá e pra cá e que me conhecem desde pequena dizem-me todos os dias coisas como: "Andei contigo ao colo e agora já tás uma mulherzinha!!", ou então: "Ai filha, tás igualzinha à tua mãe!". Como é que eu estou igualzinha à minha mãe?? Com a minha idade ela era uma espirra-canivetes, usava óculos nerdy, tinha os dentes todos tortos e sardas até mais não ("Se Deus te marcou, um defeito te achou"...). Pobre mãezinha, descrevo-a como se fosse feiota, mas na realidade todas estas características tornam-na num ser fisicamente muito interessante (se eu não dissesse isto ela ainda me batia, ou pior, deserdava).
Tenho o vizinho surdo-mudo que fala pelos cotovelos (ao fim de 20 anos já o consigo entender) e a vizinha surda-muda que também fala pelos cotovelos (mas ao fim de 20 anos ainda não a entendo); a mulher do surdo-mudo que nunca tirou a carta de condução e agora conduz um "porra-velhos" (Deus nos guarde, que a dona bate em tudo quanto é sítio!); a Senhora Mariazinha dos dentes, que parece o Quagmire devido à sua extraordinária proeminência dentária, e é uma querida; a Senhora Maria dos ovos, fornecedora implacável de ovos de galinha à comunidade sant' adrianense; a Dona Belinha do quiosque, eterna distraída, esquece-se sempre de me guardar os filmes que saiem com os jornais; o Sr. Agostinho da drogaria e o seu adorável boxer Jacques; as cabeleireiras da Luísa Seco, fabulosas profissionais e cuscas-mor (olha que estereótipo...); o meu avô e os seus camaradas que se reunem no jardim todas as tardes a discutir a situação do governo e do Benfica; os velhos que se deitam, levantam e comem com as galinhas e logo ás 9h da matina já fazem fila nos correios, como se não tivessem o resto do tempo livre...; a Dona Cremilde, a quem nós homenageámos ao dar o seu nome a um jarro de água que era parecido com ela; a Lourdes Burjona e o seu marido que fazem juz ao seu apelido; o maluco da vila, um senhor muito simpático e que vai a todos os velórios; o sem-abrigo bêbado e os seus dois inseparáveis cães que correm atrás dos carros a tentar morder os pneus...etc, etc, etc.
Um conselho: não se armem em bonzinhos e ajudem uma senhora a levar os sacos das compras. Eu devo ser a Santa Paciência, sinceramente. Noutrodia saí de casa por volta das 17h30 e só cheguei as 20h!!! E porquê? A Filipa foi buscar uns maravilhosos quadros emoldurados vindos de Cabo Verde, isto demorou cerca de 10 minutos, e ao voltar para casa apanho na rua uma senhora de idade, que carregava uns sacos de compras bastante pesados. A Filipa não tinha pressa, tava contente com os seus quadros e preparou-se para a boa acção do ano. Sim, do ano, porque no resto dos dias sou uma peste...Então pergunto à senhora: "Minha senhora, precisa de ajuda?", e nada, a senhora continua a andar vagarosamente à minha frente. Eu pergunto outra vez, mais alto, e nada...então toco-lhe no ombro e a senhora dá um salto, assustada. Digo-lhe que não sou nenhuma assaltante e proponho-me a levar-lhe os sacos, ao que a senhora não ouve de novo, obrigando-me então a tirar-lhe os sacos da mão. Ora no que eu me fui meter! Calhou-me en mouche uma tarada religiosa, viúva e a viver sozinha que proclamou aos céus "Ai menina, é um anjo que caíu do céu!!!" (e eu a pensar: "o único anjo caído foi o Diabo...")...Resultado: na 1h e 4o min seguintes tive de aturar a senhora, que vivia perto mas parava a cada passo que dava para falar sobre Deus e os anjos e o Demónio e as criancinhas e animais inocentes a quem rezava todas as noites antes de dormir e todos os dias ao acordar. Contou-me acerca dos supostos milagres a que assistiu (e eu a pensar: "minha senhora, isso foi um eclipse..."), contou-me como tinha ficado surda e como este ano, no seu dia de aniversário conseguiu ouvir todas as pessoas que lhe ligaram até chegar à meia noite (e o efeito Cinderela desaparecer...). Bem, às tantas lá chegámos ao prédio da senhora e após ter sido abençoada inúmeras vezes (eu, a agnóstica), lá fui eu, absolutamente traumatizada para casa...
Outra cena cómica: o ano passado ia eu a dar uma volta pela vilazinha, a marchar com as minhas botas de biqueira d'aço, quando passo por uma velhinha de luto e de canadianas que se vira para mim e diz: "Ai minha linda, que botas tão bonitas tens tu! Que Deus te dê saúde para as poderes gastar!!". Meio aparvalhada, agradeci à senhora e nem sequer pensei que caminho tomar na curva...NINGUÉM GOSTA DAS MINHAS LINDAS BOTAS, E AQUELA SENHORA GOSTOU! ALELUIA!!!
Mas os melhores vizinhos vivem no meu prédio, que deve ser o mais barulhento aqui da zona. Temos a Don'Alice que passa o seu santo tempo a pescar as peças de roupa que nós deixamos caír da varanda quando a estendemos e depois disso enfia-as na caixa do correio. A Carlota, uma viúva alegre que limpa as escadas todos os dias. Os meus vizinhos de baixo, namorados, que durante o dia discutem aos altos berros e batem-se (pelos sons parece que atiram com a cabeça um do outro contra a parede), e ,quando chega a noite, chega também a reconciliação, igualmente barulhenta e mesmo por baixo do meu quarto...E ainda têm a lata de vir bater à minha porta quando ponho a música alta! A Dona Mariana, surda que nem uma porta, que põe "As Tardes da Júlia" aos gritos mesmo por cima da minha casa. É dona da Linda, uma cadela minúscula e hiperactiva que desata a dar voltas e me lambuza toda quando nos encontramos nas escadas. Os novos vizinhos do andar de cima: credo, estes ainda são piores que a Júlia Pinheiro e consideravelmente mal-educados. Gritam para o mal e para o bem: tanto vem um "come essa merda toda, meu otário dum caralho!" como um "Ó mori, traz-me aí uma jola fresquinha!"...isto a toda a hora, porra! É de risos!!! Mas não me quero meter com eles...livra!!
Será que nós nos safamos no meio disto tudo? Nem por isso...
Eu não vivo na Brandoa...mas pelos vistos isto anda lá muito perto. E na verdade, adoro viver aqui, fónix!

Saturday, May 23, 2009


MORRISSEY
I come to wish you a happy birthday...because you're lovely and you're honest and if you should die I would feel absolutly miserable and I would cry...from the one who shall never leave you behind.

Morrissey: he is a reference to me, not necessarily an influence. I listen to his music every single day, it is essential to me. For more or less five years now that I’ve been loving this man, his music and his way of thinking, at least in what I can understand from his statements. I don’t know him personally, although I would surely love to.
In the year of 1984, an album from a band called The Smiths was released, it was the first album of a group of four young adults from Manchester, England, and it kick-started a huge phenomena. The Smiths were headed by this weird guy called (Steven Patrick) Morrissey, weird because in a time when hair-rockers like the Twisted Sisters, glam-rockers like David Bowie, extravagant stars like Duran Duran and rebellious youth punks like the Buzzcocks were invading the music industry of the 80’s, there came this unusual bloke, who dropped his music, personality and ideology “louder than bombs” in the UK cultural and social scene. Mancunian bands have always been quiet, (sub)urban-depressive, sad, very dark and hazy (like Joy Division) mainly because of the atmosphere that fell over Manchester, the black and white town, the northern-England industrial grey, cold and ugly city with suicidal and homicidal tendencies, inhabited by Irish immigrants and the working class. The Smiths didn’t escape this ambiance, so, Johnny Marr’s music along with Morrissey’s lyrics mirrored perfectly the feelings of certain layers of a society always with a very subjective view on the matters. They were and still are the voice and ultimate ensign-bearers of generations from the 80’s until now: after everyone understood the importance of what this guys professed, Morrissey became a symbol, a God, he was nearly canonised by a growing group of followers.
He was a time-bomb against monarchy, politics, religion, animal mistreatment, meat, scholar miseducation, paedophilia, and so on, his fabulously poetic lyrics would show this and his public assertions would provoke great controversy concerning the established system in conservative England under Margaret Thatcher’s government.
I didn’t live this troubled time, actually, I was born a year after The Smiths ended up their short but great career in 1987, so how is it that their front man Morrissey is such an alluring individuality to me? Besides that he has kept a very productive solo career in music which lasts so far as nowadays, I appreciate him for the fact that he is one of the few people whom we know by distance (a famous one) that I can feel as a genuine being, he is idiosyncratic and he stands permanently for his beliefs, many of which I share and have to support due to the amount of reason and rationality they bear. Morrissey writes and sings about things that have already been said and that many people do feel, although he does it in a very different way: rock and pop music have never been so “hand in glove”, so truthful and so beautiful as in Morrissey’s music. He sings the frailty of life, the incommunicability, the strangeness of the distance between boys and girls, the desolation, the disappointment, the sorrow for what is unreachable… all this told with the most polished irony, sarcasm and emotional intelligence.
It’s amazing the impact that The Smiths and Morrissey can have in one’s life, once we are involved in the essence of their music. Their influence twenty years ago and their influence for the ones who capture it nowadays acts deep in the field of authenticity: it’s so crucial to listen to someone significant in a world of lies, fallacy and mass-broadcast of fake people and ideals (TV plays a major role in the formation of dim-witted persons), that when we find something or someone worth holding on to as a meaningful experience or acquaintance, it strikes us for life. This looks like a kind of misanthropy, but the fact is that Morrissey communicates it and makes people aware of what they are or might become in an universal context, even if for that he must underline the illness of society and the fallible human being.
That’s the impact Morrissey has on me, and the reason why I take him as a reference amongst so many other people, of course not above family or friends, but in a very different rank from fellowship influence. He is a supportive outsider and I thank him for making so much sense to me. God bless him!

Screaming Jay Hawkins - "I put a spell on you"



Lenda gritante dos blues...servindo de banda sonora a uma curta-metragem diabólica.

Os Comunistas Comem Criancinhas ao Pequeno-almoço!
Publicidade ao Museu do Comunismo em Praga, com uma Matrioshka sanguinária, simplesmente genial...
HAHAHAHAHAHAHRRRRRGGGGGHHHH...juntando-lhe o chavão direitista que fazia do comunismo o "monstro-papão", que também matava os velhinhos com uma injecção atrás da orelha!
Quando eu era pequenina assustavam-me era com o homem do tractor...

Thursday, May 21, 2009


João Bénard da Costa

7/2/1935 - 21/5/2009

Monday, May 18, 2009

Cabo Verde, Nha Cretcheu

Uma reportagem feita no âmbito da cadeira de Géneros Jornalísticos, após uma viagem inesquecível à Ilha do Sal...ai ai:

Um retrato da Ilha do Sal, ponto turístico de maior importância em Cabo Verde, mostra-nos mais do que a simples civilização orientada para a atracção turística. O interesse maior de uma das mais pequenas ilhas cabo-verdianas é mesmo a sua textura social e cultural, que é capaz de englobar Cabo Verde inteiro numa única extensão de terra.

Próxima da costa oeste do continente Africano, a paisagem típica da Ilha do Sal resulta de um clima tropical, seco, com influência dos ventos do deserto do Saara. Toda a ilha é plana, com montanhas que se elevam, solitárias, no meio de um deserto de terra batida. A sua origem vulcânica é denunciada pela aridez da terra, onde raramente se encontra vegetação neste arquipélago de Cabo Verde, país que justifica o seu nome pelas paisagens naturais de outras ilhas, de clima mais temperado e húmido, situadas mais ao centro do Oceano Atlântico. Os recursos endógenos provêm da plantação de frutos e leguminosas, da pesca e daquilo que dá o nome à ilha, o sal.

Na ponta mais a sul da Ilha encontra-se a vila de Santa Maria com as suas praias, rodeada de hotéis que fazem as delícias dos turistas. Para se conhecer Cabo Verde não basta desfrutar do comodismo de um hotel com as suas noites de animação, há que contactar com a população local, é preciso olhar e, principalmente, ver, observar, aproximarmo-nos e fazer um reconhecimento do ambiente e das pessoas que nos rodeiam. Jacques, um jovem pescador originário da Ilha de São Vicente, resumiu o encanto de Cabo Verde ao dizer-nos “África é um sítio mágico...vocês chegam aqui e são tocados por essa magia. Cabo Verde, nha cretcheu”. Ao perguntar-lhe acerca daquela expressão em crioulo, Jacques diz que significa “Cabo Verde, meu amor”. Recordo então a série sobre os PALOP emitida pela RTP África, “Nha Terra, Nha Cretcheu”, e apercebo-me da acepção dessa expressão. O crioulo, com todas as suas variantes, fascina mesmo sem entender-mos a maior parte do que é dito.

No pontão da vila de Santa Maria, uma estrutura de madeira instável, com buracos entre as traves, juntam-se os pescadores, que após voltarem da sua lida, ali estripam e vendem o produto do dia. É uma azáfama entre pescadores e compradores dos peixes esventrados, atuns na sua maioria. Numa terra de mar, de onde todos os dias partem inúmeros barcos de pesca, é estranho as refeições providenciadas nos hotéis ali mesmo ao lado serem constituídas por um menu repleto de carne.


A população é amigável, prestável e bem-disposta apesar da pobreza que já se esperava num local destes. A maioria das pessoas que andam nas ruas são comerciantes, que estabelecem bancas na calçada que percorre as praias, ou que vêm atrair-nos para as suas lojas. “Olá portugueses! Sou Camilo Fresco!”, diz um deles, que vem ter connosco, já saudando-nos de longe. Cumprimentamo-nos e ele oferece-nos umas pulseiras de missangas, conduzindo-nos depois ao armazém que partilha com um brasileiro. Ao oferecer algo, temos de comprar outra coisa em troca, é assim que funciona. Chegamos a uma ruela estreita transversal à avenida principal e entramos numa pequena loja dividida em duas salas, a do fundo pertencente ao nosso “guia”. Na outra divisão começamos a olhar os artigos do brasileiro, velharias e antiguidades, memórias da presença portuguesa em África, frascos cheios de medalhas, cantis pendurados na parede ao lado de máscaras africanas. Com o brasileiro Mirandinho está um mestiço, que ao perceber que somos portugueses começa a falar connosco. Diz-nos que também é português e que veio para Cabo Verde para ficar. Pergunto-lhe de que terra ele vem e para surpresa minha ele diz “Vivi na Póvoa de Santo Adrião, antes de vir pr’aqui”. Entusiasmada, digo-lhe que eu moro na Póvoa, desde que nasci. O homem diz-me que morava ao pé do “Caçoilo Preto”, um restaurante local. O mundo é pequeno...cresci nessa rua e o senhor é um antigo vizinho dos meus avós, ainda se lembra deles e diz que o conheciam por Coutinho. O que o levou a sair de Portugal foi um negócio que correu mal, abandonando toda uma vida anteriormente estável e começando do zero, ali, naquele “lugar ao sol”, nas palavras do próprio. Prometi-lhe saudações aos vizinhos e saí dali com uma velha medalha italiana oferecida.

“Amigo di Filipa é meu amigo!” proclamava um jamaicano emigrado, de cada vez que os meus acompanhantes entravam numa loja. Eu andava a vasculhar tudo, entrava em todos os sítios e falava com a gente. Conheci a Marieta, ama de um bebé branco, que lhe dava de mamar à sombra de um chapéu. Dizia ela que “o leite das pretas é melhor que o das brancas! Si tens um filho traz a mim!”; prometi à Margherita, que trazia a filha ás costas numa capulana, que seria ela a fazer-me umas tranças “Pergunta pela Margherita, mãe da Isabella!!”, gritava ela enquanto eu me afastava.


Toda a vila ecoava pobreza mas não carência. As casas eram coloridas, de cores garridas a combinar com o sol radioso, o exterior das lojas estava pintado com elementos africanos, os cafés tinham bancos de vários feitios e cores. Parecia o cenário de um filme em technicolor. Santa Maria tinha música cabo-verdiana a soar de todos os becos, chegavam-nos aos ouvidos os sons dos berimbaus dos vendedores de rua que dedilhavam habilmente as seis cordas do delicado instrumento, e o som relaxante do bamba, como uma canção de embalar. As mornas de Cabo Verde rimam com aquele ambiente brando, morno. Lia-se o lema “nô stress” em cada esquina. E isto não era só em Santa Maria.
Numa velha camioneta abafada fizemo-nos à estrada para conhecer o resto da Ilha do Sal. Na companhia do autóctone Anselmo, passámos o aeroporto Amílcar Cabral, o antigo Instituto de Línguas e a residência do Presidente Pedro Pires na Ilha do Sal. O Anselmo ia-nos informando acerca da vida naquela ilha: não existe um único hospital, apenas clínicas, e as cesarianas tinham de ser feitas numa sala reservada no aeroporto; o professor de inglês abandonou a ilha e foi para os Estados Unidos, obrigando ao fecho do Instituto; a residência presidencial é vigiada por um guarda que está 48 horas de serviço, mesmo que o Presidente não se encontre na Ilha do Sal e quando por ali passa prefira ficar num hotel. Observámos uma outra realidade, diferente da de Santa Maria: as vilas que se espalhavam pelo deserto pareciam bairros retirados de uma favela. Vista de longe, Murdeira parecia um centro de pesquisa de actividade extraterrestre, no entanto, todos aqueles aparelhos que se elevavam acima das casinhas precárias eram afinal antenas parabólicas, pois a partir das nove da noite ligam um gerador para poderem ver as telenovelas da SIC. Os antigos territórios ultramarinos ainda necessitam do apoio português e de outros países: a água engarrafada, as telhas, os materiais de construção, a maioria dos canais de televisão, entre outros, são importados.


Longe de qualquer vila, vemos uma pequena igreja “perdida” no meio do nada desértico. Anselmo diz que “para nós, Deus está em todo o lado, mesmo onde não vivem pessoas. Elas deslocam-se aqui onde quer que vivam.” “A fé é que salva a gente”, segundo diz o ditado popular. É raro ver um habitante de Cabo Verde que não use um objecto de culto religioso, ou de cariz esotérico, como as cruzes, as pedras contra o mau-olhado e as moedas da sorte que são dadas aos visitantes.

Nas vilas de Palmeira e de Espargos descobrimos outros centros de actividade cultural e social: aqui existem mercados com bancas repletas de frutas onde saboreámos a famosa água de coco; a biblioteca municipal Jorge Barbosa, em homenagem ao poeta cabo-verdiano; lojas chinesas que vendem LCD’s e microondas; escolas primárias, não se ensina o secundário; feirantes à sombra de um jardim que vendem roupa em segunda mão; a barbearia SLB (os mais velhos ainda são adeptos do Benfica, enquanto que os mais novos preferem o Futebol Clube do Porto); o cinema local fechou porque os habitantes aderiram à emergência dos DVD’s e dos filmes pirateados; “fontenários” onde se forma uma fila de gente que carrega bidões para se abastecer da água salobra da Ilha do Sal.


Ao fazermos uma curta paragem junto a um café, somos rodeados por um grupo de crianças que começam por nos olhar intrigadas. Começamos a falar com elas e rapidamente estabelecemos uma ligação com aqueles miúdos, ansiosos por atenção. A Luizana era a mais extrovertida, falava dos irmãos sem parar e fazia-nos as perguntas da “idade dos porquês?”. Tinham todos entre 6 e 7 anos e estavam de férias da escola. O José olhava compenetrado para a garrafa de água que eu trazia na mão, e assim que lha passei bebeu-a sofregamente e pediu-me para ficar com ela. Pediam-nos também moedas, desaparecendo logo que distribuímos uns euros e uns escudos cabo-verdianos. Ali perto, um rapaz dos seus 12 anos ensinava ao irmão mais novo uns passos de dança enquanto cantarolava. Todas as pessoas que encontramos pelo caminho têm a dança e a música a percorrer-lhes incansavelmente no sangue, é uma característica comum a toda a gente. O ritmo, a batida, a música nasceu em África: está no corpo e na alma dos africanos e é contagiante.

A Buracona é assinalada por uma placa esburacada. A beleza natural do lugar cativa para o melhor banho da viagem. O Olho Azul, um pequeno buraco aberto na rocha, deixa-nos estupefactos perante o efeito que a luz do sol provoca ao incidir na água no fundo da gruta, formando o tal “olho azul”. A Buracona consiste numa “piscina” oceânica natural. É preciso cautela ao descer as rochas, num caminho mais longo de percorrer do que os minutos que desfrutámos daquela água. Os rapazes já habituados ao sítio, mergulham e dão saltos mortais para dentro da água pouco profunda e pejada de rochas no fundo. Ao voltarmos ao cimo, espera-nos uma banca de bebidas refrescantes que pertence a outro português emigrado para Cabo Verde, um homem de poucas palavras, de rosto rude.
Já nas salinas de Pedra de Lume, observamos as antigas estruturas de extracção do sal junto a um vulcão inactivo. Aqui a exportação do sal já não está activa, devido à existência das salinas mais a sul, de onde provem a maior parte do sal. Das várias salinas ao longo da Ilha do Sal, esta é a maior, estendendo-se pela planície rodeada de montanhas, com um lago de água quente vulcânica ao longo dos quadrados formados. Como num banho de imersão, estendemo-nos ao comprido na água salgada das pedras de sal, hidratante e revitalizante natural para a pele. Esta salina destina-se agora a fins terapêuticos, pois o crescimento económico da Ilha do Sal desenvolveu-se a partir das infra-estruturas turísticas implementadas no inicio dos anos 90 do século XX, em detrimento do recurso endógeno que mais produtividade dava à Ilha. Mesmo assim, ainda se encontra actividade nas salinas do sul, onde é feito o armazenamento de sal.



Fica aqui a paixão por Cabo Verde, pela Ilha do Sal, pela chama africana, por todo o exotismo e diversidade que podemos experimentar. Fica também a saudade da terra e dos seus, a recordação do cheiro da maresia, do sal, até da cachupa. África é na realidade um continente mágico, que deixa uma marca cravada no coração e o desejo de voltar um dia.


Monday, May 04, 2009

No semestre passado, tivemos de fazer um trabalho de grupo para a disciplina de Géneros Cinematográficos. Publico o resultado aqui, creditando as minhas colegas e amigas Ruth Cruz, Sara Vidas e Rita Porto. Foi aliciante e recompensador fazer este trabalho de análise de dois filmes, "A Semente do Diabo" e "Drácula de Bram Stoker", daí colocar aqui no blog o nosso texto:



Género Fantástico e Terror

O género do domínio do fantástico e terror desde o princípio da humanidade civilizada que inspira uma série de sentimentos que atraem principalmente mas também podem repelir a atenção do homem. Os fenómenos paranormais ou sobrenaturais são, como o nome indica, estranhos à regularidade comummente observada mas que por muitos já foi constatada, passada de boca em boca até se tornar um mito, no entanto, um mito questionável e para o qual muitas vezes a ciência não encontra resposta.
O medo, o receio, estão inerentes ao desconhecido, àquilo que é estranho aos olhos do ser humano: veja-se Pan, o demónio dos bosques e dos pântanos, o indutor do pânico. Geralmente, o medo que os homens experienciam face ao desconhecido é traduzido na criação de personagens que incarnam esse sentimento, personagens mitícas, como Pan, ou históricas, como Vlad, o Empalador. Outras histórias são plenamente verídicas, mas como “quem conta um conto, acrescenta um ponto” já não se pode saber verdadeiramente as diferenças entre os documentos históricos e a palavra popular. Da húngara Érszebet Bathory, cognominada de “a condessa sanguinária”, afirma-se que para permanecer sempre jovem e bela, mandava raptar adolescentes virgens a quem retirava o sangue à força, assassinava violentamente para a seguir se banhar no sangue “purificador” dos pecados cometidos.
O elemento aterrorizante ou sobrenatural é essencial para o folclore e as lendas locais de todas as regiões e países do mundo. É uma forma de manter as mentes alerta ao revestir as consciências individuais e colectivas de um povo de que a vida está sempre acompanhada de algo que se sobrepõe ao normal e que constitui o lado obscuro de uma vivência, como a própria morte. O medo é uma das emoções primárias do homem, que desde sempre viveu aterrorizado em relação ao que não compreendia, ao oculto, ao extraordinário que não está estabelecido nas convenções sociais. O género fantástico na literatura, antes do cinema existir, era olhado com uma certa repugnância, como resultado do delírio das mentes perturbadas de poetas e escritores. No entanto, este tipo de literatura é dos que mais desperta o interesse do leitor, deixando-o agarrado às páginas, absorvendo a realidade fantasiada que o livro propõe. Já no campo cinematográfico, o género fantástico e de terror assemelha-se a uma experiência mais palpável: uma capacidade exclusiva do audiovisual é conseguir provocar no espectador uma maior percepção das emoções que apenas através da imaginação conseguia captar dos livros, pois o audiovisual estimula ainda mais os sentidos. O estranho e a estranheza vêm igualmente de outro predicado: o outro. Os outros, sejam pessoas, seres vivos, natureza ou fenómenos, estão incluídos naquilo que o indivíduo à partida não compreende por ser exterior a si mesmo. A incompreensão gera confusão e, por consequência, medo do que daí pode advir.
Segundo Pierre-Georges Castex na sua obra Le Conte Fantastique en France, “o fantástico é caracterizado pela intrusão brutal do mistério no contexto da vida real”. Existe um equilíbrio inicial que é quebrado, dando lugar às peripécias que provocam a ruptura desse equilíbrio a qual, neste caso, dá-se através da intrusão de um fenómeno extraordinário, pertencente ao fantástico, e no final, o retorno ao equilíbrio é relativo, pode acontecer ou não. Quando o fantástico surge no seio da ficção, é normalmente acompanhado por uma descrença inicial das personagens que jamais o experimentaram e que, a partir daí, passam a acreditar, adoptando algo que se pode compreender como o “trauma” do mistério desvendado ou o “trauma” da experiência do fantástico. As personagens, ao serem tocadas pelos fenómenos sobrenaturais aos quais não estão habituados por não ocorrerem no seu quotidiano regular, ficam “traumatizadas” pela súbita intrusão de algo misterioso que até aí apenas conheciam através de histórias populares, mitos e crenças de há anos ou séculos atrás.
Na ficção literária e cinematográfica, o Fantástico e Terror inspirou inúmeras obras de autores consagrados ou pouco conhecidos: na literatura Bram Stoker, Edgar Allan Poe, H. P. Lovecraft, Sheridan Le Fanu, Mary Shelley, Montague Summers, Fialho de Almeida, J. K. Huysmans, Guy de Maupassant, uns especializados no género, outros que se aventuraram. No cinema, Friedrich Wilhem Murnau, Werner Herzog, Carl Theodore Dreyer, John Carpenter, Roman Polanski, Tod Browning, Roger Corman, Francis Ford Coppola, William Friedkin, David Cronenberg, Georges Franju, Ingmar Bergman, foram alguns dos que, uma ou várias vezes ao longo das suas carreiras, experimentaram edificar um filme de cariz misterioso ou fantástico.
Mas o fantástico nem sempre inspira terror, daí haver uma diferenciação entre o género fantástico e o terror, que é considerado uma ramificação do primeiro. Por vezes o fantástico é marcado pelo apelativo sonho, o onírico é uma constante neste género. A título de exemplo, a história de “Alice no País das Maravilhas” e “Alice do Outro Lado do Espelho” de Lewis Carroll, mantêm um compromisso com uma ingenuidade plena de significados e interpretações múltiplas, e aí, mesmo o desconhecido, inspira desconfiança mas não medo ou terror; os filmes surrealistas de Luís Buñuel como Un Chien Andalou, em que as suas personagens saltam da realidade para o sonho sem sequer o estranharem (o mistério); o cinema de Terry Gilliam e de Guillermo del Toro, no qual a realidade é distorcida, assim como nos contos dos irmãos Grimm e de Hans Christian Andresen.
A corrente romântica na literatura foi o que impulsionou a explosão do género fantástico e de terror, a algo que ficou conhecido como o estilo gótico. Isto aconteceu no século XIX e prolongou-se até aos dias de hoje, com seguidores dos autores já mencionados. Esta proeminência do gótico na literatura contrariava os pressupostos dos séculos anteriores, como toda a Idade Média, a qual, com a perseguição e caça às bruxas, a condenação por parte da Igreja, a Inquisição, fazia com que a literatura fantástica fosse altamente criticada e indicada como satânica, ligada à bruxaria, cujos autores faziam pactos com o Diabo. No século XIX, mesmo alguma literatura que não constituía o género fantástico, incluía características deste, como por exemplo o único e belíssimo romance de Emily Brontë, "O Monte dos Vendavais". Neste livro, um homem, Heathcliff, e uma casa são assombrados pelo fantasma e pelo espírito da amada morta, Kathy, numa narrativa potente com uma trama obscura.
A perda da razão verifica-se especialmente no meio intelectual do século XIX, com todas as suas inovações tecnológicas, políticas, económicas, sociais e culturais. Os intelectuais oitocentistas começaram a denotar nas suas opiniões, muitas vezes traduzidas em obras literárias, uma ideia de decadentismo como resultado da acelerada evolução civilizacional. Escritores e poetas, como Charles Baudelaire, manifestaram esta ideologia no seu trabalho literário, caracterizado por um profundo descontentamento com os tempos modernos. O spleen de Baudelaire, esse spleen tipicamente britânico, adquire um novo significado para o Romantismo e Modernismo no século XIX. Originalmente significa enjoo, raiva, cólera, mas a acepção adoptada pelos românticos refere-se ao spleen como sendo um estado de melancolia, tédio, alheamento, conotado com uma ideia de decadentismo, anti-positivismo, relacionado com o mal du siécle. A grande insatisfação trazida pela inovação excessivamente acelerada com a Revolução Industrial, manifesta-se impetuosamente na escrita dos autores do género gótico, pois tal como Baudelaire afirmou, “a poesia e o progresso contrastam-se”, isto é, a literatura é a grande arma do espírito critico que provoca a ruptura entre o Homem e a sociedade moderna na qual se insere. Verifica-se a predominância da crítica à saturação social, consequência de uma outra saturação ao nível tecnológico. A amargura quase indiferente para as comunidades postas à margem do capitalismo e da renovação permanece eternamente resoluta na sua condição de malaise. Estes escritores processam uma distanciação em relação à humanidade moderna e aos ideais iluministas para se dedicarem a uma espécie de obscurantismo vivencial incitado pela decepção e pelo enfado. Os criadores de contos e histórias de terror e fantástico do século XIX, sentiam necessidade de romper com toda a inovação trazida pela tecnologia e a Revolução Industrial, toda a lógica racionalista foi posta em causa por vários autores que então enveredaram pelo género da literatura gótica, com um tom negro, mais obscuro, no qual o sobrenatural entra de súbito na vida comum das pessoas que nunca antes haviam contactado com tais fenómenos. Nada mais fora do comum do que a contrariedade implementada pelo fantástico e terror numa época em que o que mais se respeitava e aprazia era a veracidade e o método racionalista. Foi uma espécie de escapismo para os autores do género gótico na literatura, para fugir ao crescente capitalismo e progresso que afectava toda a sociedade nessa altura.
Na Inglaterra da época vitoriana e do pós-colonialismo assiste-se a um reverso na literatura: os contos góticos, de terror ou as narrativas que abordavam os temas dos conflitos com as nações colonizadas, adoptaram uma diferente perspectiva daquela que até então vigorava. Anteriormente, os autores criavam personagens, heróis provenientes do país dominante que submetia os colonos à sua vontade. Após isto, quando o Império Britânico iniciou o seu declínio, as consequências aos níveis social, cultural e político acarretaram consigo uma mudança das percepções até então vigentes, conduzindo a que, no panorama literário, se alterasse o comportamento inerente às personagens. Escritores como Rudyard Kippling ou Joseph Conrad, que em “O Coração das Trevas” (que inspirou o filme de Francis Ford Coppola Apocalypse Now) faz do personagem Kurtz um homem alucinado que abandona a sua educação ocidental para se aliar aos povos indígenas asiáticos; as histórias pertencentes ao fantástico e terror passam a incorporar heróis/vilões originários de países considerados “menores”, subjugados ao poder ocidental europeu mas invadem o território e aterrorizam os personagens que anteriormente seriam os heróis, como “Drácula” de Bram Stoker, um vampiro do leste europeu.
Muitos dos filmes que se baseiam no género fantástico e terror resultam da literatura que veio à luz no século XIX e que desde logo influenciou a actividade do cinematógrafo inicial no final do século XIX, inícios do século XX. O primeiro filme de terror da história do cinema data de 1896, é da autoria do realizador Georges Méliès e chama-se Le Manoir du Diable.
Quando o cinema dava os primeiros passos, os efeitos produzidos pela fabulosa Lanterna Mágica eram bastante propícios à realização de filmes de cariz fantástico ou de terror, pois a estética, a realização, a resolução da imagem, concediam um certo efeito fantasmagórico às películas, através da imagem desbotada, as cores esbatidas, a velocidade da acção mais veloz do que o que é normal, as técnicas de montagem que permitiam entrar no território da fantasia e os efeitos especiais rudimentares. Os espectáculos de magia no cinema eram muito cotados, pois para além de que sem que o mágico/artista esteja à frente de uma câmara de filmar, a arte mágica é um fingimento, uma ilusão, a qual, num ecrã de cinema, atendendo à citação de Jean-Luc Godard de que “o cinema é mentira 24 vezes por segundo”, esse fingimento e essa ilusão duplicam no Cinema, a “grande ilusão”.
A esfera do fantástico é uma esfera muito abrangente. Inúmeras obras literárias e cinematográficas possuem elementos pertencentes ao fantástico, à fantasia, ao sobrenatural, ao extraordinário, ao surrealismo, entre outros. O terror corresponde a uma narrativa não obrigatoriamente relacionada com o fantástico: em filmes como Freaks de Tod Browning e "Massacre no Texas", em que o terror é provocado por seres humanos contra outros seres humanos, nestes casos, os bárbaros ou assassinos possuem deficiências físicas ou mentais que, já de si, aterrorizavam os outros. Os circenses de Freaks, cujo nome pode ser traduzido para “aberrações”, são na sua maior parte indivíduos deformados que vivem explorados pelo circo para que as suas características físicas impressionem e entretenham o público, desde anões, a homens sem braços e sem pernas, uma hermafrodita, gémeas siamesas, etc. A exclusão social e o alvo de troça aos quais já estão habituados, culmina quando uma arrogante e pretensiosa trapezista se aproveita de um anão que herdou uma fortuna e que se encontra fascinado pela beleza dela, para se casar com ele e, a partir daí, começar a envenená-lo para que ele morra e ela seja a herdeira. A trapezista, que troçava atrozmente dos restantes circenses, é, numa terrível noite de chuva e trovoada, enquanto o circo mudava de localidade, emboscada e atacada por todos os freaks que acabam por transformá-la numa semelhante a ser exibida numa feira de aberrações. Já em "Massacre no Texas", as deficiências e perturbações mentais adquiridas pelo bando de assassinos são usadas para torturar, encarcerar e assassinar um grupo de adolescentes perdidos num bosque. Também "O Homem Elefante" de David Lynch aborda a questão da deficiência física, apelando a uma observação menos científica e mais íntima da doença. Em "O Cabo do Medo" de Martin Scorsese, o personagem de Robert De Niro, um ex-presidiário, começa a aterrorizar a família do advogado que o defendeu, dizendo-se que nesse filme o actor falava com a própria voz do Diabo, incorporando o terreno do terror humano.
Para analisar o género do fantástico e terror no cinema, escolhemos dois filmes de duas épocas diferentes, ambos no domínio do fantástico e que tocam o terreno do terror por incluírem o temor provocado pelo sobrenatural: “A Semente do Diabo – Rosemary’s Baby” de Roman Polanski (1968) e “Drácula de Bram Stoker – Bram Stoker’s Dracula” de Francis Ford Coppola (1992). O primeiro aborda a personagem que mais terror inspira por ser considerado o “soberano das trevas”, o Diabo, e o segundo tem como figura central o mais famoso vampiro de todos os tempos, o conde Drácula.



A Semente do Diabo

Sinopse: Filme adaptado do livro de Ira Levin, em que um jovem casal, Rosemary e Guy Woodhouse, se muda para um velho apartamento em Nova Iorque para iniciar uma vida nova e constituir uma família. São prontamente “acolhidos” pelo casal de idosos vizinho, Roman e Minnie Castevet, que se revelam excessivamente atenciosos. Guy é um ambicioso actor que, em busca de fama, se deixa seduzir pelos estranhos vizinhos e faz um pacto com o Diabo. Este pacto especificava que, em troca da fama e do sucesso granjeados por Guy, o Diabo fecundaria Rosemary, a qual seria a progenitora do filho do Diabo na Terra.

Análise: Rosemary’s Baby obteve um grande sucesso dando a conhecer ao público uma nova faceta do género terror até então não explorada: a popularidade da narrativa mostrou que os filmes de terror não eram mais um género de culto mas sim um potencial mercado para as massas. Esta história não se destina a um nicho do público e sim às massas já que a terrível narração é inserida num contexto urbano no qual as personagens vêem o seu quotidiano invadido por elementos diabólicos.
“A Semente do Diabo” conta-nos a história dos recém-casados Rosemary e Guy Woodhouse que, para começarem uma nova vida, mudam-se para um novo apartamento em Bramford, Nova Iorque. Rosemary é uma jovem que anseia ficar grávida para poder estabelecer uma família com o seu marido, no entanto, Guy investe muito mais tempo na sua carreira de actor (até então fracassada) ignorando os desejos da mulher.
A casa para onde estes se mudam esteve, outrora, ligada à casa dos seus excêntricos vizinhos, Roman e Minnie Castevet, que prontamente “adoptam” o jovem casal. A princípio, Guy resiste a esta aproximação enquanto que Rosemary, inocentemente, rapidamente socializa com o casal. Este cenário, porém, inverte-se quando, depois de um jantar com os Castevet, Roman insinua uma certa influência no mundo do espectáculo levando o ambicioso Guy a aproximar-se do casal. Todavia, Rosemary suspeita cada vez mais dos Castevet: começa a perguntar-se porque é que a antiga inquilina barricou a porta que liga o seu apartamento ao dos Castevet; começa a ouvir estranhos cânticos vindos da parede que os liga ao apartamento dos vizinhos; a rapariga que vivia com os Castevet, Terry, inesperadamente comete suicídio e Minnie oferece a Rosemary o mesmo amuleto, com um estranho e desagradável cheiro, que Terry usava.
Quando Rosemary engravida, Minnie insiste para que esta seja seguida por um médico de sua confiança, o Dr. Abraham Sapirstein. Este manda-a tomar uma bebida feita por Minnie com ervas “medicinais”, no entanto, Rosemary começa a ficar estranhamente doente, com dores insuportáveis, sentindo que algo não está bem. A única pessoa que ouve os seus receios é Hutch, o seu amigo que a previne que os Castevet são demónios, mas este morre misteriosamente. Rosemary tenta desesperadamente fugir não só dos vizinhos como do próprio marido, já que se apercebe que este está do lado deles. Procura ajuda do seu próprio obstetra, Dr. Hill, mas este acha que a jovem grávida enlouqueceu e chama o Dr. Sapirstein e Guy para a irem buscar.
Rosemary acaba por dar a luz em sua casa. Drogada, é-lhe dito que o seu filho morreu, mas esta não acredita. Depois de deixar de tomar os medicamentos do Dr. Sapirstein, Rosemary ouve um choro de bebé e segue esse som, levando-a à porta que separava a sua casa da dos Castevet. Esta continua a seguir o choro já dentro da casa dos vizinhos, pega numa faca e entra na sala, onde estava o clã de adoradores do Diabo com um berço negro e lá dentro uma criança. Quando Rosemary se aproxima e observa o seu filho, fica horrorizada com o que vê. É aí que lhe é explicado que o seu filho é também filho do Diabo e, para espanto de muitos, Rosemary não só não mata a criança com também não a rejeita: os seus instintos maternos falam mais alto e ela aceita o bebé.
A Semente do Diabo é um título emblemático de um dos anos mais representativos do século XX, 1968: ano das revoluções estudantis em Paris e ano chave para a evolução do cinema de terror. Filmes como The Boston Strangler de Richard Fleischer em conjunto com A Semente do Diabo, marcam o cinema de terror através da sua vertente realista assim como fantástica, que continuará nas próximas décadas deste género cinematográfico.
A banda sonora é um elemento crucial para a composição da fita cinematográfica. A música que introduz o filme e à qual se recorre ao longo do mesmo, é da autoria de Krzysztof Komeda e está perfeitamente apropriada para a narrativa do filme. Ao mesmo tempo que soa tal e qual como uma música de embalar, pois como o título do filme indica, Rosemary’s Baby, um bebé irá integrar a diegese, o “la la la la” arrepiante pela voz da cantora deixa-nos literalmente “de cabelos em pé”. Os instrumentos musicais incluídos são o cravo, o xilofone, o violino e a flauta, entre outros, e estes contribuem para o estremecimento físico e psicológico através da música. É uma canção de embalar tétrica e sombria que chama a atenção do espectador desde logo para o filme de terror, embora as imagens do genérico inicial não o indiquem, devido ao plano da vista panorâmica sobre Nova Iorque e os nomes num harmonioso lettering cursivo de um rosa claro.

Ao longo de todo o filme apercebemo-nos que existem uma série de analogias ligadas a Deus e ao Diabo. Polanski propõe quase que como uma subversão do dogma do Cristianismo. Este cria no espectador uma dúvida: se Deus gerou o seu filho Jesus numa mulher terrena, Maria, porque não poderia Satanás fazer o mesmo, escolhendo Rosemary, também uma mulher terrena, para progenitora de um possível filho seu? A força do filme reside no facto de gerar credibilidade entre os mais diversos espectadores, crentes e não crentes. Curiosamente, o nome Rosemary, Rose + Mary, pode ser interpretado de maneira semelhante à crença cristã: Rose, “rosa”, é a flor que simboliza a paixão, o ardor, especialmente se for vermelha, mas possui espinhos que corrompem a flor; e Mary, “Maria”, o nome da virgem, mãe de Jesus. Por um lado é Maria, a mãe, a mulher, a sacrificada em prol da humanidade, por outro lado, é uma rosa com espinhos, símbolo do engano da beleza e das aparências, da falsidade, podendo estabelecer uma conexão com os caminhos tortuosos e espinhosos calcorreados por Satã.
Influenciado pelos realizadores Jacques Tourneur e Mark Robson, Roman Polanski sugere em vez de mostrar, ou seja, este não quer que o espectador “pense isto ou aquilo” mas sim provocar-lhe incerteza. Essa incerteza consegue-se com sugestões, com acontecimentos que ocorrem in and off screen, isto é, a confluência das forças maléficas e diabólicas num jogo ambíguo de planos que cria desassossego no espectador, este nunca chega a ver qualquer fenómeno ou criatura do submundo sobrenatural, o que aumenta a sensação de ansiedade e inquietação.
O realizador elege um cenário real e conhecido, Nova Iorque, para que o filme seja verosímil para os espectadores. Logo no início do filme, os créditos são sobrepostos à cidade de Nova Iorque, percorrendo o Central Park até culminar no imponente edifício Dakota (Bramford, na narrativa), edifício para o qual vai morar o jovem casal. Ao longo do filme, temos a sensação que o próprio prédio observa Rosemary, esperando o momento ideal para “atacar”. Ocorre uma personalização do edifício como elemento perturbador da estabilidade emocional do casal.
Assim que o jovem casal entra no edifício é-nos transmitida uma sensação de claustrofobia logo ao entrarem no elevador (que será repetido inúmeras vezes ao longo da narrativa: dentro do próprio apartamentos, na cabine telefónica, no consultório do Dr. Sapirstein, entre outros). A partir de então, os elementos de suspense irão ser lançados e multiplicar-se-ão. O primeiro indício de que algo de errado se vai passar, ocorre aquando da primeira visita ao apartamento pelo jovem casal. A anterior inquilina, a Sra. Gardénia (que após varias semanas em coma morre no hospital), deixa um bilhete no qual diz: “Já não posso concentrar-me mais”, bilhete esse descoberto por Rosemary na estufa de plantas medicinais existente no apartamento. Para além do bilhete, o primeiro diálogo intrigante do filme, entre o casal e o vendedor ocorre quando estes descobrem a passagem para o apartamento dos vizinhos, obstruída por um móvel pois estes consideram estranho o facto de uma mulher de 89 anos ter conseguido deslocar um móvel tão robusto.
Debrucemo-nos então sobre as personagens. A naïve Rosemary, fenomenalmente interpretada por Mia Farrow, é uma jovem mulher que, desde criança, foi educada nos mais profundos cânones católicos mas que sempre se sentiu aprisionada nos mesmos. Tal é-nos sugerido através de sonhos ou pesadelos em analepses referentes à infância de Rosemary, onde esta está sempre a ser reprimida e castigada pelo seu comportamento fora do desejado para uma rapariga com aquele tipo de educação. A mesma está casada com o homem errado (Guy, um actor fracassado e ambicioso que não olha a meios para atingir os seus fins), vai viver para um prédio de adoradores do Diabo e é escolhida para ser a mãe do filho de Satanás. O marido faz um pacto Faustiano com os Castevet, (como em Fausto, popular lenda alemã celebrizada no romance de Goethe, em que o protagonista vende a alma ao Diabo) em troca de fama e fortuna, Guy tem de assegurar que a mulher será a portadora do anticristo.
Após ter sido drogada com uma mousse de chocolate feita por Minnie e que o marido insiste para que esta coma apesar do seu estranho sabor, Rosemary desmaia e é levada pelo marido para a cama onde começa a delirar ao som de cânticos satânicos, visualizando-se deitada numa cama num quarto escuro, observada pelos intrometidos vizinhos e outras figuras mais, encontrando no tecto uma cruz invertida (símbolo do anticristo). Até aqui, magistralmente, Polanski faz com que o espectador pense até que ponto o que Rosemary delira é apenas fruto da sua imaginação, ou efectivamente uma conspiração satânica contra ela. São-nos propostas duas leituras possíveis, uma vez que após o ritual de possessão sexual, a protagonista acorda, na manhã seguinte, julgando ter tido um pesadelo horrível. No entanto, estranhando os arranhões que tem no corpo, pergunta a Guy o que se passou, ao que este lhe responde que, apesar de esta estar desmaiada, não quis perder a “oportunidade” de conceberem uma criança apesar dessa mesma concepção ter sido de alguma forma algo necrófila, através da violação da mulher desmaiada.
A tão desejada gestação de Rosemary revelar-se-ia um pesadelo. Não só é Guy quem orquestra toda a concepção do suposto filho de ambos como a protagonista acaba por passar para “segundo plano” na sua própria gravidez, ou seja, esta deixa, passivamente, que seja Minnie a preparar a bebida que tem de tomar (recomendada pelo obstetra, Dr. Sapirstein, também ele médico de confiança dos vizinhos) e tanto Guy como o médico mantêm-na afastada do acesso a qualquer informação sobre a gravidez, não a deixando sequer ler qualquer tipo de livros sobre o tema.
Toda a gravidez é muito conturbada. Rosemary não aparenta o tradicional “aspecto” de uma mulher grávida, antes pelo contrário: emagrece desmedidamente, sofre de tonturas, suores frios e dores insuportáveis na barriga. Achando este cenário todo ele muito suspeito, Rosemary deixa de tomar a bebida preparada por Minnie e decide organizar um festa. Aí, as amigas aconselham-na a procurar uma segunda opinião porque as dores que esta sente não são normais numa gravidez como afirma o Dr. Sapirstein mas, do nada, as dores passam e a protagonista volta a seguir as orientações da vizinha e do seu obstetra.
A mulher de Guy apresenta um comportamento atípico durante a gestação. Para além dos fenómenos físicos já referidos, Rosemary começa, desenfreadamente, a comer carne crua, oferecida pela primeira vez aquando do jantar em casa dos vizinhos. Polanski joga com a imaginação do espectador, quando na torradeira, aparece o reflexo do rosto quase que disforme da grávida enquanto esta comia carne crua. Tal traduz, metaforicamente, a ideia de que a protagonista está transtornada psicologicamente.
Ao longo de todo o filme, apercebemo-nos que Rosemary teve inúmeros sinais de que algo não se encontrava bem não só com a gravidez mas também com o ambiente que a rodeava: todas as pessoas que tentaram impedir o nascimento do filho de Rosemary tiveram acidentes ou mortes muito estranhas (a súbita cegueira de um actor que tinha ficado com o papel numa peça de teatro que Guy desejava; a misteriosa morte do amigo da protagonista, Hutch, quando a começou a prevenir que algo estava errado em relação aos Castevet). No entanto, quando Rosemary tentou fugir de toda a conjuntura já era tarde demais: esta já estava demasiado envolvida e era demasiado preciosa para o clã de adoradores do Diabo.
Ao aproximarmo-nos do final da narrativa, Rosemary constata que é progenitora do filho do Diabo. O pacto Faustiano foi assim cumprido sem que esta tivesse conhecimento do mesmo. Apesar de aterrorizada, a jovem Rosemary, aproxima-se do berço negro, no qual dorme o filho de Satanás. Num primeiro momento, esta fica apavorada com o olhar do recém-nascido, iguais ao do “terrífico” pai mas num segundo momento, acaba por aproximar-se do berço, vendo-se então face a um dilema: aceitar o filho do Diabo ou rejeitar o seu próprio filho. Dando ouvidos aos seus instintos maternais e influenciada pelo discurso de Roman Castevet, esta acaba por encarnar o papel de mãe do filho do Diabo, renunciando assim, por completo, a Deus.
Porém é importante realçar o carácter de culpa, apesar de inconsciente, que Rosemary teve na concepção desta criança: foi esta que tanto desejou ter um filho (apesar de querer um filho do marido e apesar deste estar mais interessado na sua carreira), foi esta que insistiu para o casal se mudasse para Bramford (apesar dos rumores de mortes estranhas naquele prédio e do bilhete da antiga inquilina que esta encontrou), foi esta que insistiu na aproximação e participação dos Castevet na vida do casal (Guy no princípio avisou-a que não se conseguiriam livrar do casal se lhes dessem muita liberdade). Rosemary acaba por ser uma nova versão da Eva e do Pecado Original[1]: Rosemary desejava tanto ser mãe, que não resistiu à tentação da maternidade, preferindo ignorar todos os sinais que lhe eram dados de que a sua gravidez não seria de todo convencional.
Roman Polanski procura atemorizar as audiências do filme mas sem recorrer a efeitos especiais pouco verosímeis, antes tenta criar atmosferas quase irrespiráveis num cenário convencional. Só com o avançar da narrativa é que o filme se transforma efectivamente num filme de terror, que impõe verdadeiramente medo, e que se estende muito para além das salas de cinema.
A Semente do Diabo é o catálogo das características Polanskianas: frustração feminina, sexo, violência, psicanálise freudiana, pessimismo existencial e religioso, repressão, dualidades contraditórias mas complementares, ou seja, fantasia/realidade, bem/mal (maniqueísmo), virgindade/promiscuidade, entre outras. Polanski consegue aplicar na sua obra de ficção o Mal, o terror e o fantástico naquela que se julga ser apenas a história banal de um casal em começo de vida, ou seja, numa simples história do quotidiano, o Mal irrompe e quebra a rotina dita “normal”.

[1] “A serpente era o mais astuto de todos os animais selvagens que o Senhor Deus fizera; e disse à mulher: «É verdade ter-vos Deus proibido comer o fruto de alguma árvore do jardim?»A mulher respondeu-lhe: «Podemos comer o fruto das árvores do jardim; mas, quanto ao fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse: ‘Nunca o deveis comer, nem sequer tocar nele, pois, se o fizerdes, morrereis».A serpente retorquiu à mulher: «Não, não morrereis; porque Deus sabe que, no dia em que o comerdes, abrir-se-ão os vossos olhos e sereis como Deus, ficareis a conhecer o bem e o mal».” In "Genesis"


Drácula de Bram Stoker

Sinopse: Filme adaptado do famoso livro de Bram Stoker, Drácula, conta a história de um príncipe da Transilvânia, na actual Roménia, um guerreiro temível que, ao saber da morte da sua amada, Elizabetha, renuncia a Deus e ao cristianismo, tornando-se vampiro após a sua morte. Já no século XIX, em Londres, Jonathan Harker é enviado à Roménia para orientar os negócios de um excêntrico conde de seu nome Drácula, que se verifica ser o mesmo homem que há séculos atrás renunciou à sua religião. Jonathan deixa a sua noiva, Mina, em Londres, para poderem casar quando este voltar. No entanto, o jovem torna-se prisioneiro de Drácula e é deixado por este no seu castelo para ir atrás da sua eterna amada, reencarnada em Mina. Para impedir Drácula de fazer mais vítimas e de levar Mina consigo, junta-se um grupo de homens que incluem Jonathan, o professor Van Helsing (um cientista sábio que descobre a obra macabra do vampiro), o Dr Seward, Arthur e Quincey (os três pretendentes de Lucy, a amiga de Mina, que ficam devastados com a sua morte às mãos de Drácula e com a horrorosa cena da destruição da mesma enquanto vampira que são obrigados a consumar).

Análise: Bram Stoker’s Dracula de Francis Ford Coppola é, a nosso ver, a melhor adaptação do romance de Bram Stoker para o cinema. É também o filme que mais fiel se mantém à narrativa original, de todas as películas realizadas sob o cunho vampírico draculaniano. Este filme consiste numa mescla do género fantástico com o terror, com a impressão causada pela interferência de criaturas e ambiências que provocam no espectador o receio relacionado com a estranheza daquilo que lhe é alheio, incorporando igualmente como personagem central uma criatura mítica, o vampiro.
Em inícios de 1990, Coppola fez um acordo com a produtora Columbia Pictures para comercializar o filme, cujo sucesso acabou por saldar as dívidas que o realizador tinha acumulado desde 1982 com “Do Fundo do Coração”. Bram Stoker’s Dracula demarca-se pela contemporaneidade da sua temática, pelas técnicas cinematográficas aplicadas, pela profundidade alcançada em relação à lenda original, pelo argumento adaptado por James V. Hart, pelo ensemble de actores e pela grande aproximação à história de amor intemporal. Esta última característica é talvez a que mais se destaca no filme, que supera de tal modo em intensidade a obra de Stoker que alguns críticos põem em questão: “Drácula de Bram Stoker” ou “Drácula de Francis Ford Coppola”? Obviamente, a obra cinematográfica deve ao escritor irlandês o mérito de lhe ter concedido o ponto de partida para constituir a ficção renovada pelos criadores do filme, no entanto, faz isto indo mais além da esfera romântica do livro, conferindo ao filme uma aura de mestria magnânime. As artes utilizadas no filme, tais como os efeitos especiais de Roman Coppola, a música penetrante de Wojciech Kilar, o guarda-roupa sumptuoso de Eiko Ishioka, os cenários originais de Garrett Lewis, a maquilhagem aparatosa de Carol Schwartz, concedem ao filme a sua soberba singularidade. “Drácula de Bram Stoker” é uma obra visceral, tem uma dimensão profundamente carnal, de uma integridade palpitante. Coppola entregou-se à realização do filme transformando a história de Stoker num festival de imagens que tornam cativo o espírito do Cinema em todo o seu esplendor.
A interpretação dos actores é outro factor fulcral para a qualidade do filme: Gary Oldman é um brilhante actor, versátil e comprometido com os seus papéis que compõe um Drácula maior do que a vida num desempenho de excelência; Winona Ryder, no papel de Mina, combina a inocência da sua juventude com os ímpetos sensuais e românticos da sua paixão; Anthony Hopkins é genial na figura controversa e sarcástica do Professor Van Helsing; o americano Keanu Reeves tem uma prestação bastante inconsistente e insípida como Jonathan, não traz qualquer mais-valia ao seu personagem; Sadie Frost é exímia no papel de Lucy, uma jovem dinâmica e arrojada; o cantor Tom Waits surpreende como Mr. Renfield, o predecessor de Jonathan na firma imobiliária que volta louco da Transilvânia, com uma obsessão por sangue, com a sua voz rouca e maneiras excêntricas; Richard E. Grant é o Dr. Seward, apaixonado por Lucy, desempenhando com entusiasmo o seu papel; Cary Elwes convence como o muito british gentleman Arthur, um pouco snob e fidalgo; por fim, Bill Campbell adopta razoavelmente bem a personagem trivial de Quincey, o vigoroso companheiro de Arthur.
Curiosamente, a primeira frase que surge em Drácula de Bram Stoker, proferida pelo Conde Drácula (Draculea, que significa “Diabo” em romeno), ainda enquanto príncipe Vlad, é “Deus seja louvado, sou vitorioso” enquanto simultaneamente beija a cruz de Cristo após vencida a batalha pelo Cristianismo contra a invasão dos turcos no século XV. No entanto, Vlad não contava que os turcos enviassem uma falsa mensagem a dar conta da sua suposta morte para o castelo onde se encontrava Elizabetha, a sua noiva, que, desesperada, acaba por cometer suicídio, atirando-se ao rio junto do castelo. Ao cometer suicídio a alma de Elizabetha ficou para todo o sempre irremediavelmente perdida, ou seja, não poderá jamais ser acolhida no Paraíso. Nesta introdução do filme, predomina um leque de cores quentes, o vermelho, o castanho e o laranja, no entanto existe um contraste com as cores frias do azul do céu contraposto com o fogo no campo de batalha, ficando o ecrã dividido em dois tons com significações muito próprias, e com a cena do suicídio de Elizabetha, envolta em nevoeiro quando se afoga no rio. As cores quentes simbolizam a emoção, o empolgamento, o calor humano, a batalha, o fogo. Este é um elemento que nos parece pertinente caracterizar, pois tanto pode ser associado a Deus como ao Diabo, “o amor de Deus consome tanto quanto o ódio do Diabo”[2]. Relativamente à simbologia das cores frias - azul, branco, cinzento -, estas remetem-nos para a ideia de morte, solidão, sofrimento, tristeza, amargura. O nevoeiro envolve toda a narrativa do filme, propondo-nos uma sensação de mistério inerente à figura do vampiro, criando também a ambiência gótica necessária às características da narrativa e do género. Toda a estética do filme é servida por uma artificialidade recorrente, uma vez que foi inteiramente rodado em estúdio. Todos os cenários foram construídos e as cenas exteriores filmadas no interior. Daí que as cores sejam tão acentuadas, criando o ambiente ideal para conferir a cada cena o seu carácter de fantástico: predominam as cores quentes e frias, como já verificámos, numa ambiência obscura que pretende evocar os sentimentos e emoções dos personagens assim como a atmosfera vivida no século XIX e a tenebrosa presença das forças das trevas. De grande consideração são também as sombras que seguem os personagens principais e que, no caso de Drácula, a sua sombra move-se por vontade própria. Numa clara referência a “Nosferatu” de Murnau, no qual a sombra do vampiro era um prenúncio de terror devido à deformação física do Conde Orlock, Coppola trabalha a sombra de Drácula para que esta revele os desejos do vampiro sem que a sua forma física a acompanhe. Por exemplo, quando Drácula descobre a fotografia de Mina que Jonathan tinha perdido e este lhe explica que é a sua noiva, Drácula avista a sua amada e a sua sombra dirige-se ao pescoço de Jonathan numa tentativa de o estrangular. Noutra cena, no salão da casa de Lucy onde esta dava uma festa, uma sombra negra apenas visível para a solitária Mina invade o salão e murmura-lhe “Tu és o amor da minha vida”. A sombra desloca-se a grandes distâncias como se fosse a alma do próprio vampiro, a sua vontade mais íntima.
A sexualidade do vampiro está patente em todas as narrativas que abordem tal temática, mas no filme de Coppola esta está registada ainda com mais veemência. O vampiro é naturalmente uma criatura sexual, o próprio acto de transformação em vampiro pressupõe uma sensualidade vibrante uma vez que o pescoço é uma zona altamente erógena, assim como a penetração das presas do vampiro estão associados ao acto sexual sendo o sangue comparado a um outro fluido, o sémen (“o sangue é a vida” diz Drácula). O vampiro é um sedutor, um Don Juan ou um Casanova das trevas, atrai irremediavelmente, é um ser cativante e atraente, com a sua postura e maneiras aristocráticas que desencaminham as suas vítimas. Para Drácula, embora seja também um tentador e um predador sexual, o seu amor tem apenas uma dimensão unilateral dirigida a Elizabetha/Mina. Para sobreviver ele tem de se alimentar do sangue de outrem, e, não desejando viver sozinho, convive no seu castelo com as suas três concubinas, que são geralmente apelidadas de “noivas de Drácula”. Estas, quando já no século XIX Jonathan é feito prisioneiro do conde no castelo da Transilvânia, são quem lhe vai sugar a força, a energia e a vitalidade com o intuito de o manter fraco para que este não tente impedir Drácula de conquistar a sua noiva Mina. As concubinas vão ludibriar Jonathan para se juntar a elas numa orgia de possessão sexual e sanguinária, bebendo-lhe o sangue mas não o transformando em vampiro pois nunca partilham com ele o próprio sangue delas. Entretanto, em Londres, Drácula, transformado numa besta repugnante, atrai Lucy, de quem Mina era hóspede, e numa noite viola-a e morde-a no jardim da mansão dela. Nesta cena é relevante apresentar a simbologia das cores do vestuário das personagens: o pêlo da besta é negro de breu simbolizando as trevas, o vestido de Lucy é vermelho, símbolo da sedução e tentação, do pecado carnal, da libido, enquanto a camisa de noite de Mina, que vai socorrer Lucy no seu sonambulismo concupiscente, é branca, expressando a pureza imaculada do amor de Drácula. A sexualidade também transparece quando, no início do filme, Mina espreita curiosa um volume das “1001 Noites” com ilustrações do Kamasutra, simbolizando o desejo sexual patente na fervorosa virgindade da jovem. A carga erótica do filme é bastante significante, pois o erotismo revela de forma mais subtil aquilo que o acto sexual explícito mostra: na cena em que Mina leva Drácula ao cinematógrafo londrino, o lobo que no dia anterior tinha fugido do jardim zoológico assusta os frequentadores do local, ameaçando Mina com o seu rosnar. Mas Drácula, que como criatura das trevas controla outros animais nocturnos, acalma o lobo de modo a parecer um animal afectuoso e amestrado para que Mina lhe faça festas. As mãos dos dois tocam-se enquanto afagam o pêlo do lobo, e o contacto físico nesta cena é tão revelador da proximidade entre ambos quanto a emoção inquietante do reencontro amoroso.
A cena do cinematógrafo, “a maravilha do mundo moderno”, é de interesse premente para a acção do filme, pois para além de que é a parte em que Drácula contacta com Mina e a química entre eles se denota veementemente, em relação ao campo cinematográfico e à cinefilia de Coppola é também a parte que faz homenagem à cultura e ao culto do Cinema. Nesse ambiente cultural reúne-se uma fracção da sociedade inglesa oitocentista que assiste à exibição das primeiras películas eróticas, ao filme dos irmãos Lumiére da chegada do comboio à gare, de um mecanismo que projecta sombras chinesas numa tela, sombras essas que representam uma cena de batalha que, curiosamente, corresponde ao início do filme com a batalha de Vlad, o Empalador, contra os turcos. Coppola demonstra o contexto social e cultural da época, finais do século XIX, e a corrente em que se insere, o Modernismo e a Modernidade.
Mina, quando conhece Drácula na figura atraente de um jovem aristocrata estrangeiro, inicia com ele uma relação amorosa de traição, pois Mina estava noiva de Jonathan. Mina trata-o por my sweet prince, uma expressão terna que advém da sedução efectuada por Drácula para conquistar o objecto do seu amor. Ao longo do filme, o carácter romântico do vampiro é retratado através de frases pronunciadas pelo próprio nas quais é revelada a melancolia e o pesar dele relativo à morte de Elizabetha: “o homem mais feliz à face da terra é o que encontra...o amor verdadeiro”. Estas frases parecem clichés dos filmes românticos mais vulgares, no entanto funcionam para transmitir o grande impulso da arrebatadora paixão de Drácula. Mais tarde, já quando Mina está casada, este revela a sua verdadeira identidade à mulher que ama assim como a identidade dela como reencarnação de Elizabetha. Mina então apercebe-se porque é que o seu estranho amante lhe era tão familiar e que está apaixonada por ele, levando-a a implorar-lhe que a transforme numa semelhante, uma vampira para com ele partilhar uma vida eterna juntos. Esta cena surge quando os homens encarregados de destruir Drácula se dirigem aos terrenos dele em Londres para o paralisar, mas este foge sob a forma de nevoeiro até ao quarto onde Mina estava. Aí Drácula concorda em mordê-la e dar-lhe a beber o seu sangue, no entanto está relutante e ansioso pois não deseja inteiramente amaldiçoar a existência pura de Mina, não a quer consagrar a uma condenação perpétua, como é a dele, mesmo que isso signifique permanecerem unidos. De certo modo Drácula está consciente da sua condição de iniquidade e desumanidade, arrependido da sua realização aniquiladora de renúncia a Deus. A salvação de Mina, a partir do momento em que Drácula a corrompe, reside somente na destruição dele, como afirma Van Helsing, iniciando-se então uma corrida contra o tempo para finalmente acabar com Drácula.
O facto de se espetar uma estaca no coração do vampiro para o matar e livrá-lo da sua condenação à eternidade pode ser relacionado com a morte do próprio Cristo: este é crucificado (é a sua penitência pela humanidade) e foi morto por um soldado romano que lhe espetou uma lança no peito, a quinta chaga de Cristo. Jesus Cristo, ao caminhar para o sítio da sua crucificação atravessa a Via Dolorosa, uma rua em Jerusalém. À sua semelhança, Drácula atravessa os “mares do tempo” numa penosa penitência até reencontrar a sua amada e a única forma de o matar é, ironicamente, espetando a estaca no seu coração, o modo como se livra da imortalidade. Ambos tiveram a sua cruz, o seu fado, e ressuscitaram após a morte: Cristo ressuscitou ao fim de três dias e Drácula ressuscita como vampiro, o morto-vivo, após morrer. Embora as duas figuras, de Cristo e do vampiro, sejam antagónicas, verificam-se algumas analogias de importância acrescida que caracterizam a vida e a morte de um e outro. Para além da figura do Cristo, a religiosidade é notória em toda a narrativa: a oposição entre fé e heresia, a primeira simbolizada pelos adversários de Drácula e a segunda por este mesmo. Van Helsing, magnificamente interpretado por Anthony Hopkins, para além de ser o narrador do filme, interpreta ainda outra personagem que não o cientista e filósofo metafísico: é um sacerdote romeno do século XV que comunica a Vlad a perdição da alma de Elizabetha. É também Van Helsing quem, na recta final do filme, afirma do grupo que combatia Drácula: “tornámo-nos os loucos de Deus”. Esta afirmação embarga a carga impressionante e perturbadora da demanda dos partidários de Deus e dos Seus valores fundamentais contra aquele que ousou enfrentá-Lo subvertendo esses valores.
Coppola e James V. Hart conferem ao seu Drácula uma caracterização ao estilo literário de Lord Byron, o Romantismo, contrariamente ao que acontecia com os vilões do gótico: a dualidade de Drácula como Homem e Monstro, um assassino implacável mas ainda capaz de amar uma mulher eternamente, ciente da sua natureza humana que o aproxima das sensações e emoções primárias do homem. Drácula une a perversidade da sua condição vampírica à melancolia deixada por um amor perdido e reencontrado. O Drácula de Coppola, relativamente ao mesmo personagem noutros filmes, é, tal como no livro, um Drácula de duas faces distintas: romântico e monstro, vida e morte, amor e ódio, guerra e paz, sentimental e insensível, apaixonado e destruidor, genuíno e corrupto, Cristo e anticristo. Não é um personagem simplista, não é uma tábua rasa de sentimentos, o Drácula de Coppola é a história trágica de um vampiro que, por amor, renuncia ao conformismo da religião e da perda e torna-se uma criatura maldita. Contrabalança uma maldade mefistofélica com o amor eterno que sente, a réstia de humano em si. Enquanto príncipe Vlad serviu Deus e o mundo Cristão e após a morte da sua amada, sente-se atraiçoado por Deus e a sua renúncia consiste num desafio ao transformar-se num anticristo semelhante à figura do Diabo, um anjo caído. A partir do momento em que se torna um vampiro, em que reclama a vida eterna, esta vivência nefasta é uma espécie de expiação, uma penitência para castigar a entidade divina e expiar a sua própria culpa pela perda do seu amor. O facto de o casamento entre Vlad e Elizabetha nunca ter sido consumado, pois ainda eram apenas noivos, torna a existência do vampiro ainda mais perturbante e supõe um amor mais puro e genuíno. A conclusão da expiação dá-se quando Drácula, ao reencontrar a sua amada reencarnada em Mina, esta aceita o seu amor reciprocamente. No final, Drácula tem de morrer pois a sua pena foi absolvida por um acto de purificação: dentro do castelo, na mesma câmara onde Drácula encontrou Elizabetha morta e renunciou a Deus, está pintado no tecto um fresco que invoca as pinturas renascentistas, o iluminismo e a revelação, que representa Elizabetha (Mina) e Vlad (Drácula) unidos no céu. Após Quincey lhe ter espetado uma estaca no coração, Drácula agoniza e Mina prepara-se para o sacrifício final que é devolver a paz ao seu amado. Drácula redime-se, procura o Deus que o abandonou e Mina compreende que com a presença de Deus e com o seu amor, poderia libertar ambos do poder das trevas. O rosto de Drácula ilumina-se e de um monstro decrépito regressa à sua aparência natural. O amor dos dois é mais forte do que a morte: “dá-me paz”, pede Drácula a Mina, e esta espeta a totalidade da estaca no coração dele, ele morre finalmente e Mina é obrigada a cortar-lhe a cabeça. Ao olhar para o tecto, Mina assimila a imagem de ambos, finalmente unidos, entendendo-se um final catártico. A purgação acabou, estão ambos livres, purificados e deixando a perspectiva de se reencontrarem no paraíso.

[2] In PAPINI, Giovanni, O Diabo, pp 218


ANEXOS:


A Figura do Diabo

La plus belle ruse du diable est de nous persuader qu'il n'existe pas.
Charles Baudelaire in Le Spleen de Paris

A figura do Diabo aparece em toda a mitologia referente a todas as religiões existentes, as quais, tal como a Deus, dão diferentes denominações ao soberano das trevas. As designações mais comuns são Lúcifer, Satanás, Satã, Mefistófeles, Belzebu e é representado pelo número 666. Este número surge na Bíblia Sagrada, no "Livro da Revelação" do Novo Testamento, representando a Besta, o Anticristo. No entanto, outras interpretações indicam que 666 pode igualmente referir-se à codificação do nome do imperador romano Nero, um dos malditos da História, pois este era conhecido pela sua opressão ao povo judeu e ao cristianismo, assim como ficou para a História por ter incendiado Roma enquanto tocava harpa.
A história do Diabo é a de um arcanjo que se encontrava do lado de Deus e que depois se insurgiu contra Ele antes da criação do Homem, tornando-se um proscrito, um anjo caído no Lago do Fogo, passando a reger o reino das trevas: o Inferno com as suas labaredas. O fogo é o elemento mais propício à aparição do Diabo. Esta é a perspectiva enunciada por John Milton no seu grandíloquo poema Paradise Lost. Normalmente, o Diabo é considerado o tentador da espécie humana, corrompendo os mortais e levando-os a cometer pecados. Está associado aos infiéis, aos hereges e aos ateus. É uma entidade maléfica, representa a natureza madrasta do homem. É considerado o grande Adversário, o Inimigo, o Enganador, o Acusador e Caluniador de Deus e dos crentes, no entanto tem seguidores, como os clãs satânicos (o de Charles Manson é o mais conhecido de todos). O seu chamamento pode ocorrer através de jogos que nem sempre são inocentes, como a tábua Ouija e o jogo do copo, nos quais se pretende invocar os espíritos. Por vezes, os padres fazem exorcismos, ou seja, procuram libertar a alma e o corpo de um humano da possessão pelo demónio, sendo que o próprio Vaticano tem a sua “legião” de exorcistas.
A Lúcifer está relacionada a Magia Negra, a bruxaria na Idade Média, assim como uma pluralidade de animais cuja natureza se situa numa certa ruindade, nomeadamente a serpente e o dragão. A serpente é bastante significativa no episódio bíblico do Jardim do Éden e do Pecado Original, pois é esta quem alicia Eva a comer o fruto proibido que simboliza o pecado. Daí que, sendo a serpente um animal perverso, se diz ter sido condenada a rastejar eternamente como tormento e humilhação pela sua malvadez e estar relacionada à acção do Diabo. Quanto ao dragão, a origem da própria palavra é também a etimologia do nome “diabo”: dragão – dracul – draculea – diabo (em romeno, etimologia atribuída no filme de Coppola).
Para além do código 666, o fogo é outro dos símbolos de Satanás, tal como o pentagrama (a estrela de cinco pontas dentro de um círculo), os pés de cabra, os chifres, a cruz invertida (tal como se verifica na cena final de "A Semente do Diabo", com a cruz pendurada em cima do berço), a cor vermelha do fogo e o seu tritão (ceptro).
A demonologia ou diabologia é um ramo da teologia que estuda os demónios, que são os súbditos do Diabo. Os pactos com o demónio são comuns e consistem no homem que vende, em regra, a sua alma ao Diabo sob a forma de um contrato. Isto acontece em Fausto, do alemão Johann Goethe. O Diabo pede sempre algo em troca daquilo desejado, algo que vem reclamar após algum tempo. Por exemplo, em Rosemary’s Baby, o protagonista masculino faz um pacto com o Diabo para que em troca de fama e sucesso na sua carreira de actor, este conceba o seu filho na mulher do actor. Para isso, Guy Woodhouse consegue ficar com o papel principal a substituir outro actor que, entretanto, ficou cego. Esta cegueira foi provocada pelo Diabo e foi edificada através de um objecto pessoal da pessoa atingida, neste caso, uma gravata que Guy tinha trocado com o outro. Os pactos com o diabo fazem-se muitas vezes numa encruzilhada, num cruzamento de quatro caminhos, onde no centro se enterra uma caixa com pertences pessoais da pessoa envolvida e outros artefactos de Magia Negra. Estas encruzilhadas têm a forma de uma cruz, da qual supostamente o Diabo fugiria.
Diz-se do Diabo que fundou uma escola de Magia Negra de seu nome Scholomance. Freda Warrington no seu livro “Drácula, O Regresso”, uma continuação recente do romance de Bram Stoker, ficciona uma história prévia do vampiro na qual este tinha frequentado a Scholomance e sido um dos melhores alunos. Também Bram Stoker se refere superficialmente a esta escola em “Drácula”. A superstição da existência de tal escola indica que esta se encontra algures nas montanhas da região da Transilvânia na Roménia, onde “o próprio Diabo ensina os mais nefastos feitiços negros, os segredos da natureza e a linguagem dos animais”, segundo a autora escocesa Emily Gerrard.


A Figura do Vampiro

Os mortos deslocam-se depressa.
Bram Stoker in “ O Hóspede de Drácula”



Existem inúmeras narrativas que nos falam sobre a origem e desenvolvimento do mito vampírico, no entanto é difícil precisar onde e quando surgiu a primeira referência aos sugadores de sangue. Desde logo, existem referências que remontam aos grandes impérios, desde o Egipto, à Grécia e Roma antigas, os quais acreditavam que alguns mortos deixavam as suas campas para vingar a sua morte, atacando os vivos e bebendo-lhes o sangue. As características físicas de algumas pessoas também inspiravam a crença de que estas poderiam ser vampiros ou lobisomens. Hoje em dia sabe-se que existem e sempre existiram doenças cujos sintomas seriam um excesso de pêlos corporais, chamado o Síndrome do Lobisomem Humano, ou então doenças venéreas ou anemias que levam os doentes a necessitar de transfusões de sangue de outrem para sobreviver. Já a porfíria é uma doença que está relacionada com o mito vampírico e os seus indícios são a pele muito pálida, foto sensibilidade, desfiguração facial, dentes pontiagudos e distúrbios mentais que conduziam a que certos doentes ingerissem sangue ou praticassem canibalismo. No filme que analisámos, “Drácula de Bram Stoker”, é estabelecida uma relação entre os sugadores de sangue e a evolução da doença sífilis, subentendendo-se igualmente uma outra conexão com a SIDA nos nossos dias.
Montague Summers escreveu extensamente sobre vampiros, na sua obra The Vampire: His Kith and Kin, tal como Philip Rohr em De Masticate Mortuorum. A temática dos vampiros sempre atraiu a atenção de estudiosos e historiadores que procuravam as origens do mito e o porquê da crença, dos costumes e das características que distinguem os sugadores de sangue. Para eles, que são mortos-vivos, o “sangue é a vida”, como ouvimos tantas vezes ser afirmado ao longo de “Drácula de Bram Stoker” pelos personagens Drácula e Renfield, cuja dieta incluía humanos, para o primeiro, e insectos e outros bichos variados para o segundo. Falando dos mitos de verdadeiros vampiros, as lendas e folclore locais de cada país têm o seu vilão de “estimação”. O vampiro mais conhecido do público em geral tem origem na Roménia em luta contra a Turquia no século XV: Vlad Tepes, o Empalador, um dos mais terríveis guerreiros e dirigentes da região da Valáquia e Transilvânia, era conhecido pelos seus métodos bélicos violentos contra os inimigos turcos da Cristandade: após consumada a contenda, da qual saía vencedor na maior parte das vezes, Vlad abandonava o campo de batalha pejado de inimigos que empalava em lanças, deixando-os morrer em agonia. Diz-se de Vlad que renunciou a Deus após a sua mulher ter cometido suicídio ao julgá-lo morto, e que renasceu depois da sua morte tornando-se o maldito Conde Drácula, sedento de sangue, sugador de almas, o Vampiro. A violência e o poder que Vlad mostrava em vida eternizou-se na sua morte, perpetuando através do mito fantástico o terror que tal personagem um dia incutiu. A história que até então era apenas conhecida na Roménia, adquiriu uma dimensão mundial quando o escritor irlandês Abraham “Bram” Stoker romanceou a lenda no seu livro “Drácula” em 1897.
Friedrich Wilhem Murnau fez a terceira tentativa de adaptação do livro ao cinema (visto que as duas primeiras não granjearam muita atenção) em 1922 com “Nosferatu”, no entanto, a viúva de Bram Stoker não permitiu a utilização dos direitos de autor, obrigando Murnau a alterar os nomes dos personagens e localidades. Em vez de Drácula, o vampiro chamava-se Orlock, a sua amada não era Mina, mas sim Ellen, o noivo de Mina não se chama Jonathan Harker mas sim Thomas Hutter. Mais tarde, a família de Stoker acabou por ceder aos pedidos dos estúdios de cinema, permitindo a utilização do personagem Drácula, numa decisão que se revelou muito rentável. A Hammer Studios londrina, que era conhecida pelos seus filmes de cariz fantástico e de terror, foi dos estúdios que mais exploraram este personagem, numa série de filmes de baixo orçamento que oficializaram a imagem de Drácula ligada a dois actores-símbolo: Bela Lugosi e Christopher Lee, para além do precedente Nosferatu de Max Schreck. Aliás, o húngaro Bela Lugosi nunca se separou do epíteto de “actor-vampiro”, exigindo até ser enterrado com o seu guarda-roupa de Drácula. Recentemente, devido ao fabuloso filme de Francis Ford Coppola, em análise neste trabalho, o mutável e talentoso actor britânico Gary Oldman passou a encarnar a figura de um novo Drácula, não tão exagerado como os anteriores, mais subtil na aparência e nos modos, em lugar do vampiro deformado e assustador de “Nosferatu” de Murnau, e sem os maneirismos demasiado teatrais dos filmes de série B da Hammer Studios.


Características gerais do vampiro:

- É altivo e imponente, tem a pele muito branca, seráfica;
- Os dentes caninos pontiagudos surgem quando está prestes a atacar;
- O seu “beijo” no pescoço é mortal, mas as vítimas apenas se transformam em vampiros após a morte caso o vampiro os infecte ao dar-lhes a beber o seu próprio sangue;
- Pode sair durante o dia, ainda que os seus poderes fiquem mais fracos;
- Tem de descansar junto à terra onde foi enterrado;
- É arqui-inimigo do lobisomem, no entanto convive com os lobos;
- Pode transformar-se em vários animais entre os quais o morcego, o lobo, a ratazana, assim como em elementos da natureza, tais como o nevoeiro e o vento;
- Pode invocar a fúria da natureza;
- Espetar uma estaca no coração paralisa o vampiro e cortando-lhe a cabeça é morte certa;
- O cantar do galo é mortal para ele;
- Tem ódio e medo da cruz de Cristo, afastando-se quando esta é colocada à sua frente; afasta-se também da água benta, do cheiro do alho e do acónito;
- Pode adoptar diversos aspectos humanos e monstruosos;
- É altamente sedutor e manipulador, cativando homens e mulheres com a sua aparência e carácter atraentes e modos aristocráticos;
- Não tem reflexo no espelho;
- Ao mesmo tempo que alguns vampiros lamentam o facto de serem quase imortais, prezam igualmente a sua “refinada arte” de morder pescoços;
- Não comem nada nem bebem vinho (pois este é o sangue de Cristo), apenas se alimentam de sangue.

Tuesday, April 28, 2009

Brian Griffin vs Dustin Hoffman




Sempre achei que o Brian Griffin, o cão falante do Family Guy, dá uns ares ao Dustin Hoffman...deve ser do nariz e da voz...e pela representação também, são excelentes actores cómicos, de um sarcasmo hilariante. Um prefere martini e o outro suminho, mas acho que têm muito em comum.


Ah, e o Stewie, o cabeça de bola de rugby...adoro essa criaturinha insolente!


p.s.: back to blogger! Já não era sem tempo, Filipa D....

Saturday, November 24, 2007

He's won CONTROL


Finalmente fui ver o filme que esperava há meses, aquele que por tudo em que inicialmente consistia me atraía irremediavelmente: Ian Curtis, Joy Division, Anton Corbijn, Manchester, preto e branco. Agora que o vi, uma semana após a estreia nacional, sinto que todas as minhas expectativas foram superadas. A obra constituída por Corbijn, fotógrafo que descobriu a realização cinematográfica para além da videográfica, atingiu a imensidão, a imortalidade, a expansão de um mito para fora dessa esfera deitíca do próprio mito de Ian Curtis.

Há muito tempo que os mancunianos Joy Division se encontram em proeminente lugar entre os meus grupos musicais de eleição e, obviamente, Ian Curtis assume-se para mim como uma personalidade de culto, com a sua voz, música, letras e figura irresistíveis. Creio que era mesmo preciso um filme revelador como magnificamente fez o holandês Anton Corbijn, numa obra que a nós, espectadores e apreciadores, nos aproxima e ao mesmo tempo afasta desse ser que foi o Ian, personalidade nunca inteiramente revelada , pela brevidade fugaz da sua existência terrena e musical. Renasce como realmente foi através dos testemunhos daqueles que com ele conviveram: a viúva Deborah (que escreveu o livro Touching From a Distance no qual se baseia o filme), as "fénix renascidas" sob a designação de New Order, o próprio Corbijn que em início de carreira fotográfica tomou um contacto eterno com os Joy Division (eterno porque até hoje ele é marcado por esse encontro distante, quer pessoal, quer profissionalmente), o recentemente falecido Tony Wilson, entre outros. Ian Curtis é agora não só o mito, mas também o homem, um ser humano como os outros, embora seja essencial a continuação do mistério da sua pessoa (a consciência revelada mais pela música e palavras intímas que pela interacção com os outros) e o enigma que o conduz ao suicídio (inevitável?).

No filme, Ian Curtis é isolado dos restantes enquanto que é colocado mais perto do nosso desejo de identificação do mito. É impressionante a semelhança obtida por Corbijn e por toda a equipa de produção do filme, de modo a que o retrato da realidade passada seja o mais aproximado possível, de uma forma verdadeiramente arrepiante em toda a naturalidade com que é cultivada a exploração da história de Curtis. Para isto muito contribuem as prestações dos actores, a interpretarem (ou a serem) as personalidades da vida real, muito mais aprofundadamente do que já tinha acontecido no Madchesteriano 24 Hour Party People. Tudo isto já foi dito milhares de vezes, no entanto é impossível deixar de recalcar a distinta e aterradora interpretação do novato Sam Riley enquanto Ian Curtis: não apenas a semelhança física (até sem estar caracterizado), mas todo o trabalho desenvolvido por Riley de modo a transformar-se tão credivel e emocionantemente em Curtis, mesmo que nós, observadores longínquos da pessoa musical que ele foi, não conhecessemos a sua pessoalidade e intimidade. É de destacar igualmente os restantes actores: os membros dos Joy Division, mais tarde New Order, a corresponderem exactamente áquilo que neles reconhecemos, como a candura de Bernard Sumner (James Anthony Pearson), a descontracção de Peter Hook (Joe Anderson), a quietude de Stephen Morris (Harry Treadaway); Rob Gretton (Tony Kebbell), o manager passado dos carretos; o apresentador e amante de música, o finório Tony Wilson (Craig Parkinson) que ajudou no crescimento dos Joy Division enquanto banda; e sem esquecer as duas mulheres entre as quais se dividia Curtis, uma vez que o filme se centra em muito nas complicações pessoais que o atingiam: a sua mulher Debbie (Samantha Morton) e a amante belga Annik (Alexandra Maria Lara). Elas representam o duplo desejo do próprio Ian: por um lado o conforto caseiro e a ligação à cidade depressiva (Debbie/Manchester), por outro lado, a necessidade de evasão e fuga daquela atmosfera intelectualmente opressiva (Annik/Europa). Talvez tenham sido a dúvida, a opressão, a insuportabilidade de uma condição que se estendia desde há muito, ajudada pelo diagnóstico de uma súbita doença, a epilepsia, altamente paralisante (em termos das aspirações de Ian), que o levam ao suicídio inesperado por parte daqueles de quem estava mais próximo.

A estética, a história, a banda-sonora (para além dos Joy Division), os retratados do filme fazem deste uma obra perfeita, não fosse Anton Corbijn um profissional competentíssimo da estética e um verdadeiro amante de música. O preto e branco habitual nas fotografias de Corbijn e nos Joy Division é a cor ideal para tal filme urbano-depressivo e tão pouco ostensivo, assim como a escolha do cenário original da zona mancuniana de Macclesfield para as filmagens, conferem ainda mais autenticidade, impacto, magnetismo e sensibilidade a esta obra que satisfaz grandemente todos os fãs e todos aqueles que um dia conheceram Ian Curtis. Ele permanece para sempre, tal como indica o final representativo do filme: ao som da etérea e penetrante "Atmosphere", o fumo das cinzas do corpo cremado de Ian Curtis espalha-se na atmosfera de Manchester e por aí paira interminavelmente.

Apaixonei-me decisivamente por este Control, tanto que até já recebeu honras de poster na minha diminuta parede.

Friday, October 05, 2007

Thursday, October 04, 2007

Arte de Rua por Tavares.

Um destes dias, num sábado à tarde, a subir a Rua Garrett no Chiado, deparei-me com uma série destes desenhos e pinturas colados no lado de fora de uma montra. Voltei atrás para reparar e demorar-me a observar, acabando por trazer esse desenho de cima, que preferi aos restantes, embora fossem igualmente muito inspirados.
José Tavares é o autor e vendedor de tal arte moderna e notável, que tem características originais como o traço gráfico cúbico, a caracterização quase-robótica das mulheres representadas, o pendor sexual e sensual.
Vale seriamente a pena dar dinheiro por esta arte, os preços são variados e acessíveis. Para descobrir online a obra e contactar com o seu autor, dirijam-se a este site: http://www.iknies.com/

Tuesday, October 02, 2007

Entretanto este blog completou um ano e 115 posts dia 25 de Setembro e eu nem dei por isso... Desejo-me uma continuação de um bom proveito deste espaço, assim como aos seus visitantes.

Monday, October 01, 2007



"Como é que se apanha um cardume sem sequer pensar no peixe?!...É o amor..."
O CAPACETE DOURADO

Tuesday, September 11, 2007

The Simpsons, o filme


Também eu sou uma criatura amarela com lugar entre a comunidade de Springfield.

Thursday, August 02, 2007

Excelente montagem cénica ao som de uma das minhas músicas de eleição de uma das minhas bandas de sempre.
Já agora, vale a pena espreitar os restantes vídeos deste user do youtube: http://www.youtube.com/user/matthiasheuermann. Combinando quase sempre a música com o cinema, numa perfeita harmonia entre som e imagens.

Wednesday, August 01, 2007

Nouvelle Vague

A Nova Vaga. Manifestou-se não só ao nível cinematográfico, antes estendendo-se à quase totalidade do domínio cultural internacional: representou-se na literatura com o Nouveau Roman (Marguerite Duras, Albert Camus, Alain Robbe-Grillet), a New Wave na música uma década mais tarde (New Order, Siouxsie and The Banshees, Gang of 4), a antecedente Arte Nova (Klimt, Gaudi). No cinema, não foi só a França a testemunhar um renascimento: houve também o neo-realismo italiano, o novo cinema alemão, português e brasileiro, o cinema nórdico.
Na passagem do ano de 1959 para 1960, teve lugar a detonação da Nouvelle Vague cinematográfica francesa. Primeiro foi “Os Quatrocentos Golpes” (Les Quatrecents Coups), o golpe de génio de François Truffaut, que abriu alas para os restantes: Jean-Luc Godard estreou-se com “O Acossado” (À Bout de Souffle), Eric Rohmer dirigiu “O Signo do Leão” (Le Signe du Lion), Jacques Rivette saiu-se com “Paris é Nosso” (Paris Nous Appartient), Claude Chabrol a dobrar com dois filmes, Le Beau Serge e Les Cousins, Alain Resnais filmava “Hiroshima, Meu Amor” (Hiroshima Mon Amour). E foram estes os grandes impulsionadores do movimento.
Desde logo, a Nouvelle Vague demarcou-se por especificidades cinematográficas e cinéfilas nunca antes vistas ou experimentadas. De uma perspectiva geracional, a Nouvelle Vague e os que a ela estão ligados são uma geração resultante do baby boom entre guerras. As implicações desse baby boom são conhecidas por terem produzido uma geração que mais tarde se manifestou intensamente contra as gerações precedentes sob várias formas e em diversos sentidos. No caso particular da Nouvelle Vague francesa, esta geração de cineastas revoltou-se contra os valores dominantes no cinema de então e contra a estagnação artística que sofria, com o trabalho de alguns realizadores que os críticos da recém-fundada revista Cahiers du Cinéma consideravam dispensáveis e ineficientes. Já Jean-Luc Godard dizia, num entretítulo do seu filme Masculin Féminin, que: O filósofo e o cineasta têm algo em comum: a capacidade de identificar e compreender uma geração. Era esta geração a que retratavam os filmes enquadrados na Nouvelle Vague: uma geração criada num ambiente sócio-cultural e politicamente aceso; atenta ao desenrolar dos acontecimentos; crítica, criativa, intelectual, inovadora, inteligente, hiperactiva, por vezes anárquica. Novidade, Liberdade, Juventude, Activismo e Criatividade eram palavras de ordem para a Nouvelle Vague. Por se reconhecerem nestas características, os cineastas que criticavam causticamente os velhos métodos, ficaram conhecidos como les jeunes turcs, os “jovens turcos”, os organizadores da rebelião a partir dos Cahiers du Cinéma.
Ocorreu, da parte dos autores, uma vanguarda cinematográfica, talvez não na evolução tecnológica, mas sim no processo criativo da apresentação visual da cenografia (os cenários, os movimentos de câmara, a montagem), que apenas não se distinguia do geral através da cor: o preto e branco domina a estética nouvelle vaguiana.
Um conceito do qual geralmente a Nouvelle Vague se apropria é a noção de Cinéma-Verité, isto é, a reinvenção dos valores cinematográficos contra a falsidade que julgavam subjugar a indústria do cinema. O Cinema-Verdade é o testemunho da incapacidade de inserção e da revolta de uma geração respectivamente à anterior (aquela do cinema denominado qualité française); a Nouvelle Vague reclama a honestidade e despretensiosismo fílmicos. Tal como Godard afirmava no filme “O Pequeno Soldado”, a fotografia é a verdade, o Cinema é a verdade 24 vezes por segundo, querendo com isto referir-se ao “mito” de que o cinema reproduz 24 imagens por segundo aos nossos olhos e também ao facto de pretender interpretar e capturar genuinamente a realidade (mesmo que seja através da distorção, no caso de Godard).
Outras peculiaridades inerentes à Nouvelle Vague são: o retrato muito individual e personalizado das situações e vivências, pois sejam estas comuns ou incomuns, possuem sempre uma particularidade; a imaginação incutida, por vezes surreal, indo ao encontro da imagética onírica, por exemplo, por meio da inclusão de musicais ou curtas-metragens dentro do filme; a referência quase permanente à cidade de Paris, numa visão apaixonada ou desapaixonada, mas sempre apaixonante; a exploração social (o retrato das pessoas e personagens) e artística (a observação da arquitectura exterior e a decoração sugestiva interior); a relação cinema/literatura/música, através das inúmeras referências às admirações artísticas dos cineastas; a presença da morte simbolizando o fatalismo, o desencanto, o desfasamento da realidade, da ilusão e desilusão, o desalento após a efusão vivencial; a distância ou aproximação entre os géneros, masculino e feminino, ao sondar as relações que se estabelecem entre ambos.
Os factores que antecederam a década de 60 foram cruciais para a formação desta “escola” de cinema: a 2ª Guerra Mundial a um nível internacional, enquanto que a França se deparava com a descolonização, as guerras da Argélia e da Indochina, o Gaullismo e o comunismo. No âmbito da Sétima Arte, nos anos 50, a revista Cahiers du Cinéma era o mais importante órgão crítico, com a presença do famoso crítico seu fundador André Bazin, o mentor e exemplo mais citado pelos autores da Nouvelle Vague; também a Cinemateca Francesa, então sob a direcção de Henri Langlois, ajudou na constituição da inspiração artística dos realizadores que surgiram nos anos 60, ao divulgar as obras dos “mestres” menos mainstream e vulgares: Jean Cocteau, Max Ophüls, Robert Bresson, Fritz Lang, Roberto Rossellini, Carl Theodore Dreyer, Jean Renoir, entre outros.
Múltiplos realizadores poderiam, de certa forma, ser incluídos na Nouvelle Vague, embora não estivessem no núcleo duro. Jacques Demy, a sua mulher Agnés Varda, Jacques Doniol-Valcroze, Roger Vadim, Jacques Rozier, Louis Malle, Jean Rouch, Jean Eustache, são alguns dos nomes que em alguma altura ou através de determinadas obras se relacionam com o movimento.
Hoje em dia, apesar de a maior parte dos cineastas fulcrais à Nouvelle Vague permanecer no activo, uns com maior incidência (Chabrol, Rohmer), estes já não filmam de acordo com as ideologias de então. No entanto, observa-se um recente renascimento do espírito, da técnica e da identidade da corrente, através de jovens realizadores como François Ozon (“8 Mulheres”, “O Tempo que Resta”, Swimming Pool) e Christophe Honoré (“Em Paris”, “Minha Mãe”). Conquanto por volta de 1970 a Nouvelle Vague já estivesse esmaecida, nunca chegaria a perecer.*
*Excerto de um trabalho sobre dois filmes do período Nouvelle Vague

Wednesday, July 11, 2007

SBSR 2007

Os grandes senhores e senhoras das 3 noites:

- Interpol
- Arcade Fire
- LCD Soundsystem
- Maxïmo Park
- The Jesus and Mary Chain, pouco entusiasmantes, mas ainda para as curvas. "Crackin' Up" foi a mais satisfatória num alinhamento onde faltaram as essenciais "April Skyes" e "Cut Dead".
- The Gossip, principalmente pela atitude e voz de Beth Ditto.
- TV on the Radio, despertaram-me muito a curiosidade para a sua música, da qual pouco conheço (gggrrr, odeio a luz do dia).
- Scissor Sisters, hiperactividade super-divertida e colorida, ponto alto com o rabiosque de Jake Shears à mostra, hehe.
- Micro Audio Waves, que conseguiram a adesão do público ali à volta com a sua sonoridade espicaçante e actuação animada.
- X-Wife, à falta dos Rapture no dia anterior, os portugueses suscitaram a reacção dançável. Para mim, foi com "Action Plan".
- Bloc Party e Klaxons, não gostando muito nem de uns nem de outros, sempre deu para a moshe.

-Anselmo Ralph...epá...o que é que foi aquilo???!!!

Aqueles que eu mais esperava. Que magnetismo, que negritude. A voz de Paul Banks, a potência musical de Daniel Kessler (e o malho dele, também, hehe), de Carlos D. e de Sam Fogarino. E vão voltar ainda este ano...aaahh, óptimo óptimo.

Power out? não, muito pelo contrário. Loucura total...transcendente...impressionante a comunhão harmoniosa de todos os elementos desta banda que, juntamente com Interpol, ficam para mim em primeiro lugar neste festival.

oooh yeah..."No Moët No Showet, No Chandon No Bandon". Ainda bem que James Murphy respeitou a inscrição da sua t-shirt e os LCD nos presentearam com aquele show.

Grande concerto o dos Maxïmo Park, a receber aquela energia irrequieta e contagiante do vocalista/entertainer Paul Smith mesmo na primeira fila. Pressão sim, senti-a bastante enquanto eles tocavam esta música...então aqui nas costelas nem se fala...

Monday, July 02, 2007

Expectativa para amanhã:


Arcade Fire

...para depois:

LCD Soundsystem


Maxïmo Park


The Jesus and Mary Chain

...e para depois:

Interpol


...entre outros, claro.

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Thursday, June 28, 2007

Desde os primórdios do cinema que o terreno cinematográfico referente ao elemento simbólico é retratado com bastante incidência. De facto, é quase impossível obter uma obra cinematográfica sem para isso ocorrer um recurso ao domínio da simbologia. Podemos compreender a significância do simbólico através de uma frase proferida pelo crítico André Bazin: o Cinema oferece aos nossos olhos um mundo que corresponde aos nossos desejos. Ou seja: a irrealidade (a existência somente fílmica, entenda-se) de uma obra de cinema está ligada à realidade da vida quotidiana, simboliza o real que nós conhecemos mas pode distorcê-lo com o intuito de dar uma outra perspectiva, desconhecida, nunca experimentada, desejada. O desejo relaciona-se intimamente com o simbólico, assim como o mistério, o enigma, o fascínio.

Muitas das vezes, para decifrar uma situação, para dar a entender o teor, o verdadeiro conteúdo subentendido de uma obra cinematográfica, são inseridos os tais elementos adjuvantes da progressão e compreensão de uma acção, estando susceptíveis de esconder ou revelar pormenores infímos ou, por outro lado, muito significativos para o entendimento e contextualização ideais da acção. Esses elementos podem constituír objectos, sensações, falas, reprodução de situações déjá-vues, caracterizações das personagens, sinestesias, insinuações.

O ideal vivencial, outra vez o desejo, entra tantas vezes no campo pertencente ao onírico: o sonho simboliza a realidade e, no entanto, difere da mesma. O que mais pode oferecer tanta e tão variada simbologia inerente que não o sonho? Correntes cinematográficas como o Surrealismo & associados são então superiormente férteis em ofertas visuais simbólicas, basta recolhermos uma qualquer cena de certos filmes de cineastas como Jean Cocteau, Luis Buñuel, Salvador Dalí, David Lynch, Stanley Kubrick ou Federico Fellini, os quais, a certa altura, empreenderam algo surreal, com maior ou menor incisão.

A análise e interpretação deste tipo de filmes deve ter em grande conta a contagem e apreensão absolutas de uma quantidade de símbolos que se encontram sempre presentes, por vezes inseridos ao acaso no meio da acção, mas a maior parte das vezes carregando um significado maior: um presságio de que algo está para acontecer ou qualquer outra situação interligada com os desígnios das personagens e da diegese. A título de exemplo, podemos referenciar filmes como Citizen Kane de Orson Welles, no qual o personagem central está fortemente ligado a algo, o Rosebud, uma incógnita durante todo o filme, e que no final é revelado como sendo o trenó da sua infância, objecto que para ele simboliza um tempo de alegria jamais reconquistado. Em Beleza Americana de Sam Mendes, a forte simbologia da cor vermelha e das pétalas de rosa que povoam os sonhos eróticos do protagonista, designam o desflorar da virgindade da adolescente, objecto do seu desejo. No surrealíssimo Belle de Jour de Buñuel, a frígida Séverine vive sonhos constantes e perturbadores que evocam violentamente os prováveis abusos que sofreu enquanto criança.
O decifrar do significado de um filme ou apenas de cenas especifícas num filme torna-se atingível por meio da tentativa de compreensão do encadeamento dos vários elementos simbólicos que nos são oferecidos e que, cada um, podem fornecer diversas interpretações, sendo o papel central aquele do crítico e/ou espectador que interpreta o filme de acordo com a sua visão individual.*
*A minha resposta a uma questão do exame da cadeira de Análise e Interpretação Fílmica, na qual nos era pedido para dissertar acerca da importância da simbologia no Cinema.

Tuesday, June 26, 2007

Friday, June 22, 2007























IL CONFORMISTA

Não sendo admiradora convicta de Bernardo Bertolucci, há certos filmes do realizador italiano que não deixam de me marcar indelevelmente: 1900, embora seja falado em inglês (o que me irrita profundamente num filme que trata a história da Itália) tem um elenco de excelentes actores e torna-se um épico retrato da vivência italiana durante a primeira atribulada metade do século XX, incidindo no domínio fascista que assolou a Itália. Também este O Conformista, de 1970, exerceu sobre mim o tal fascínio, e tem igualmente como pano de fundo o regime de Mussolini centrando-se num personagem, Marcello (sublime Jean-Louis Trintignant), um fascista por ocasião, impassível, impenetrável, um conformista que se adequa à presente realidade que o rodeia.
Ao longo do filme, em flashbacks, surgem episódios da vida do personagem, desde a relação problemática com os pais, ao assassínio do motorista que tentou aliciá-lo sexualmente. Na verdade, aquilo que Marcello mais almeja é a procura e enquandramento na "normalidade" socialmente aceite, daí o seu conformismo, que o torna frio e indiferente perante as adversidades que o assaltam e as pessoas com quem convive. Não tem convicções, apenas desejos. Esse desejo ardente pela regularidade condu-lo ao casamento com uma dengosa e melíflua pequeno-burguesa, medíocre e histérica, bonitinha e melosa, que lhe agrada exactamente por ser tão usual. No entanto, saberemos sempre que Marcello é tudo menos normal: é diferente, tal como é afirmado por Italo, o homem que se julgava o seu melhor amigo, o qual, por ser invisual, está também cegado pela dissimulação de Marcello e não pode adivinhar quais os seus verdadeiros sentimentos (ou a falta deles).
A carência de escrúpulos de Marcello leva-o a aceitar ser o perpetrador de um homicídio contra um opositor ao regime vigente, um seu antigo professor agora residente em Paris. Acompanhado por um oficial do regime, Manganiello (Gastone Moschin) e pela sua noiva e mais tarde mulher, Giulia (Stefania Sandrelli), Marcello enceta aquilo de que foi incumbido. Torna-se amante adúltero da mulher do professor, Anna (Dominique Sanda), e vai seduzi-la para a desiludir no final, através da absoluta indiferença face à exasperação dela enquanto o marido é brutalmente assassinado. Durante este tempo da produção do crime, apenas uma hesitação percorre os sentimentos do protagonista relativamente ao seu papel no meio de todo aquele quadro de procedimentos, algo passageiro.
No fim do filme, volvidos uns anos, já com um filho e vivendo uma lide familiar comum, o fiel do Duce Mussolini assiste igualmente impassível e conformado à queda do regime fascista no qual estava inserido. O seu plano toma imediatamente forma, sabendo desde logo que não será atingido pela fúria socialista. Na rua para onde se dirige, uma multidão arrasta os membros de uma estátua mutilada do Duce, numa antecipação da morte do líder fascista italiano. O seu plano começa aí, no meio da gente, ao negar-se fascista e ao acusar outros de o serem, exaltado por se reencontrar novamente com o seu passado, personificado pelo motorista que o seduziu e que ele julgava ter morto.
O melhor deste filme, a meu ver, é a fabulosa interpretação de Jean-Louis Trintignant, que já me convencera em tantos outros filmes como o exímio actor que é. A sua conformidade com O Conformista é assombrosa, quando as suas expressões são filmadas de acordo com a índole de Marcello: a violência, a passividade, o nojo, a imperturbabilidade.

Saturday, June 16, 2007



Casarão abandonado, entaipado, vandalizado, espaço para junkies, solitários e casalinhos apaixonados, datado por volta da década de 50 do século XX. Em Vila Nova de Milfontes.

Thursday, June 14, 2007

Encontrado numa ponte em Vila Nova de Milfontes..."Scaeib Katzen" diz a legenda, se alguém souber o que quer dizer... imagino que seja "qualquer coisa gato". Bah

Friday, June 01, 2007

Jean-Claude Brialy
30/3/1933 - 30/5/2007
Morreu Jean-Claude Brialy, um dos maiores actores-símbolo da Nouvelle Vague desde os seus primórdios e do cinema francês em geral. E ainda ontem estive a rever Le Beau Serge, de Claude Chabrol, onde se destaca o brilhante Brialy...

Friday, May 04, 2007

Mundo Mix PT 2007

No fim de semana de 12 e 13 de Maio no Castelo de São Jorge em Lisboa tem lugar a mais recente edição do mercado alternativo Mundo Mix PT, não deixem de visitar este evento aliciante que conta com a participação de jovens talentos nas áreas do design, moda, música, multimédia, artes em geral. Com bandas ao vivo (Dapunksportif, The Poppers e Da Providers) e DJ sets (Xana Guerra, Kamala, Jeff e Henrique), entre outras atracções artísticas.
Podem-se adquirir todos os produtos em exposição num ambiente original, diferente e vanguardista.
Entradas grátis para residentes em Lisboa.

Siouxsie and The Banshees - Spellbound
Primeiro single extraído do álbum Juju de 1981 e uma das grandes músicas dos Siouxsie and the Banshees.
É impossível não se ficar viciado em Spellbound, com o seu ritmo galopante, altamente excitante, através da guitarra acústica imparável de John McGeoch, o baixo incisivo de Steven Severin, a bateria de Budgie ao rubro e a voz penetrante da gothic maiden Siouxsie Sioux.
3 minutos e 17 segundos de pura adrenalina concentrada, abruptamente interrompida.
It sends me spinning...

La Ragazza con la Valigia - cena final

"Impazzivo per te"...Celentano

Wednesday, April 18, 2007

La Ragazza con la Valigia
+ Sophia de Mello Breyner Andresen

Jorge Silva Melo, em Carta Branca a... Jorge Silva Melo, ciclo que decorre presentemente na Cinemateca, veio ontem apresentar um dos filmes da sua vida, La Ragazza con la Valigia, antecedido de uma curta-metragem, o primeiro filme de João César Monteiro, sobre Sophia de Mello Breyner, intitulado Sophia de Mello Breyner Andresen (data de 1969), no qual Silva Melo fez a assistência da realização.

Confesso que não aprecio a escrita de Sophia de Mello Breyner, a focalização marítima, a acalmia, o classicismo, no entanto, admiro a escritora como mulher, pela sua intelectualidade, força de carácter, espírito livre e inteligência tão individual. O que João César Monteiro fez neste filme de 18 minutos é a observação natural da figura e personalidade de Sophia de Mello Breyner enquanto esta está com a família numa casa da praia e quando se afasta da azáfama familiar para se recolher na sua individualidade, acompanhada da câmara de João César Monteiro. Ouvimos a própria autora a ler pedaços da sua obra e a falar das suas influências e temáticas num ambiente em que Sophia se revela pelas palavras, pelas expressões faciais e pela interacção com os seus. É fascinante a montagem cénica do filme a preto e branco, as cenas intercaladas da privacidade de Sophia com o mar eterno na sua obra, assim como é fascinante a escolha dos locais de filmagem, seja o exterior (a praia e o mar) como o interior (a casa onde Sophia e a família se encontram). Este registo de Sophia por J.C.M. permanece como a "inscrição" cinematograficamente poética da escritora.


Na introdução que Jorge Silva Melo fez ao filme italiano que se seguiu, de tradução portuguesa A Rapariga da Mala (1960), o visado expressa a sua admiração e amor pelo filme de Valerio Zurlini, pela história, pelo mistério, pelo elenco. Após o filme, também eu partilho o fascínio pela cinematografia de La Ragazza con la Valigia, começando pelo par de actores centrais: Claudia Cardinale e Jacques Perrin. Perrin, que eu apenas conhecia de filmes como Cinema Paradiso e Os Coristas, ou seja, filmes nos quais a sua participação é breve, atraiu-me desde logo pela sua aparência enquanto jovem (embora mais velho seja igualmente muito interessante): fiquei absolutamente petrificada com a aparição em grande plano do belo Lorenzo Fainardi, o personagem, mais tarde, enquanto a trama se desenvolvia, Jacques Perrin evolui de sublime exemplar masculino para algo mais, concretamente, um excelente actor (revelação neste mesmo filme). Quanto a Cardinale, uma das heroínas italianas do cinema por excelência, lindíssima e cativante, é surpreendente no papel da malograda Aida. Através destes dois personagens, A Rapariga da Mala é o retrato da juventude inquieta e impulsiva, à descoberta das grandes sensações e sentimentos, conquistando a liberdade por meio da irreverência (Lorenzo), ou então com experiência de vida, maltratada e desprezada pelos outros (homens essencialmente), seguindo o curso incerto do caminho que segue (Aida).

Lorenzo, o adolescente de 16 anos, calmo, descontraído, pacífico, herdeiro rico de uma família nobre, é subitamente acordado para o amor quando o seu irmão, Marcello, o convence a "despachar" uma rapariga que tinha abandonado. Aida, a rapariga, a quem Marcello deixou uma misteriosa mala, desperta no melancólico Lorenzo um desejo amoroso, uma efeverscência de emoções que o conduzem à exaltação. A impetuosa Aida nutre pelo jovem inicialmente um carinho fraterno, impulsionado pela excitação de Lorenzo. À medida que a acção progride, adensa-se a complexidade sentimental e o enigma alusivo a Aida, e o espectador é estimulado para se imiscuir na sensibilidade das personagens: a inquietude de Lorenzo cresce, ao observar Aida a relacionar-se com outros homens, aí, a expressão de Jacques Perrin é focada em frequentes close-up da sua face, os olhares intensos, o desassossego, a cólera e o furor quando vê ameaçada a dignidade e integridade da sua amada. A cãmara acompanha a dança sensual de Claudia Cardinale enquanto Aida seduz, e assiste ás mudanças de humor da personagem, passando da alegria para a tristeza, da efusão para o abatimento, realçando o olhar da actriz que revela as palpitações que assaltam Aida.

No argumento do filme nunca saberemos quem Aida é realmente, ou, pelo menos, o que ela faz e o que aconteceu no seu passado. Também não sabemos o que leva na mala que carrega consigo e o porquê do seu desespero. Apenas é salientada a relação estabelecida entre os dois jovens, entre a transparência de Lorenzo e a enigmática Aida, relação essa que atinge o clímax emocional no fim do filme, quando ambos, amantes, se deixam caír na areia da praia e os seus corpos se aproximam irresistivelmente para talvez uma despedida agridoce, como o é a juventude e o amor.

Wednesday, April 04, 2007

A vaidade não matou o gato...

Há semanas descobri através do blog Postsecret este site, Wooster Collective, que divulga arte urbana, por vezes anónima, recolhida em todas as partes do mundo e que é actualizado diariamente. Por lá vêem-se e apreciam-se pedaços de talento apanhado em flagrante a embelezar as ruas das mais variadas cidades ou então arte pessoal de diversos contribuidores. Para observar continuamente e com atenção: http://www.woostercollective.com/

Thursday, March 29, 2007

Naked
um filme de Mike Leigh

Naked - Nu, de 1993, da autoria do britânico Mike Leigh, é um dos meus filmes favoritos. Por tudo. Pelo ensemble de actores, pelo argumento, pelos diálogos, pela técnica da realização, pela atmosfera criada a partir do estado do personagem central, Johnny.

Mike Leigh, assim como outros realizadores britânicos e irlandeses tais como Ken Loach, Stephen Frears, Jim Sheridan, um certo Neil Jordan e Michael Winterbottom, inscreve-se no rol pertencente a uma corrente que permanece linear e coerente ao longo da história cinematográfica das ilhas anglófonas: o realismo. Filmes como My Beautiful Laundrette (A Minha Bela Lavandaria) de Frears, Riff Raff de Loach, I Want You (Laços Fatais) de Winterbottom, Breakfast on Pluto de Neil Jordan (realizador que quase sempre mistura a realidade com o surreal e fantasista), The Boxeur (O Boxeur) de Sheridan, partilham determinadas características que conferem a estas suas obras e a tantas outras um clima de proximidade ou frieza, características como a luminosidade ou obscuridade, o fog citadino e tão britânico que embacia as vidas já de si quase vazias, a sujidade, ás vezes a quase impessoalidade que acaba por ser aniquilada à medida que a acção progride e a psicologia das personagens é revelada, por isso é uma honestidade humana repleta ou mascarada por um cinismo e ironia latentes. Este estilo cinematográfico não raras vezes retrata as vivências comuns, incomuns ou insólitas de indivíduos colocados no centro de uma comunidade de cidadãos, usualmente a classe trabalhadora, os emigrantes, os marginais, os misfits (prostitutas, ladrões, homossexuais, rufias, pobres). Essa perspectiva individualista vem sempre a tomar o lugar fulcral enquanto é feita uma observação pormenorizada do ambiente que rodeia o protagonista ou, egotizando, é explorada a consciência plena desse protagonista.

É exactamente isto que acontece em Naked: Johnny (David Thewlis) está desempregado e sente-se frustrado e limitado na sua Manchester natal. Por isso, depois de violar uma prostituta e roubar um carro, foge para Londres na peugada da sua ex-namorada, Louise (Lesley Sharpe). Em Londres instala-se no apartamento que ela partilha com Sophie (exímia Katrin Cartlidge), uma lunática de falar cómico que se apaixona subservientemente por Johnny. Johnny, o pária social, ladrão, violador, desempregado e sem casa, que nos é primeiramente apresentado como sendo um loser inútil e imbecil que foge de si próprio, é mais tarde completamente desvendado: afinal ele é violento mas inteligente, tem distúrbios bipolares, possui uma cultura acima da média e uma consciência social para além da sua própria condição. Procura nos outros uma justificação para a humanidade através do atiçar da consciência deles, da violência física e humilhação psicológica que exerce sobre eles (essencialmente sobre o sexo feminino). O espantoso e excelente David Thewlis compõe na perfeição um Johnny altamente cínico, intelectualmente acutilante, incomensuravelmente irrespirável, no sentido em que a sua violência aliada à inteligência aguda e sensível, provocam-nos uma reacção quase asmática ao sermos confrontados com a intelectualidade a descoberto de Johnny. O título Naked tem então duas acepções semelhantes: a transparência lúcida do raciocínio de Johnny que nos revela a sua personalidade, e o vazio existencial que ele sente, tendo por base a crença no Apocalipse que chegará aquando do novo Milénio.

Enquanto Johnny deixa Louise na dúvida relativamente ao reatar do namoro e Sophie em espera após a seduzir, vagueia sem destino pelas ruas nocturnas e obscuras de Londres onde se passeiam igualmente figuras irrequietas e marginais ás quais ele se junta naquele momento: o escocês desvairado e com tiques, interpretado por Ewen Bremner; a empregada de bar que Johnny intimida; a mulher de meia-idade, sexualmente frustrada que ele violenta; o porteiro da noite (Peter Wight) que faz vigilância e guarda o espaço num edifício vazio. É este último personagem aquele que mais vai estimular Johnny para revelar a sua percepção acerca do mundo e do propósito da humanidade, estabelecendo uma simetria entre a inutilidade do emprego do porteiro e a inutilidade que Johnny vê na existência vácua dos outros e de si próprio, daí os Dias do Fim que antecedem o Apocalipse serem encarados por Johnny como a salvação possível.

Entretanto, e para sublinhar mais vincadamente o entendimento e as acções de Johnny, é paralelamente retratado, obviamente com menos incidência, um outro personagem masculino, Jeremy/Sebastian (Greg Cruttwell), que acabará por se incluír indirectamente na história da qual Johnny é protagonista. Este personagem com dupla identidade personifica o vazio existencial que Johnny convoca, tem um carácter prejudicial, cínico, corrosivo e também violento, no entanto, jamais possuirá a dimensão da ciência essencial de Johnny, por ser, ao mesmo tempo que semelhante em acções praticadas, radicalmente oposto no que toca os seus fins últimos. A sua existência não tem sentido nem fim.

O final é representativo do carácter de Johnny: do seu desprendimento, dispersão, alienação. Após conseguir algo que desejava, Johnny foge disso e da provável estabilidade emocional e vivencial que daí resultaria. Foge de novo para o vazio inquieto.

Wednesday, March 28, 2007

Friday, March 16, 2007

The Smiths
these charming men

Há alguns meses atrás eu tinha prometido um artigo dedicado a um dos meus grupos musicais do peito: The Smiths. Chega tarde, mas chegou, este texto que se foca na banda e crucialmente no seu vocalista, na descrição das particularidades inerentes a ambos e ainda na crítica (sempre positiva) aos albuns e respectivas músicas que eu mais gosto.

Em meados dos anos 80, a cidade inglesa de Manchester revelou-se o ambiente ideal para a formação de uma banda como os Smiths: uma importante cidade industrial no norte de Inglaterra, uma cidade cinzenta e feia, com fábricas, blocos de cimento, bairros de tijolo, arredores de baldios deixados ao acaso. Em 1984, o movimento musical denominado Madchester, impulsionado pela editora Factory de Tony Wilson na década anterior, já começava a fraquejar e a diluír na sequência do trágico suicídio de Ian Curtis, líder dos Joy Division, em 1980, e que subsistia em grupos como os Happy Mondays e A Certain Ratio.

A louca Manchester tinha mergulhado uma vez mais no clima de melancolia, monotonia, e descontentamento tipicamente mancunianos, naquela cidade com tendências suicídas e homicidas. Foi no meio desta estagnação a todos os níveis que os Smiths viram o seu nascer, não só musical, mas também com consequências nas esferas social e cultural (de sobremaneira), sem faltar os domínios político e religioso. Iniciou-se então o processo de iconografia e consagração, quase canonização, deste grupo e, essencialmente, do líder Steven Patrick Morrissey (sim, Steven, e não Stephen (ouvir letra de Ouija Board, Ouija Board de Morrissey)), isto por parte da juventude britânica que neste tempo já não tinha uns Sex Pistols que dessem voz ás suas contestações. Os restantes menbros dos Smiths eram os fabulosos: o guitarrista Johnny Marr, o baixista Andy Rourke e o baterista Mike Joyce.

A imagem que Morrissey transmitia acabou por ser assimilada por um número inestimável de jovens de então, que aproveitaram o surgimento dos Smiths e daquele herói que era anti-, para se agarrarem a algo de novo. Os Smiths, como revelação, foram um imenso estrondo e o seu líder tornou-se uma bomba-relógio contra a política, a monarquia, a igreja, a educação, entre outros. Quando em 1984 lançaram o seu primeiro album intitulado The Smiths, o Reino Unido era governado pela mão ultra-conservadorista da Dama de Ferro, Margaret Thatcher: a classe trabalhadora revoltava-se, a juventude perdia o interesse e o empenho, o discurso patriótico dos conservadores já não convencia. The Smiths, um grupo de jovens oriundos da classe operária de Manchester e que não vislumbravam um futuro melhor para eles próprios, refugiaram-se na música como escape ou como denunciadora da sua condição e situação actuais.
Steven Morrissey, cérebro incontestável, foi quem escolheu o nome da banda exactamente para sublinhar o quão vulgares aqueles tipos (os próprios Smiths) eram, ao adoptar um dos nomes ingleses mais comuns (Os Silvas, numa possível adaptação...). Era ele quem orientava as correntes idealistas da banda propagando os ideais que sustentava; eventualmente, chegou ao ponto de ser ele a cuidar do aspecto gráfico dos discos editados ao escolher as fotografias e as personalidades a estampar nas capas. Era ainda Moz quem controlava os hábitos e vícios dos restantes menbros dos Smiths: sendo um vegetariano inveterado (cite-se Meat is Murder), “obrigava” Marr, Rourke e Joyce a seguirem o mesmo padrão alimentício quando se encontravam junto dele; não admitia o uso de drogas ou qualquer outra substância por parte dos outros três, fazendo com que estes escondessem de Morrissey o facto de consumirem.

Morrissey, fisicamente alto e esguio, atlético mesmo, elegia um visual invulgar: óculos de aros enormes, penteado com uma popa espetada ao estilo Elvis-Timtim mais personalizado, t-shirts com Oscar Wilde estampado, camisas a puxar para uma feminilidade latente, calças de ganga com bouquets de flores selvagens pendurados nos bolsos. As suas feições algo misteriosas, dramáticas, enigmáticas, por vezes com um ar de zombaria (oh, a ironia de Mozza!), outras vezes distantes, melancólicas, nostálgicas. A voz é surpreendentemente masculina, grave, profunda e suavemente cantada. Os gestos são melodramáticos, exagerados, leves, despropositados, o corpo move-se numa dança ágil e teatral atirando os braços ao ar como se de uma marionete se tratasse, para dançar de olhos fechados com movimentos ondulatórios ao sabor da maré musical (imagem de What difference does it make?).

É de notar a assexualidade de Morrissey: desde o início da sua carreira nos Smiths que ele tem sido venerado como um ícon sexual e homossexual, no entanto, nunca mostrou qualquer inclinação para a sexualidade ou para o sexo, preferindo ironizar e confundir através das suas letras que apontam para a ambiguidade de significados. Citações como I lost my faith in womanhood (Pretty girls make graves) e, mais recentemente na sua carreira a solo, uma frase como then he motions to me with his hand on my knee (Dear God, please help me), abertamente homossexual, fez correr rios de tinta, mas Mozza não descose; William, it was really nothing e Girl afraid fazem juz à tal ambiguidade sugestiva. Afirmando-se um feminista convicto, muitas das referências de Morrissey são femininas, desde Sandie Shaw a Shelagh Delaney; a obsessão por James Dean, Pier Paolo Pasolini e Oscar Wilde veio ajudar à mitificação da sexualidade interdita de Moz.

As flores que Morrissey insistia em usar e em atirar em concertos têm para ele a simbologia da beleza e da paz. Ao vivo, os fãs, que adoptaram um estilo a condizer com o do seu ídolo (como é representado no vídeo de There’s a light that never goes out), subiam ao palco para beijar e abraçar um impassível e indiferente Morrissey. Assim, os Smiths e o seu vocalista/letrista/músico tornavam-se figuras de proa para os anos 80 até aos dias de hoje.

A dupla MARRISSEY: a junção perfeita da voz, lírica, composição e instr
umentalidade ocorre por meio da dupla criativa Morrissey e Johnny Marr. Para apimentar, houve uma suposição de que Morrissey e Marr estariam intimamente envolvidos, mas ambos os visados negaram essa suposição com naturalidade, alegando que nunca existiu uma relação física sequer. No entanto, afirmavam amar-se mutuamente pois os seus espíritos criativos encontravam-se em harmonia. Juntos formaram um dos pares mais entusiasmantes e engenhosos da história da música, atribuindo aos Smiths a intensidade e inteligência características tanto ao nível da música como da poesia, sendo Johnny Marr o compositor por excelência, ao passo que Morrissey toma o lugar de poeta.
Assumindo uma maior subjectividade, falo agora dos álbuns dos Smiths e das minhas músicas preferidas de cada album, embora todas sejam geniais, não discorro sobre todas elas senão este artigo inteiro daria para fazer outro blog.

The Smiths (1984): (na capa está uma imagem do filme Flesh de Andy Warhol). O album da descoberta e da revelação. Revelou desde logo uns Smiths de elevado espírito crítico, intelige
ntes, dispostos a condenar implacavelmente tudo aquilo a que se opunham e a proliferar os seus ideais. Muitos dos temas e subtemas que acabaram por marcar a lide musical do grupo, falando da lírica de Morrissey, manifestam-se no disco de estreia: a revolta, a descoberta sexual, a juventude e infância amargas, a pedofilia, a rejeição, a imcompreensão, o crime, etc, sempre acompanhados ou então camuflados pela tal ambiguidade de significado que dificulta a compreensão das palavras de Morrissey. Para além desta ambiguidade na escrita, as letras de Moz trazem ainda uma infinidade de referências maioritariamente literárias que por vezes desvendam a verdadeira mensagem da música em questão.

-Suffer Little Children: but fresh lilaced moorland fields cannot hide the stolid stench of death. O album acaba em grande com esta música na qual Morrissey pretendeu evocar um acontecimento que diz ter marcado a sua infância: o assassinato pedófilo de cinco crianças na Manchester de duas décadas antes pelo casal Ian Brady e Myra Hindley. Inicialmente causou polémica no seio das famílias dessas crianças que a príncipio não entenderam a intenção da letra de Morrissey, no entanto, acabaram por aceitar que afinal o autor não intencionava ofender, mas sim condenar. Na minha opinião, o sarcasmo/ironia de Mozza manifesta-se fortemente no título desta canção, Suffer Little Children, uma passagem do Evangelho segundo São Marcos que se trata de uma fala proferida pelo próprio Jesus Cristo e cuja continuação é: Suffer the little children to come unto me and forbid them not, algo como “Deixai vir a mim as criancinhas e não as impeçais” – heresia latente na eterna (ou não) luta de ideais travada entre Morrissey e a religião (aparentemente ele agora diz que perdoou Jesus...). Subentende-se então a comparação entre a figura cristã de Cristo com as figuras quase satânicas dos dois assassinos sem escrúpulos. Talvez Morrissey esteja a expressar a sua descrença e desentendimento relativos à fé cristã e aos métodos por vezes nada cristãos de certos representantes dessa Igreja (a pedofilia no seio das comunidades católicas). O certo é que esta música é fabulosa, principalmente a composição musical de Marr e os timbres menores (tristes) da voz de Morrissey, para além da mensagem que pretende transmitir: ao ouvir esta música, mesmo não sabendo qual o conteúdo, sentimos um arrepio na espinha, o tom melancólico, a voz arrepiante de Mozza, a tristeza comunicada...quando ficamos a saber que fala sobre crianças perdidas, raptadas, molestadas e assassinadas, tudo se torna mais sinistro, como se estivéssemos rodeados pelos fantasmas inquietos de Lesley-Anne, John e Edward, 3 das 5 crianças torturadas por Hindley e Brady.

-Reel Around the Fountain: it’s time the tale were told of how you took a child and you made him old. Em paralelo com Suffer Little Children, a pedofilia volta a servir de tema, desta vez para a música que inaugura o album. Curiosamente, ambas as músicas têm a mesma duração: 5 minutos e 27 segundos. Mas em Reel Around the Fountain não se denota a violência psicológica causada por um acto pedófilo (temática que se entende directamente apenas no 1º verso, acima transcrito), mas sim o desejo sexual resultante do acto perpetrado. Pedofilia ou simples perda da virgindade, é difícil de distinguir nesta letra, mas uma certa posição na defensiva da suposta “pedofilia” não indica gravidade. Com uma cadência calma e regular, esta canção volta a preencher os requisitos melódicos conotados com os Smiths.

-The Hand That Rocks the Cradle: to tease, torment and tantalise, as long as the hand that rocks the cradle is mine. Inspirada por um poema de William Ross Wallace, esta quase balada ou mesmo canção de embalar é compreendida, por algumas interpretações como um manifesto anti-imperalista do poder britânico, por outras como mais uma que versa sobre crime pedófilo e sentimento de autoridade e exclusividade. A mim, não me parece que tenha muito a ver com o anti-imperialismo, mas sim com um desejo de auto-comiseração e humilhação resultante do arrependimento por uma acção praticada, e, por outro lado, o desejo controlador da mão protectora que embala o berço. Que berço? O que consola depois de ter magoado?

-Pretty Girls Make Graves: A indicação do título para um livro de Jack Kerouac realça logo o conteúdo temático desta música: a homossexualidade indesejada. Se tivesse lido a obra de Kerouac seria mais fácil analisar, mas sendo assim, tenho de me orientar pelas óbvias semelhanças entre livro e música, correndo o risco de perder o sentido imposto ás alusões de Morrissey. O pretty girls make graves que intitula a canção refere-se à paixão de uma mulher por um homem que afinal não é quem ela pensa ser, mas sim homossexual (I’m not the man you think I am, na primeira pessoa, and sorrow’s native son, he will not smile for anyone, na terceira pessoa). Esse homem lamenta não ser hetero para a poder corresponder, daí o sorrow/agrura.

-What Difference does it Make?: A introdução electrizante da guitarra de Marr nesta música deixa-me imediatamente alerta para uma possível dança deslizante (do tipo moonwalking apressado). Esta música fez toda a diferença para mim desde que as primeiras vezes que a ouvi, e foi também a que primeiramente mais contribuiu para que eu começasse a tomar consciência e conhecimento do colosso que são os Smiths.

-This Charming Man: will nature make a man of me yet? A sedução dentro de um carro por um homem encantador a um rapaz vulnerável. A prostituição, principalmente a masculina, serve de tema a muitas letras de Morrissey (explicitamente em Picadilly Palare, na compilação a solo Bona Drag), mas neste caso em particular, o rapaz é atraído pela oportunidade de esquecer por uns momentos a complexidade que atinge a sua condição, enquanto puder regalar-se com a suavidade da pele do banco da frente do automóvel (alegoria). Uma vez mais, a música ganha pontos em termos de composição, com riffs acutilantes e agudos em contraposição a um baixo sempre grave e uma voz sonantemente timbrada.

Meat is Murder (1985): na capa figura uma imagem de um documentário de guerra, In the Year of the Pig, cujas letras no capacete foram alteradas para o nome do álbum. Num segundo registo centrado nos problemas sociais, a violência, a má educação, a barbaridade humana, os Smiths empenham-se para um álbum que não desilude as expectativas criadas após o sublime disco de estreia. Em Meat is Murder, relativamente à semelhança de harmonias do homónimo, denuncia-se uma maior diferença de entoação na composição musical, na medida em que os ritmos são mais distintos entre cada canção e também mais enérgicos e pujantes comparativamente à melancolia que dominava em The Smiths. Não quero dizer com isto que ache Meat is Murder melhor que The Smiths, apenas positivamente diferentes.

-Meat is Murder: this beautiful creature must die a death for no reason. A introdução da faixa-título do álbum é feita ao som da “voz” de animais, como o mugir da vaca. Nunca Morrissey foi tão directo e frontal na explicitação de um seu ideal. Ficamos a saber que o rapaz tem uma dieta exclusivamente vegetariana, não come carne pois considera a matança de animais para alimentação um crime. Embora não partilhe dos mesmos hábitos alimentícios de Mr. Moz, esta música e letra são assombrosas, na maneira como Morrissey se compadece das criaturas que são sacrificadas diariamente para o benefício de uma raça humana não merecedora e em decadência moral. O apoio em características de alguns animais, tal como a nobreza, em oposição à bestialidade do ser humano serve de base à convicção de Morrissey e aponta para o seu descrédito e até desprezo para com a humanidade e a sua podridão ética accional. Inocência dos animais vs a Culpa dos homens.

-The Headmaster Ritual: give up education as a bad mistake. Morrissey promulga aos sete ventos o seu ódio e oposição relativos ao tipo de educação a que foi sujeito enquanto jovem, filho de emigrantes irlandeses na Manchester dos anos 60. Nesta música surge a figura do headmaster (o reitor) como representante da tirania escolar infligida ás crianças e jovens de então com os seus métodos execráveis, fisicamente dolorosos e até psicologicamente traumatizantes. O gozo com o personagem do director é feito através da descrição do tal ritual ditatorial por ele praticado e pelo caricaturismo do seu carácter, fazendo uso de vários recursos que ridicularizam ainda mais a figura do reitor, tais como o facto de contar sempre as mesmas piadas caídas em desuso e vestir fatos antiquados.

-Nowhere Fast: I’d like to drop my trousers to the queen, every sensible child will know what this means. De novo a crítica social, visando a monarquia em particular, intercalando o social com o pessoal, o vazio do Eu sujeito. Nowhere Fast, a estagnação impassível que afecta o sujeito, resulta das suas emoções frustradas e falsas, esse despojo emocional espicaça-o para a possível morte por não conseguir concretizar o desejo de rebeldia: a analogia de baixar as calças (entenda-se, mostrar o cu) ao mundo e à rainha. Com um ritmo galopante e revoltoso, esta música inscreve-se no rol da excelência musical dos Smiths.

-What She Said: “How come someone hasn’t noticed that I’m dead?”. Captando a narrativa de um livro de Elizabeth Smart, By Grand Central Station I Sat Down And Wept, Morrissey discorre sobre a amargura da protagonista que se sente desesperadamente ignorada e por isso espera a morte que já sente psicologicamente.

-Barbarism Begins at Home: Unruly girls who will not settle down, they must be taken in hand. Se em The Headmaster Ritual Morrissey se referia à brutalidade nas escolas da qual os alunos eram alvos, em Barbarism Begins at Home é exposta a barbárie doméstica da qual as crianças são alvo e que mais tarde se manifesta no seu carácter. A violência e injustiça que Morrissey partilha aqui, são recorrentes na defesa das crianças, cuja incompreensão gera fúria da parte de quem também não as compreende. Na música, recorre-se a uma vivacidade aguda para marcar a impetuosidade do tema, enquanto Morrissey ainda urra e grita violentamente.

The Queen is Dead (1986): A fotografia de capa é do actor francês Alain Delon no filme L’insoumis. Este álbum é aclamado como sendo o melhor do percurso dos Smiths, no entanto, eu considero essa posição um pouco redutora, pois creio que não há um “melhor” álbum para os Smiths. Há um mais fraquinho (Strangeways, here we come), mas os restantes são golpes de puro génio. Como este The Queen is Dead...poderosíssimo.

-The Queen is Dead: Her very Lowness with her head in a sling, I’m truly sorry but it sounds like a wonderful thing. Excelentíssima música! Majestosa! Quase épica, com o coro austero que introduz, a bateria de Joyce ao rubro, os deslizes da guitarra de Marr, os uivos de Morrissey... Aquele início com o coro que canta “Take me back to dear old Blighty”*, retirado do filme The L-Shaped Room, pode referir-se, segundo a música de Mills/Godfrey/Scott, ao desejo de voltar ao berço, neste caso Inglaterra, denotando-se o pendor patriótico da restante letra (abaixo transcrita); encontrei outras referências, nomeadamente no que respeita a 2ª Guerra Mundial, altura em que o verso Take me back to dear old Blighty esteve muito em voga no seio das tropas britânicas. Relativamente ao conteúdo da música escrita por Morrissey, este começa logo por contrariar os versos de "Take me back to dear old Blighty" ao dizer adeus aos tristes pântanos de Inglaterra (farewell to this lands cheerless marshes). Prossegue como se fosse uma rêverie: a consistência/inconsistência da música revela-se como um sonho que Morrissey transcreveu, no qual descobre ser um descendente de uma velha monarquia decadente, e então enceta um diálogo com a rainha. A ridicularização das instituições Monarquia e Igreja ocorre através de versos como dear Charles, don’t you ever crave to appear on the front of the Daily Mail dressed in your mother’s bridal veil?, ou and the church who’ll snatch your money; esse ridículo transparece ainda no princípio da música quando Morrissey se refere à rainha como Her Lowness em vez de Her Highness, e igualmente no diálogo paradoxal da rainha que, por um lado, afirma que aquilo que a toca é o amor, a norma e a pobreza, enquanto que no verso seguinte, o que a preocupa é o facto de a chuva lhe estragar o penteado.

*Take me back to dear old Blighty
Put me on the train for London town
Take me everywhere
Drop me anywhere
At Liverpool, Leeds, or Birmingham
Well, I don't care
I should like to see...

-I Know it’s Over: oh Mother, I can feel the soil falling over my head. I Know it’s Over é de arrepiar. Todos os elementos se conjugam na perfeição, desde o começo abrupto com a voz de Morrissey, lastimosa e penetrante, a suavidade do baixo de Andy Rourke a confiar a negritude, o compasso disciplinado de Mike Joyce e os intensos arrepios de Johnny Marr à sua guitarra triste. A letra fala-nos de ilusão e desilusão, ilusão porque o que acabou nunca sequer começou (I know it’s over and it never really began but in my heart it was so real) e desilusão porque jamais será atingível. A hipótese que se coloca é a morte, que parece querer levar consigo o sujeito poético, embora este peça ajuda para não se deixar levar pela personificação do mar tempestuoso e da faca que o quer cortar. O objecto do seu desejo, a noiva desgostosa (although she needs you more than she loves you), humilha-o enquanto faz repetidamente a mesma pergunta, why are you on your own tonight?, antecedida pelos adjectivos if you are so... funny, clever, very entertaining e terribly good-looking, para a qual a resposta é because tonight is just like any other night, sublinhando o quão platónico é o amor dedicado do protagonista. O final magnânime e ao mesmo tempo aterrador, define derradeiramente a impossibilidade da concretização de um relacionamento amoroso ao dizer: love is natural and real but not for such as you and I, my love, prosseguindo com o lamento cada vez mais forte que inicia o poema: oh Mother I can feel the soil falling over my head!

-Cemetry Gates: Keats and Yeats are on your side while Wilde in on mine. Campeonato de três poetas entre dois amigos: é notável a paixão de Morrissey por Oscar Wilde, daí ele desejar que se sobreponha a dois outros grandes poetas, John Keats e William Yeats. Num registo quase cómico, Morrissey atenta na questão do plágio, dizendo que se deve usar sempre as nossas palavras. Sarcástico, claro, porque ele próprio se apropria sempre de alguma frase ou expressão já usada, o que, na minha opinião, faz muito bem e enriquece os seus textos de uma maior significância. You say: “Ere long done do does did”, words which could only be your own, you then produce the text from whence was ripped (some dizzy whore, 1804)...hehehehe

-Some Girls are Bigger Than Others: algumas músicas são maiores que outras, e Johnny Marr introduz aqui uma grande composição. A letra de Morrissey não deixa muito espaço para interpretação, com a objectividade do refrão, mas mesmo assim há lugar para alusões a outras obras, desta vez o filme Com Jeito Vai... Cleópatra, uma rapariga maior que as outras, através da frase: as Anthony said to Cleopatra as he opened the crate of ale: some girls are bigger than others.

-There is a light that never goes out: and if a double-decker bus crashes into us, to die by your side is such a heavenly way to die. Os primeiros versos opõem-se à dominante negra e negativa dos sentimentos expressos na maior parte das músicas dos Smiths: take me out tonight where there's music and there's people who are young and alive. Mas este desejo de escape é originário de uma situação prévia de distúrbio, uma vez que o protagonista não quer voltar a casa (I never never want to go home) isto porque existe um them que considera um obstáculo (because it's not my home it's their home and I'm welcome no more). O apoio no ser amado e o sentir que é recíproco, deixam o sujeito tão realizado que não se importaria de morrer ali mesmo pois estava feliz. No entanto, o facto de the pleasure and the privilege is mine e apenas do sujeito, não aludindo à outra parte, a do ser amado, deixa de lado a hipótese da reciprocidade. Quase a acabar a música, os penúltimos versos afastam o que até então se julgava ser real: and in the darkened underpass I thought: Oh God, my chance has come at last (but then a strange fear gripped and I just couldn't ask) take me out tonight... o que o protagonista desejava não foi concretizado porque este nem sequer conseguiu pedir a esse alguém que o levasse para longe da sua vida. Enfim, afinal sempre existe esperança, a luz que nunca se apaga.

Louder Than Bombs (1987): A edição americana para The World Won’t Listen, é uma compilação de 24 excelentes temas, alguns inéditos, outros previamente editados como singles. A ensaísta Shelagh Delaney faz capa e o título do álbum é emprestado de uma frase recolhida de um livro do escritor inglês Alan Sillitoe. A excelência vívida deste álbum grita muito alto, não mais alto que os outros álbuns, pois a quantidade de músicas de Louder than Bombs confrontada com o equivalente a metade do número dessas músicas nos outros discos, não significa que seja uma obra superior a esses.

-Oscillate Wildly: esplêndido devaneio melódico da parte do génio compositor de Johnny Marr, unicamente instrumental, no entanto partilha da mesma força possessiva e emotiva como se fosse acompanhada da letra e voz de Morrissey. O título sugestivo e o ritmo da música dão uma ideia exacta de inquietação, dúvida, uma oscilação frenética numa corda bamba existencial. O facto de a música não acabar, ou seja, vai-se diluindo, dá a ideia de que existe uma continuação escondida, uma sensação de inconsumação do desassossego que assalta o sujeito musical.

-Half a Person: Sixteen, clumsy and shy, that’s the story of my life. Esta é a frase que sempre me apeteceu estampar numa t-shirt. Mas aí então o significado seria outro. Esta frase é o sintetizar da monotonia, singularidade e vacuidade que atinge um rapaz que não consegue atingir aquilo por que anseia: aquela que persegue sem que esta se aperceba da sua importância/existência (I’ve spent six years on your trail). Numa viagem empreendida até Londres, o adolescente tímido e desastrado inscreve-se num movimento feminista (Y.W.C.A., Young Women’s Christian Association??? foi a única sigla desvendada que encontrei), à semelhança de Morrissey, que, como já foi dito, apoiava a causa feminista. Está patente uma submissão do jovem à mulher amada: I like it here – can I stay? And do you have a vacancy for a back-scrubber? Uma música calma e suave, com pendor melancólico, intimista, absolutamente interessante.

-William, it Was Really Nothing: Would you like to marry me and if you like you can buy the ring. Ah, uma música fogosa e impetuosa, onde a voz timbrada de Morrissey e a velocidade da mão de Marr imperam! William, o personagem, provavelmente prestes a casar, é questionado acerca da sua fé no matrimónio (how can you stay with the fat girl who’ll say: would you like to marry me...); a primeira frase transcrita indica talvez a insignificância e futilidade atribuídas por Morrissey à instituição casamento.

-Asleep: deep in the cell of my heart I will feel so glad to go. Outra música amarga para embalar ao som de uma lindíssima melodia para piano (tocado por Johnny Marr) e da voz quase sussurrada de Morrissey. Da presente letra entende-se uma despedida, um suicídio ameno há muito esperado e desejado, to fall asleep. A questão da eutanásia também se impõe quando reparamos na existência de uma segunda pessoa a quem se dirige o sujeito, aí, os versos Sing me to sleep and then leave me alone...don’t feel bad for me, I want you to know adquirem o significado de uma morte deliberadamente provocada por ambas as partes. Para a música que fecha o álbum, deixa um tom agradavelmente melancólico e sonolento...

-Sheila Take a Bow: How can someone so young sing words so sad? Numa música enérgica e potente, Morrissey canta o desgosto de uma jovem rapariga, Sheila, desgosto esse que se confunde com o seu. As perguntas feitas pela jovem, Is it wrong you want to live on your own? e Is it wrong not to always be glad?, obtêm resposta da parte do outro: No, it’s not wrong but I must add, how can someone so young sing words so sad?. O incentivo para sair da situação de depressão em que Sheila se encontra é um conjunto de actos de loucura rebelde e libertina: boot the grime of this world in the crotch, dear, and don't go home tonight, come out and find the one that you love and who loves you; throw your homework onto the fire. Morrissey sugere então o tal baralhar de géneros que nos deixam em dúvida relativamente a quem sente a depressão e a ânsia de evasão e refúgio: You’re a girl and I’m a boy, la la la...I’m a girl and you’re a boy.

-Girl Afraid: Excepcionalmente bem conseguida em todos os sentidos, esta melodia desafiante. Como sempre, a composição de Marr, a poética de Moz e o talento interpretativo conjugado de todos os membros (porque é necessário não deixar Rourke e Joyce na sombra), cruzam-se para dar origem a uma canção soberba. Nesta letra, Morrissey refere dois pontos de vista, um masculino, outro feminino, embora seja apenas o ponto de vista masculino aquele que intitula a música. Está implícito um afastamento entre dois seres diferentes que no entanto partilham dos mesmos medos e inseguranças no que concerne o outro, girl afraid e boy afraid: she says: “he never really looks at me, I give him every opportunity”; “but she doesn’t even like me and I know because she said so”; in the room downstairs he sat and stared, in the room downstairs she sat and stared, “I’ll never make that mistake again”.

Strangeways, Here We Come (1987): Strangeways, uma das zonas de Manchester que alberga uma prisão com história. O derradeiro álbum da banda (sniff sniff), antes de Johnny Marr pôr um ponto na carreira dos quatro companheiros juntos. A partir daqui os rumos que cada um tomou deram diferentes frutos, nada desagradáveis, mas que nunca poderão igualar a soberania THE SMITHS. Este registo finaliza os Smiths não da melhor maneira, depois de grandes prestações nos outros álbuns, mas não se trata obviamente, vindo de quem vem, de um fiasco musical, muito pelo contrário, Strangeways, Here We Come é um muito bom disco, com músicas que não fogem ao que os Smiths nos habituaram a ouvir. Isto na minha opinião, claro, que diverge da dos próprios membros dos Smiths: os quatro afirmam que este último trabalho de estúdio foi o mais gratificante, o mais bem acabado e mais "limpo". O actor Richard Davalos é a estrela de capa, no filme A Leste do Paraíso, numa imagem em que está a olhar para James Dean, a quem Morrissey idolatrava.

-A Rush and a Push and the Land is Ours: A depressão é imediatamente introduzida como tema da música através do verso I am the ghost of Troubled Joe, uma expressão que significa estar deprimido. Os versos seguintes falam do regresso do filho pródigo, descontente depois da rebelião, que volta a casa e é recebido com as palavras "There's too much caffeine in your bloodstream and a lack of real spice in your life". O protagonista, que não suporta ouvir falar no amor e na dor por este causada, remata o texto com um Oh, I think I’m in love, Urrrgh, I think I’m in love.... O refrão rosnado que serve de título à música é retirado de um poema de intervenção irlandês escrito por Speranza, nome-código da mãe de Oscar Wilde, também ela poetisa, e neste caso, pode significar que falta pouco para que o protagonista alcance os seus objectivos, a terra prometida.

-Stop Me If You Think You've Heard This One Before: I still love you but only slightly less than I used to. Nesta música de título excepcionalmente longo, os Smiths constituiram uma melodia rápida e imparável, quer na velocidade instrumental, quer na letra (Morrissey "não se cala"...). A letra é uma mescla de diferentes situações, todas de perigo ou violência: acidente de viação, homicídio, violação, bebedeira. O verso a itálico é introduzido sem senso.


-Last Night I Dreamt That Somebody Loved Me: No hope, no harm just another false alarm. Um título longo, uma música longa, mas belíssima. Uma abertura oscilante entre os ruídos distantes de uma multidão manifestante e um piano que parece lacrimejar notas estrénuas, perde força quando entra em acção a voz de Morrissey, a guitarra arranhada de Marr, o baixo inquieto de Rourke e a percussão lenta de Joyce. Numa letra simples, Moz parece desejar desesperadamente amar e ser amado, tanto que o sonho que parece ser real é apenas um falso alarme, para uma condição mal-amada que irá durar indefinidamente.

Claro que não me esqueci do restante repertório dos Smiths: a comicidade de Frankly, Mr. Shankly, Vicar in a Tutu, Panic, Is It Really So Strange? e até Rusholme Ruffians; a ironia de Sweet and Tender Hooligan, Girlfriend in a Coma, Bigmouth Strikes Again; o negativismo de Never Had No One Ever, Heaven Knows I’m Miserable Now, Unloveable, Please, Please, Please, Let me Get What I Want…oh, e tantas outras. Fora destes álbuns surgem músicas muito aproveitáveis, editadas como lado-b ou apenas em compilações e singles, por exemplo:

-Jeane: We tried and we failed... O absoluto negativismo da letra contrasta com o ânimo enfático do ritmo musical, que mantem quase ao longo de toda a música o mesmo ritmo e os mesmos acordes. Jeane, uma rapariga deprimida, triste, que se sente morta por não haver mais nada que a anime, é apoiada por um sujeito que confirma o seu abatimento mas que, no entanto, não se revê inteiramente no estado de espírito dela: I'm not sure what happiness means but I look in your eyes and I know that it isn't there.

-Accept Yourself: When will you accept your life ? (The one that you hate). Numa música espicaçante, como que para corresponder ao apelo da letra, os Smiths fazem a apologia, a meu ver irónica e amarga, da aceitação de uma condição que já de si não oferece uma boa perspectiva.

-I Keep Mine Hidden: it's so easy for you because you let yours flail into public view. Morrissey adopta uma diferente entoação de voz, um pouco infantil, leve e provocadora (com aquele assobio inicial), como que a contrabalançar a sua posição com a posição de um outro sujeito textual: a letra critica um outro alguém por dar nas vistas quando a discrição e circunspecção do narrador são mais admiráveis. Também se entende a alusão ao mistério que envolve a figura de Morrissey, que ninguém conhece verdadeiramente, isto porque o próprio assim o deseja: manter escondido, fora de vista - I'm a twenty-digit combination to unlock with a past where to be "touched" meant to be "mental". Hahahahahaha.No que corresponde ao trabalho do quatro membros dos Smiths após a separação em 1987, Morrissey construiu uma admirável carreira a solo, com os seus altos e baixos, que está para durar; Johnny Marr juntou-se aos Pretenders, aos The The, a Bernard Sumner nos Electronic, formou o seu projecto Johnny Marr + The Healers e integra actualmente os Modest Mouse; Andy Rourke também gravou com os Pretenders, para além de outras tantas colaborações, das quais se destaca recentemente o envolvimento com dois baixistas de grandes bandas de Manchester, Pete Hook (Joy Division e New Order) e Mani (Stone Roses, Primal Scream), num projecto chamado Freebass (!!!!); Mike Joyce levou a potência da sua percussão para músicos como os Buzzcocks, P.I.L. e Sinéad O’Connor. Que Deus os abençoe por tudo...

Fontes: http://www.wikipedia.org/
http://arcaneoldwardrobe.com/
Audio: Maximum Morrissey and The Smiths: the Unauthorised Biography

Wednesday, March 14, 2007

música: "Tu m'as trop menti" de Chantal Goya

Tuesday, March 13, 2007

MASCULIN
FÉMININ
(15 faits précis)
Jean-Luc GODARD, 1966.
Algures no filme surgia uma frase que dizia algo como: O filósofo e o cineasta têm algo em comum: a capacidade de identificar e compreender uma geração. É exactamente acerca de uma geração que versa Masculino Feminino, uma geração jovem nos anos 60, geração que se divide entre os dois sexos e os valores, ideais e atitudes inerentes a cada um e distintos entre si. As personagens masculinas dedicam as suas tertúlias à política, ao social e ás mulheres. As personagens femininas focam-se no interesse pela moda, pelo consumismo e pela liberdade . Les enfants de Marx et de Coca-Cola, como sublinhou GODARD no filme, referindo-se respectivamente aos homens e ás mulheres: os dois homens defendem o comunismo de Karl Marx, tentam ser social e politicamente empenhados e para isso procuram investigar e compreender esse social; as três mulheres prezam a nova liberdade da qual goza o sexo feminino, orgulham-se de não estar confinadas à vida doméstica e aproveitam o divertimento e absorvem a cultura de massas americana (Coca-Cola). Intelectualidade VS Futilidade?
Um diálogo entre os personagens masculinos desconstroi a palavra "masculin", na qual coexistem duas outras palavras - "masc" (máscara) e "cul" (cu) - enquanto que "féminin" não é composta. Desonestidade VS Vacuidade?
A história do filme centra-se no casal Paul (masculin) e Madeleine (féminin), interpretados pelos actores Jean-Pierre Léaud e Chantal Goya; os amigos de ambos - Robert, Elisabeth e Catherine - são desempenhados por Michel Debord, Marléne Jobert e Catherine-Isabelle Duport. Jean-Pierre Léaud confere a Paul a energia, entusiasmo e espontaneidade que são tão (magnificamente!) característicos a este actor-fétiche da Nouvelle Vague, assim como já antes havia conferido [e continuaria a conferir] esses aspectos da sua personalidade ao seu Antoine Doinel para François Truffaut.
Num filme sueco dentro do filme Masculin Féminin, é igualmente abordada a temática das relações entre o homem e a mulher, desta vez num ponto de vista sexual através da relação muda estabelecida entre os dois protagonistas dessa curta-metragem, Eva-Britt Strandberg e Birger Malmsten.
Este é o retrato de uma geração que viria a empolgar o Maio de 68, a juventude inquieta que já não se identificava com o Gaullismo pós-guerra e os seus ideais anti-americanos, pois servia de esponja para outros ideais e produtos de consumo originários da sociedade de além-Atlântico. Aparecia a enérgica e descontraída música yé-yé francesa (a própria Chantal Goya era na altura uma cantora em ascensão, tal como a sua personagem no filme), o cinema revelador, a crescente globalização dos média e da sociedade de informação. A ansiedade de rejuvenescimento em França e no resto da Europa não se queria fazer esperar, daí a aderência dos jovens a contra-correntes e subculturas. E depois há Paris...toujours Paris, a cidade-lume! Como é costume na Nouvelle Vague e em GODARD, a valorização das ruas e da vida parisiense é tão crucial quanto a acção e as suas personagens.
Inspirado por dois contos de Guy de Maupassant, La Femme de Paul e Le Signe, Jean-Luc GODARD adapta para a contemporaneidade dos sixties os temas em voga nas duas obras: a relação entre um homem e uma mulher, Paul e Madeleine, ele apaixonado por ela e ela fria e em dúvida relativamente a esse relacionamento. Essa dúvida é em parte entendida como sendo uma homossexualidade discreta, e é aí que entra a personagem de Elisabeth, companheira de quarto de Madeleine e suposta amante. A tal liberdade conquistada pelo sexo feminino manifesta-se também ao nível sexual: a ménage à trois subentendida quando Paul partilha a cama das duas amigas e é ele que acaba por ganhar a confiança sensual de Madeleine naquele momento. Esta obra prima de GODARD acaba como tantos outros filmes seus, esse final é o desencanto mas não o desfecho, nunca o desfecho.

Wednesday, February 28, 2007

Quando o MCM ainda passava boa música...

i-D - The Wild Women Do Issue

A mais recente edição da revista i-D (Março 2007) concentra-se na temática do poder feminino, women on top. Explora a mulher num sentido positivo, alertando para as contribuições femininas no munda da arte e cultura: a modelo de capa Lily Donaldson e a estilista Donatella Versace na Moda; David Lynch e uma das suas musas Laura Dern no Cinema; Lovefoxx dos Cansei de Ser Sexy e Susanne Oberbeck, a No Bra girl, na Música. As produções fotográficas ficam a cargo dos habitués Mario Sorrenti, Alasdair McLellan e Emma Summerton, entre outros.
Mais no site oficial:

Friday, February 23, 2007

O Porteiro da Noite
a vergonha do dia
Dirk Bogarde é Max, um porteiro nocturno de um hotel na Aústria pós- Holocausto. A vergonha que sente por se mostrar ao mundo à luz do dia resulta do arrependimento pela sua anterior pertença ao partido Nazi e ás suas acções contra o povo judeu durante a guerra. Charlotte Rampling é Lucia, uma judia sobrevivente do Holocausto que, 13 anos volvidos, refez a sua vida ao lado de um maestro. Quando Lucia se instala durante uns dias no hotel vienense onde Max trabalha, os dois reconhecem um passado que jamais os deixará de inquietar, isto porque enquanto os horrores do Holocausto se desenvolviam por trás dos portões dos campos de concentração, Max e Lucia, nazi e judeu, torturador e torturada (ou vice-versa), entregavam-se a uma relação funesta, sado-masoquista, sexualmente possessiva. De certa forma é a jovem e frágil Lucia que faz com que Max se dê conta das abomináveis acções anti-semitas, que ele julga terem acabado por conduzir Lucia à morte.
Na actualidade do filme, que recorre ao flashback para apresentar o passado de Max e Lucia, o porteiro da noite, juntamente com outros ex-nazi, procura limpar o seu nome e reputação junto de uma comunidade de apoiantes de Hitler que afirma não se arrepender dos actos perpetrados. A relutância que Max sente em relação a esse processo de aniquilação de testemunhas dos seus actos resulta do facto de ele próprio desejar que o seu nome permaneça sujo, como uma forma de se martirizar e castigar por aquilo que ele julga ter acontecido à sua menina. Durante o processo, a chegada de Lucia à cidade compromete seriamente o desfecho do processo a favor de Max, pelo que esta se torna num alvo a abater, visto da parte dos companheiros de Max.
De novo os ex-amantes se entregam a um fervor sexual atiçado pelas experiências que viveram, fervor que os leva a mergulhar na hostilidade recíproca através da violência física, compensada pelo amor que os une. Max tenta proteger a amante da condenação à morte que lhe foi feita pelos seus companheiros, no entanto, a partir do momento em que Max se refugia juntamente com Lucia, estão os dois irremediavelmente condenados, só lhes resta consumir a paixão brutal até ao desfalecimento.
O filme, realizado por Liliana Cavani, de título original Il Portiere di Notte, apresenta-se num clima visual frio e impessoal de modo a destacar a relação entre os protagonistas e o jogo de sedução por eles levado a cabo. A cena da dança de Charlotte Rampling para oficiais nazis na qual Lucia é vista como a dominadora (na foto) acaba com Max a mostrar-lhe a cabeça cortada de um judeu, destruíndo deste modo a superioridade momentânea de Lucia. De novo, já na actualidade fílmica, a cena é repetida, desta vez quando Lucia magoa propositadamente o pé de Max com vidros e ao procurar acariciá-lo, ele pisa-lhe a mão sob os vidros. A constante troca de estupros é a forma que ambos encontram para exprimir a tensão sexual entre eles provocada pelo passado que os persegue.
São as diferenças incutidas pela demência de Hitler entre povo judeu e raça ariana que impedem Max e Lucia de alimentar entre ambos uma relação normal. O mesmo acontece em A Lista de Schindler, com as personagens de Ralph Fiennes e Embeth Davitz, embora neste caso a paixão não seja retribuída por uma das partes. A vergonha da superioridade induzida é até hoje em dia algo que continua a deixar marcas na sociedade alemã e austríaca, pelo modo como se submeteram à irracionalidade de um único homem e se convenceram de uma realidade inexistente.

L'Amour L'Aprés Midi
L'amour à trente ans dans l'aprés midi de la vie

Este filme de 1972 está incluído num ciclo de seis longas-metragem de Eric Rohmer, ciclo intitulado Contes Moraux, e creio que a tradução portuguesa é O Amor ás Três da Tarde.

Rohmer, um dos impulsionadores da Nouvelle Vague francesa, filma em L' Amour L'Aprés Midi o entardecer do amor e do desejo de um homem, Frédéric (Bernard Verley), que vive tranquilo e desafogado, casado e à espera de um segundo filho. Frédéric limita as suas relações com outras mulheres ao mero sonho com encontros furtuitos e relações espontâneas nas ruas de Paris durante a sua prolongada hora de almoço l'aprés midi, negando a si mesmo a traição à sua mulher, Hélène, sem pôr em causa a sua honestidade amorosa. A moralidade de Frédéric é posta à prova quando surge no seu meio uma ex-conhecida, Chloé (Zouzou), com quem inicia uma amizade discreta que se concretiza quase todas as tardes e a qual Chloé procura elevar para o patamar do amor físico. No final ficamos a saber se Frédéric se deixa caír em tentação ou se, por outro lado, resiste à intromissão de Chloé.

Sunday, February 18, 2007

Friday, February 16, 2007

O Spleen de Baudelaire
Esse spleen tão tipicamente londrino adquire um novo significado para o Romantismo e Modernismo no século XIX. Originalmente significa enjoo, raiva, cólera, mas a acepção adoptada pelos românticos refere-se ao spleen como sendo um estado de melancolia, tédio, alheamento, conotado com uma ideia de Decadentismo, Anti- Positivismo e relacionado com o mal du siécle. Charles Baudelaire, notável representante da corrente Modernista em França, explora o spleen no contexto citadino parisiense, não só em Le Spleen de Paris, subtítulado de Petits Poémes en Prose, mas também na mais aclamada das suas obras poéticas, Les Fleurs du Mal (As Flores do Mal).
A grande insatisfação trazida pela inovação excessivamente acelerada (a Revolução Industrial) manifesta-se impetuosamente nos escritos de Baudelaire, pois tal como o próprio afirmou, "a poesia e o progresso contrastam-se", isto é, a literatura é a grande arma do espírito crítico que provoca a ruptura entre o homem e a sociedade moderna na qual se insere. Tanto em Le Spleen de Paris como em Les Fleurs du Mal verifica-se a predominância da crítica à saturação social, consequência de uma outra saturação ao nível tecnológico. O spleen denota-se no seio de um extracto da sociedade do burgo de Paris, um extracto marginalizado, os párias: os pobres, os bêbados, as prostitutas, os cães. A tristeza e amargura quase indiferentes para esta comunidade posta à margem do capitalismo e da renovação permanecem eternamente resolutas na sua condição de malaises. No entanto, não se trata apenas da exploração da situação dos hilotas, o próprio poeta encontra-se cheio de spleen, spleen esse desperto pela distanciação que Baudelaire processa em relação à humanidade moderna e aos ideais iluministas para se dedicar a uma espécie de obscurantismo vivencial incitado pela decepção e o enfado.
Neste poema intitulado "Spleen" incluido n' As Flores do Mal, Baudelaire estabelece a dimensão do tédio, l'ennui, e critica mordazmente a Modernidade da qual se frustrou e a qual assombra e promete fazer esquecer uma antiguidade plena de essência e engenho humanos não mecanizados (a esfinge dos grandes impérios, que contempla aparentemente imperturbável a passagem do tempo; o deserto do Saara, que existe desde o princípio do tempo):
Rien n'égale en longueur les boiteuses journées,
Quand sous les lourds flocons des neigeuses années
L'ennui, fruit de la morne incuriosité,
Prend les proportions de l'immortalité.
- Désormais tu n'est plus, ô matière vivante!
Qu'un granit entouré d'une vague épouvante,
Assoupi dans le fond d'un Sahara brumeux;
Un vieux sphinx ignoré du monde insoucieux,
Oublié sur la carte, et dont l'humeur farouche
Ne chante qu'aux rayons du soleil qui se couche.

Saturday, February 10, 2007

Helmut Newton
O fotógrafo alemão Helmut Newton concentrou toda a sua técnica e atenção na captura e exploração do corpo, essencialmente do corpo feminino, atribuíndo à arte fotográfica uma crueza impecável resultante da nudez e erotismo austeros. Numa espécie de voyeurismo à maneira de Blow Up, Helmut Newton redimensionou as fronteiras artísticas da sensualidade, dominando o corpo da mulher ao mesmo tempo que esta exerce um poder de sedução inabalável através da força da beleza, força essa por vezes viril, mas mantendo sempre o toque obscuro e intenso da femilidade. Que melhor exemplo cinematográfico para a mesma fé no feminino de Helmut Newton que os filmes de David Lynch?





Wednesday, February 07, 2007












Amici Miei - Oh! Amigos Meus!
Ontem, na Cinemateca, passou este filme de 1976 de Pietro Germi e Mario Monicelli, no âmbito do in memoriam ao recentemente falecido actor Philippe Noiret. Para mim era imperdível, depois de ter ouvido tantos comentários de como o filme era hilariante. Na verdade, é a comédia italiana no seu melhor, representada em Amici Miei por 5 amigos danados para a brincadeira, que nunca levam a vida a sério e conseguem escapar a uma realidade de tédio indesejada através das tropelias espontâneas que infligem aos outros. Todos eles têm personalidades e modos de vida diferentes, mas quando estão juntos vivem uns para os outros numa imensa joie de vivre: Perozzi, o narrador, só se sente verdadeiramente realizado quando sai da sua casa e deixa para trás o enfado do seu quotidiano para passar dias incansáveis numa "ciganada" inacabável; Melandri é um rouxinol iluminado movido por impulsos românticos, que tanto brinda ao amor como à folia; Necchi, um dono de um bar pacholas e despreocupado; Lello Mascetti, orgulhoso membro da antiga nobreza financeiramente arruinada, acaba sempre por se safar de situações caricatas ao pronunciar frases non sense tais como "É uma carga de super-porrada betumada com desconjuntamento à direita" ; por fim, o membro mais recente do gang, o doutor Sassaroli, um médico reputado que possui uma faceta absolutamente endiabrada e que deixa os doentes pendurados para se reunir com os amigos.
Estes amigos são interpretados pelos actores Ugo Tognazzi, Gastone Moschin, Duilio Del Prete, Adolfo Celi e o homenageado Philippe Noiret, formando um bando de "ciganos" inesquecível que nos presenteia com cenas tão burlescas que quase me fizeram partir as costelas de tanto rir.

Thursday, February 01, 2007

E aqui está a tatuagem que eu não me importava de ter... lembra-me os desenhos órficos de Jean Cocteau.
*retirada da revista i-D

Wednesday, January 31, 2007

i-D de Fevereiro: edição We Got Issues
Depois de uma edição que serviu para os meses de Dezembro e Janeiro, finalmente chegou ás nossas bancas a mais recente edição da revista britânica conceptual i-D. Tal como é denominada, We Got Issues, esta edição foca-se nos problemas e questões que atingem e assaltam o ser humano, desde as questões existenciais, de identidade pessoal e sexual, até ao indagar acerca do que o futuro nos reserva. O pessoal da casa e os colaboradores da i-D fazem a revisão destas questões recorrendo à apresentação do ponto de vista pessoal de cada um ou, como já é habitual, pegam em rostos conhecidos e em rostos desconhecidos para ilustratrem o tema de cada edição.
Desta vez, destaco a entrevista à grande lady que é Vivienne Westwood; as fotografias da autoria da fotógrafa Collier Schorr, vocacionada para a captação da ambiguidade sexual masculina e feminina; a colecção de arte do artista plástico nova-iorquino Dan Coler; e aconselho uma visita ao site oficial do grupo artístico House of Holland que reune várias t-shirts alusivas ao talento de criadores de moda como Gareth Pugh, Christopher Bailey (da Burberry), Hedi Slimane (da Dior), Giles Deacon e Marc Jacobs (da Louis Vuitton): http://houseofholland.co.uk/
Para mais informações relativas à revista e à publicação da i-D em Portugal, consultar o artigo do arquivo do mês de Outubro e o site oficial:

Human being rubbish being human being
Fotografia de Tim Noble e Sue Webster: Dirty White Trash with gulls

Dead Can Dance - The Wind That Shakes The Barley

A propósito do filme de Ken Loach, The Wind That Shakes The Barley ("Brisa de Mudança"), coloco aqui a música tradicional irlandesa que dá título ao filme, pela magnífica voz de Lisa Gerrard dos Dead Can Dance.

Tuesday, January 30, 2007

Alexandre Órion
Fotógrafo e artista brasileiro nascido em São Paulo que trabalha com as técnicas do graffitti e stencil, tal como o artista britânico Banksy, já abordado num dos artigos deste blog. Alexandre Órion mistura a pintura com a fotografia, a ficção representada nas suas pinturas urbanas com a realidade de uma fotografia de modo a que uma arte e outra interajam, se complementem e formem uma imagem que retrata um acontecimento como se este fosse momentâneo e imediatamente registado pela máquina fotográfica.
O jovem artista apresenta duas colecções fotográficas, o Ossário e a mais recente Metabiótica, ambas presentes no seu site oficial:



Monday, January 29, 2007

Keren Ann - La Disparition
Toucher à distance mais chez moi
A segunda aparição discográfica desta cantautora francófona dá-se pelo nome de La Disparition, data de 2002 e conta com a colaboração do músico francês Benjamin Biolay. Assume-se a típica chanson française com as suas canções muito melódicas, a melodia barbe à papa (algodão doce) que se derrete docemente numa languidez terna.
Keren Ann confia duas vertentes a La Disparition: a aproximação e o distanciamento. Ao mesmo tempo que a harmonia tenra e suave das composições faz com que nos deixemos escorregar para cima da cama e aconchegar nos lençois num ambiente caracteristicamente caseiro, a poesia de Keren Ann fala de ausência, do vazio, do desaparecimento, da recordação e de deambulação sonhadora (a tal disparition). Músicas como Au coin du monde, Ailleurs, Mes pas dans la neige, La Disparition, Les riviéres de Janvier e Le sable mouvant são exemplos do devaneio bucólico deste álbum agradavelmente brando.
C'est le seul vide que je comblerai peut-être
Le seul horizon que je vois par la fenêtre
Le seul sommeil qui pourra me faire renaître
Je t'embrasserai juste avant de disparaître
Mon double dans l'eau trouble
Ravive dans l'eau vive
Mon ombre dans l'eau sombre
Mon ange dans l'orange
C'est le seul vide que je comblerai peut-êre
Le seul regard que je saurai reconnaître
Le seul et unique, il n'a jamais cessé d'être
Je m'inclinerai juste avant de disparaître
Mon double dans l'eau trouble
Ravive dans l'eau vive
Je sombre dans l'eau sombre
C'est le seul vide que je comblerai peut-être
Le seul inconnu qui répond à mes lettres
Le seul mensonge que j'ai oublié d'omettre
Faire un dernier voeu en sautant de la fenêtre
Mon double dans l'eau trouble
Ravive dans l'eau vive...
L'écume des souvenirs
Devrais-je en rire dans le fond?
Les larmes, juste pour rire
Dois-je en pleurer pour de bon?
Rester ou repartir
Ou bien choisir la Disparition.
(Keren Ann em La Disparition, faixa-título)

Tuesday, January 23, 2007

O Tambor - Die Blechtrommel
Pegando num dos temas do post anterior, a revolta contra a sociedade e a consciência e determinação de uma criança, apresento este livro e filme, O Tambor, obra literária do escritor alemão nascido na Polónia Günter Grass, transposta para o écrã pelo realizador Volker Schlöndorff. A personagem principal, Oskar Matzerath, vive com a família na Polónia durante a ocupação nazi até ao final da segunda Grande Guerra. Ainda dentro da barriga da mãe, Oskar formula o desejo de receber um tambor no dia do seu terceiro aniversário, desejo que se concretiza. O pequeno e audacioso Oskar observa a realidade à sua volta munido do seu inseparável tambor e conclui que o mundo dos adultos é extremamente implexo e caótico porque eles assim o fazem e desejam. A decisão deliberadamente tomada por Oskar de parar de crescer aos três anos de idade torna-se realidade quando este se atira por um lanço de escadas e fica fisicamente incapacitado de se desenvolver. Oskar descobre um outro poder: o grito. Um grito agudíssimo capaz de quebrar vidros e de fazer com que as vontades de Oskar sejam sempre atendidas.
O grito e o tambor tornam-se, para além de instrumentos de manipulação, forças de intervenção e de denúncia das realidades que Oskar não compreende ou não deseja: a guerra, as discussões, a aprendizagem, a injustiça. Dentro da sua família disfuncional, Oskar impõe-se como aquele que está mais alerta relativamente ao ambiente que se vive no interior da casa e no exterior belicoso, enquanto a sua mãe cai numa depressão apática que a leva a consumir doses elevadas de peixe de conserva, e os seus pais (um é o verdadeiro e outro o padrasto) lutam cada um pelos seus ideais na presente situação política e social na Polónia: Jan está do lado dos comunistas, Alfred é um membro do partido Nazi.
O crescimento intelectual de Oskar e o seu despertar para o amor acontecem naturalmente, sem que ele se separe do seu tambor e sem que alguma vez deixe de questionar e de conservar o seu ponto de vista muito particular acerca dos acontecimentos que o rodeiam. O facto de ele aparentar ter apenas três anos é um factor para que a sociedade em geral o julgue como uma aberração ou simplesmente não o acredite, levando Oskar a explorar outros terrenos de acção e outras maneiras de viver a vida. Eventualmente, Oskar irá deixar para trás o comportamento manipulador e adulto-infantil que até então tinha adoptado, e esse abandono é acompanhado pelo tambor e é seguido pelo crescimento físico que se deve unicamente ao arbítrio de Oskar.
Não li o livro, apenas vi o filme de 1978, que conta com a excelente e arrebatadora participação do então jovem actor suíço David Bennent no papel de Oskar, o polaco Daniel Olbrychski como Jan, Mario Adorf era Alfred, Angela Winkler a mãe de Oskar, Agnes. O músico francês Charles Aznavour tem também uma pequena participação ao encarnar um comerciante judeu apaixonado pela mãe de Oskar e que fornecia a este os tambores de cada vez que um se estragava.

Monday, January 22, 2007

Italo Calvino
Escritor italiano autor da Trilogia dos Nossos Antepassados (I Nostri Antenati), composta pelos livros O Visconde Cortado ao Meio (Il Visconte Dimezzato), O Barão Trepador (Il Barone Rampante) e O Cavaleiro Inexistente (Il Cavaliere Inesistente). Estas três obras inolvidáveis partilham o gosto satírico, a provocação dos ideais sociais e políticos e a alternativa existencial através da caracterização atípica e surrealista das personagens de Calvino. As histórias correspondentes aos três livros desenrolam-se em séculos passados, portanto vigorava uma mentalidade diferente daquela comtemporânea à escrita dos livros (a década de 50 do pós-Guerra) mas que nem por isso deixa de estabelecer um paralelo relativamente à actualidade.
Em O Visconde Cortado ao Meio, um jovem e vigoroso nobre italiano é atingido por um tiro de canhão enquanto combatia, sendo literalmente dividido ao meio na vertical. Por um milagre da ocupação médica, a sua parte direita é tratada , fazendo uso agora de um só olho, um único braço, perna e orelha, meio nariz e meia boca, enquanto que o lado esquerdo é dado como desaparecido por entre numerosos cadaveres. A parte direita sem coração retorna à sua vila italiana natal onde o título como visconde ainda impõe respeito, mesmo cortado ao meio. Parece que apenas a parte má e obscura do visconde Medardo é que permaneceu, espalhando o terror pela vila com a sua crueldade e má vontade contra todos. Até ao dia em que se apaixona por uma pastorinha e surge uma nova figura cortada ao meio na vila: o lado esquerdo com coração, a parte boa do visconde que trata de reparar os estragos provocados por "si próprio". Neste romance, Italo Calvino propôs-se a seguir uma orientação alegórica para a acção humana, dividindo em extremos o carácter dúbio de um ser humano, entre o bem e o mal praticados. Surge o homem incompleto na sua personalidade, um homem inarticulado, inflexível e em falta para consigo próprio que não se revê inteiramente num determinado carácter, é portanto falível no que almeja ser.
O segundo romance, O Barão Trepador (o meu favorito), conta a história da vida de Cosimo até à sua morte, determinado a desafiar as regras humanas e da natureza ao subir um dia para uma árvore em protesto e ao prometer nunca mais pôr os pés em terra. Desde tenra idade Cosimo leva a sua avante e cumpre a promessa de viver para sempre nas árvores, tendo mesmo viajado até terras longínquas e alcançado fama internacional. No entanto também é dominado pela frustração por não poder possuír a sua amada Viola, uma "terrestre" que, de namorada de infância, torna-se o objecto platónico do seu desejo. Não é esta que o faz descer e ao longo de toda a narrativa observamos a tentativa vivencial do bravo Cosimo em cima das suas árvores. Teimosia ou inteligência por parte de Cosimo, é julgada ao critério de cada leitor, mas a pretensão desta história está relacionada com uma atitude contestatária da ordem natural, da instituição, do despotismo, da regulamentação; uma individualização necessária para escapar à massa obediente e conduzida por outrem nas suas acções particulares. O tédio existencial, a revolta, o livre arbítrio são conceitos que governam este romance.
Por último, o livro O Cavaleiro Inexistente segue as aventuras e desventuras do cavaleiro Agilulfo, que realmente não existe, apenas a sua armadura imaculada sem nada palpável no interior. Rege uma cavalaria do exército de Carlos Magno e é forçado por este a empreender uma viagem com o propósito de limpar certas difamações feitas contra o seu nome (sim, porque a pessoa não existia) e a garantir o seu título de nobre cavaleiro. Perseguido por Bradamante, uma guerreira perdidamente apaixonada por ele mas não retribuída, pelo jovem combatente Rambaldo apaixonado por Bradamente e não retribuído, pelo seu incapaz escudeiro Gúrdulu e ainda cruzando caminhos com o seu difamador, Torrismundo, Agilulfo aventura-se na demanda que acaba por o conduzir à descoberta do seu ser no mundo. Este cavaleiro exemplar pensa mas não tem personalidade, age mas é incompreendido, não tem sentimentos nem tão pouco os reconhece. Limita-se a inexistir em corpo, dando deste modo sentido à existência vulgar de outros. O que se pode retirar deste terceiro romance da Trilogia é o questionar do propósito da existência e da identidade individual, a veracidade inerente ao homem e aquilo que o move e motiva no domínio psicológico de consequências accionais. Agilulfo parece "ser" metodicamente perfeito, no entanto ele não tem ser, daí a sua imperfeição. A existência é um dom perfeito, complementado pela individualidade.

Wednesday, January 17, 2007

Orange Juice - Blue Boy

Tuesday, January 16, 2007


David Cronenberg
sessão dupla com Crash e Dead Ringers
Conduzir é preciso, viver não é preciso...
Em 1996 estreava Crash, do realizador canadiano David Cronenberg, com os actores James Spader, Elias Koteas, Holly Hunter, Deborah Kara Unger e Rosanna Arquette. A loucura fantasista de Cronenberg entra em erupção violenta neste thriller que envolve acidentes de automóvel e a excitação sexual resultante do embate. A partilha de experiências sexuais dentro de veículos acidentados é feita por um grupo de sobreviventes obcecados com a sinistralidade, que vivem e sobrevivem para experimentar autênticas injecções de adrenalina enquanto guiam, enquanto observam desastres automóveis, enquanto tocam as cicatrizes e as feridas provocadas pela colisão, culminando numa imensa satisfação orgásmica. Para estas personagens é vital e estimulante conhecer intimamente a morte e a dor, desenvolvendo ainda uma obsessão pela aproximação física entre o homem e a máquina, quer seja através do sexo, quer por meio de próteses metálicas e andarilhos para aqueles que acabaram irremediavelmente aleijados posteriormente a um choque automóvel.
Muito psicótico, perverso e doentio, mas deveras aliciante e potente.
Em Dead Ringers - Irmãos Inseparáveis (1988), Jeremy Irons é Beverly e Elliot Mantle, dois gémeos idênticos, dois génios conturbados, dois caracteres separadamente inconcebíveis. Ambos exercem ginecologia e são um sucesso no seu campo de trabalho, entre si são muito diferentes mas implacavelmente unidos. Elliot, o galã, socialmente agradável e superficial, é quem obtem mais reconhecimento pela sua prática e pelas mulheres, enquanto que Beverly, o reservado, anti-social e sensível, fica na sombra e aproveita os "restos" femininos deixados pelo irmão...um abandona, o outro consola. No entanto surge uma mulher, Claire (Geneviéve Bujold), que atrai Beverly, que a acha uma mulher fascinante, intelectual e fisicamente. Para o domínio profissional dos dois irmãos, Claire torna-se um objecto de estudo do maior interesse visto ter a vagina trifurcada; para o domínio pessoal de Beverly, que se apaixona perdidamente por ela, Claire é a sua salvação para a repressão causada por uma vida claustrofóbica.
A partida de Claire e a descoberta de um suposto amante deixam Beverly num estado de vagueação perturbada, que o leva a perverter consecutivamente os seus métodos, a sua rotina profissional, a sua relação de amor/ódio com o próprio irmão e a sua estabilidade e saúde física através da injecção de drogas. A depravação tóxica da mente de Beverly e a deficiência intra-uterina de Claire fazem com que ele desenvolva uma imaginação fértil em termos de medicina inédita, imaginando que o problema de Claire se reflecte em todas as mulheres que Beverly trata, achando este que os seus corpos estão completamente errados. Esta suposição leva-o a tomar precauções drásticas tais como fabricar novos instrumentos médicos que são autênticas ferramentas de tortura para mulheres-mutante.
Fortemente ligados, Elliot não consegue ver Beverly a descaír num limbo de demência desatinada sem fazer nada, por isso, não encontrando um meio para salvar o seu irmão, decide embarcar com ele na sua jornada de alienação. Isto fortifica a relação entre ambos, que por vezes é vista como amor entre homem e mulher (Beverly é um nome feminino), mas ao mesmo tempo degrada totalmente a actividade que os dois exerciam e as suas relações exteriores, confinando-se um ao outro e desbravando juntamente a insanidade até ao limite extremo: a separação física quando Beverly opera Elliot, deixando-o morrer estrinchado e esvaído em sangue. A união na morte é inevitável, depois do crime, vem o suicídio.
De destacar a impressionante personificação do brilhante Jeremy Irons, que se desdobra em duas personalidades divergentes e possuídas, e ainda, obviamente, a direcção de David Cronenberg e a sua paixão pela degradação da integridade física, da razão e do juízo humanos.

Thursday, January 11, 2007


Reviver o Passado em Brideshead
Brideshead Revisited

Comprei esta série em dvd há dois anos e logo desde o primeiro episódio ficou inscrita como uma das minhas grandes favoritas. Data de 1981 a adaptação para televisão do livro homónimo do escritor inglês Evelyn Waugh, adaptação essa que conta com Jeremy Irons e Anthony Andrews nos papéis principais. Jeremy Irons, um dos meus grandes actores de eleição.
Charles Ryder (Irons) e Sebastian Flyte (Andrews) são dois estudantes da velha e afectada Oxford que se conhecem em circunstâncias algo...peculiares: o boémio e extravagante Sebastian vomita para dentro do quarto de um Charles tímido e introspectivo, que andava já há algum tempo muito interessado na figura de Sebastian. As índoles contrastantes de um e outro acabam por uni-los numa amizade melancólica e nostálgica com o seu quê de homoerotismo arcadiano e reservado que não chega a ter concretização física. Sebastian, herdeiro rico de uma nobreza em decadência, leva o seu amigo para a imponente Brideshead, uma magnífica casa senhorial na qual Charles se sente em casa. Durante um Verão inesquecível em Brideshead e em Veneza, os dois enfatizam a amizade amorosa e estabelecem entre eles um elo que parece inquebrável. No entanto, o carácter fugídio de Sebastian no que toca a sua família, os Marchmain, e aquela casa, é um factor que, eventualmente, vai afastá-lo cada vez mais de Charles, enquanto este se apaixona pela família de Sebastian (em substituição pela sua família ausente) e, nomeadamente, pela irmã de Sebastian, Julia (Diana Quick).
A galeria de personagens em Reviver o Passado em Brideshead inclui ainda os menbros da família de Sebastian, o pai de Charles, os colegas e amigos de ambos em Oxford, uma variedade de conhecimentos. Anthony Blanche (Nicholas Grace) é um estudante homossexual assumidíssimo e algo repugnante, com uns trejeitos e tiques de fala que fazem da sua personagem um elemento cómico. Laurence Olivier e Claire Bloom são Lord e Lady Marchmain, os pais de Sebastian e Julia, separados, ela em Inglaterra, ele em Itália a viver com a amante, Cara (Stéphane Audran). O pai de Charles, Edward Ryder (John Gielgud), é um católico conservador que vive sózinho e não se interessa pelo filho. Julia Flyte, católica, feminista e extrovertida, assemelha-se em carácter ao irmão Sebastian, mas não é tão desagarrada nem nutre um ódio pela própria família. Também se considera uma personagem o ursinho de peluche de Sebastian, o inconstante e amigável Aloysius, que partilha com ele as variações de humor.
A juventude desencantada é retratada na perfeição nesta obra através das memórias de Charles Ryder, vinte anos volvidos sobre o dia em que conheceu Sebastian. Charles é um oficial britânico comandante de uma unidade nas vésperas do estalar da segunda Guerra Mundial, unidade essa que acampa mesmo em frente à sua tão amada Brideshead. Após vinte anos, apenas subsiste em Charles a nostalgia amarga de um passado exultante de paixões e exuberâncias ao lado do seu amigo e da irmã deste. O reviver desse passado são as memórias evocadas, o sonho acabado, o dissabor resultante do afastamento de Sebastian.
Imperdível.

Tuesday, January 09, 2007

Fiona Apple - I Want You (original de Elvis Costello)

Magnífica versão de uma canção excepcional, por uma artista dotada, de um músico incomparável. Mesmo assim continuo a preferir a original...que não encontro no youtube.

Monday, January 08, 2007

Bosch
O pintor holandês Hyeronimus Bosch (1450-1516) viveu na passagem da Idade Média para o Renascimento, dando para isso a sua contribuição: a inovação surrealista da sua arte no contexto de uma inibição medieval relativamente à exploração de outros planos. É visível na obra de Bosch, religioso fervoroso, constantes alusões à dor física, ao sonho e pesadelo, ao inferno, aos demónios, à morte, medos que a Igreja incutia nos seus seguidores durante a fascinante Era das Sombras. Essas componentes típicas da pintura simbólica de Bosch estão presentes neste tríptico, A Tentação de Santo Antão, exposto permanentemente no Museu Nacional de Arte Antiga em Lisboa.

Friday, January 05, 2007





A Clockwork Orange - A Laranja Mecânica
De Stanley Kubrick, 1971; baseado na obra homónima de Anthony Burgess.
Desconcertante ou concertante? A avaliar pela música diria que é a segunda. Beethoven, Rossini, Henry Purcell. Tendo em conta a ultra-violência super-apelativa diria que é a primeira.
Malcolm McDowell é Alex De Large, um jovem artisticamente marginal, perverso e retorcido, líder de um grupo de violadores sem escrúpulos numa Grã-Bretanha futurista.
Obcecado pela música de Beethoven, extravagantemente vestido num estilo neo-romântico, falando uma estranha linguagem que mistura o inglês com o russo, agindo por meio de estímulos sexuais violentos, Alex é um parasita (para não dizer pária) social.
No mundo de Alex e dos seus "cães" (os companheiros que se submetiam aos seus instintos) existem constantes referências estéticas a símbolos fálicos e ao seu poder violento ou impotência. A violência fálica que Alex possui no ínicio vai ser transformada em impotência e humilhação pessoal e social após o tratamento de choque ao qual é sujeito na prisão. Com o intuito de acabar com a marginalidade e violência que se instalou pelo país, o governo britânico propõe uma terapia especial e desumana que supostamente faria com que uma pessoa ruím se torna-se um exemplo de bondade e subserviência, algo para aplicar a casos como o de Alex, servindo este último de cobaia. Dá-se o confronto aos níveis psicológico e social entre a violência desumana de Alex e a violência igualmente desumana da terapia. A primeira põe em causa a segurança social, a segunda põe em causa a integridade pessoal. No entanto, o projecto vai para a frente, e, após a terapia, Alex desenvolve uma aversão aos seus próprios estímulos, uma repulsa ao sexo, uma submissão a quem o humilha.
Impotente, Alex é solto da prisão à qual foi parar acusado de homícidio, e, consequência do tratamento, torna-se um ser inferiorizado em relação aos restantes, por ser incapaz de se auto-defender e de reagir contra a superioridade que os outros passam a exercer sobre ele. Ainda por cima, ao mesmo tempo, é impossível para Alex ouvir a loucura da 9ª Sinfonia de Beethoven, por ter sido um elemento que marcou indelevelmente o seu passado. A hipótese do suícidio é aliciante e acaba por tomar lugar, sem se concretizar.
O filme, não o livro, acaba em aberto, deixando ao critério do espectador compreender se Alex ficou curado ou permaneceu quem ele realmente era. Cá para mim, permaneceu.

Wednesday, December 27, 2006

Donovan - Mellow Yellow

A música aqui está inacabada, mas este foi o único vídeo com qualidade que encontrei com esta fabulosa canção. Para ouvir em repeat este músico e poeta escocês, Donovan Leitch.
Ai, a nostalgia de um tempo não vivido...
Mais uma canção sedosa que cai sempre bem, "Atlantis":
...e outra, "Hurdy Gurdy Man":

Saturday, December 23, 2006

Banksy

Banksy não revela a sua verdadeira identidade, não permite fotografias e não dá entrevistas. A sua identidade reflecte-se na sua arte: urbana, mod(erna), provocadora, transgressora, inteligente, irónica, significativa. Banksy expressa-se através da arte peculiar do graffitti e do stencil. O primeiro, menos usado pelo artista, consiste num processo artístico demorado e pouco detalhado, daí Banksy o ter substituído pelo stencil, um pedaço de papel recortado sobre o qual se pinta o espaço por baixo dos recortes de modo a formar a figura pretendida. A arte resultante do uso do stencil assemelha-se a algo irrealmente real: uma representação de uma pessoa, animal, objecto, paisagem numa determinada superfície, que causa uma primeira impressão que aponta para a existência de algo real naquele tempo e naquele espaço. No entanto, a imobilidade da figura estampada desfaz logo de seguida essa sensação. As características de uma imagem impressa num stencil são de tal modo detalhadas que causam à partida esta confusão.

Banksy começou por fazer arte anónima nas ruas de Bristol e de Londres, arte essa que reivindicou mais tarde já com o nome artístico. O tipo de arte marginal de Banksy tem por base ideais de anarquismo, anti-capitalismo, anti-comercialismo, activismo pró-ambiental, anti-guerra, anti-separatismo, liberdade de expressão individual, direito à manifestação. Há quem chame lhe chame vândalo, aproveitador e hipócrita, por "sujar" o domínio público sem autorização, por se aproveitar da sua crescente fama para contrariar os seus ideais anti-capitalistas ao colaborar para a mainstreaming-ização e massificação da arte urbana nas suas exposições em galerias de arte, ao assinar contratos com associações e empresas e ao aceitar apenas grandes quantias de dinheiro pelas suas obras de arte alternativa.

Banksy, na sua atitude provocadora, goza com personalidades marcantes, desde a Raínha de Inglaterra, a Paris Hilton e George Bush . A transgressão atinge ainda os agentes da autoridade como polícias e dirigentes políticos, assim como se aplica a entidades associativas e ao comum da população, a massa anónima. Isto para ridicularizar e chamar a atenção para as acções praticadas em desfavor do bem colectivo. Banksy e a sua arte atípica estão para durar.
Site oficial do artista: http://www.banksy.co.uk/

Associado à arte urbana estão estilos musicais como a electrónica e as suas ramificações, o hip hop e o grime britânico (Dizee Rascal, Lady Sovereign, The Streets). Artistas como M.I.A., Starsailor e Blur fizeram uso desta arte nos seus videoclips ou capas de albuns, aliás, foi o próprio Banksy quem fez a capa para "Think Tank" dos Blur (miam!), o último registo da banda.

vídeoclip M.I.A. para "Galang":

http://www.youtube.com/watch?v=M9wm_QEIaWs&mode=related&search

vídeoclip Starsailor para "Four to the Floor":

http://www.youtube.com/watch?v=UrRtd8Ux6WE

Friday, December 22, 2006

Primal Scream - Movin' On Up

Ora aí está uma música que me faz dançar...ao ver aquele jeitinho do Bobby Gillespie. Miaaau.

Wednesday, December 20, 2006


Best of Vivienne Westwood

Vivienne Westwood
Eu gostava que esta senhora me vestisse...

Nascida em 1941, a estilista inglesa Vivienne Westwood começou a dar nas vistas na década de 70 enquanto surgia o movimento Punk no Reino Unido. Westwood foi uma das percursoras da iconografia punk através das suas criações de moda irreverentes, controversas e artisticamente únicas. Em Londres montou uma loja de roupa com o seu marido de então, Malcolm McLaren, loja essa que se tornou um marco do punk. McLaren era manager da banda punk emergente Sex Pistols, e foram exactamente estes a divulgarem as produções de moda de Vivienne.
Nesta altura, ou seja, quando vigorou o movimento Punk seguido da New Wave, Westwood baseava a sua originalidade criativa em correntes como a situacionista, que se caracterizava por ser composta por um grupo de artistas inovadores e contestatários da ordem, e também na corrente anarquista.
Desde a era Punk até aos dias de hoje, Vivienne Westwood tem conseguido variar radicalmente no estilo das suas peças, passando pelo punk, o clássico, o new-romantic, o grungy, o estilo das décadas de 50, 60, 70 e 80, o gótico, o cabaret de luxo, etc. No entanto, Westwood nunca se desfez de uma certa carga tradicionalista e clássica verdadeiramente britânica que se denota na sua colecção Anglomania no uso de padrões como o tartan escocês, símbolos da coroa, estilos característicos como o vitoriano, o Tudor e o colonial.
Pela sua contribuição para a divulgação internacional do carisma fashion britânico e por permanecer no activo após mais de 30 anos de carreira, Westwood foi ordenada Dama do Império Britânico pela Raínha em 2006.

Monday, December 18, 2006

Coração Selvagem - Wild at Heart - de David Lynch
Filme de 1990 do realizador norte-americano David Lynch (!!!!!), que conta com as participações de Nicolas Cage, Laura Dern, Diane Ladd e Willem Dafoe.
Num cruzamento com o imaginário de O Feiticeiro de Oz, Lynch apresenta-nos um road movie americano de violência-sensacional com pronúncia sulista. Nicolas Cage é Sailor Ripley, um protótipo de Elvis Presley marginalizado muito "individual"; Laura Dern é a sua amada Lula, uma jovem de infância traumática e de mentalidade alheada do real; a mãe de Lula, Marietta (fabulosa Diane Ladd, mãe de Laura Dern na vida real), é ultra-protectora e está determinada a exterminar Sailor; Willem Dafoe é Bobby Peru, um assassino maníaco de dentes podres que alicia Sailor para um golpe que acaba por lhe valer a prisão. Outros actores têm participações menores, tais como Harry Dean Stanton, J.E. Freeman, Isabella Rossellini e Crispin Glover.
O paralelo com o mundo de fantasia d' O Feiticeiro de Oz estabelece-se através da caracterização das personagens, da construção do argumento e de vários elementos identificadores da predominância do tema fantástico: Sailor e Lula viajam pelas desertas estradas americanas como se se tratasse de uma promissora Yellow Brick Road, rumo a California, ou seja, a Cidade Esmeralda; são alvos da loucura da mãe de Lula, que representa aqui a Wicked Witch of the West, com os seus sapatos de pontas reviradas em contraposição com os sapatinhos vermelhos de Lula (Dorothy); a Bruxa Boa do Sul (Sheryl Lee) que indica o caminho a seguir por Sailor e as outras duas bruxas más (Isabella Rossellini e Grace Zabriskie), que colaboram com o bando de Marietta para tentar desviar Sailor e Lula do seu final feliz.
O coração selvagem pertence a Sailor, de carácter deambulatório, desagarrado, inconsequente e impulsivo. A paixão entre Sailor e Lula afirma-se no meio de uma espiral de sexo, violência e rock n' roll ao som da envolvente banda sonora original do já habitué nos filmes de Lynch, Angelo Badalamenti, intercalada com o erotismo de Chris Isaak, o swinging jazz de Duke Ellington, o rock pesado dos Powermad e o rockabilly de Elvis Presley, com temas interpretados pelo próprio Nicolas Cage (interpretação essa que lhe valeu o papel satírico como Tiny Elvis no show cómico norte-americano Saturday Night Live).
Adorei o filme e respectivo cast, Willem Dafoe é um dos meus actores preferidos, Laura Dern e Isabella Rossellini igualmente, o elenco trazido de Twin Peaks como Jack Nance, Sheryl Lee e Sherilyn Fenn...só não aprecio o Nicolas Cage, para mim é um bloco de pedra mármore ainda por esculpir e de falar inexpressivo e cerrado, no entanto, neste filme, David Lynch moldou-o num personagem menos estático e passivo repleto de energia violenta e vingativa.

Sunday, December 17, 2006

Patti Smith

Ela é um dos meus ícones, acho-a linda e multiplamente talentosa. A poética musical de Patricia Lee Smith está no rol dos factores que me fazem sonhar acordada...aquela vagueação, o tormento e a paz psicológicos, a significação permanente, acompanhados por aquela voz por vezes insana, por vezes calma, ás vezes falada, muitas vezes cantada e sempre encantada.

A turbulência da música de Patti Smith resulta da sua manifesta pertença ao movimento punk nova-iorquino e um certo reconhecimento na geração beat. Desalinho desmaquilhado, ressaca disfarçada, androgenia... a música e figura de Patti englobam estes elementos e fazem-na tão auréolar.

Acabaram as aulas, está oficialmente livre o blog.

Thursday, December 14, 2006

Interpol - evil

Este boneco faz-me lembrar Rua Sésamo em versão ácida.

Monday, December 11, 2006

O movimento perpétuo ou o movimento castrado
de Toulouse-Lautrec

Saturday, December 09, 2006

Harmony Korine e David Lachapelle
Estes 2 artistas norte-americanos destacam-se nos meios visual e audiovisual através das suas originais produções no campo da fotografia, do vídeo musical e do cinema.

O jovem Harmony Korine tem sido objecto de um culto que se formou em 1995, quando o realizad
or Larry Clark adoptou o seu argumento para o filme Kids. Desde então tem trabalhado em cinema por conta própria com os filmes Julien Donkey Boy e Gummo, a meu ver estupidamente traduzido para "Vidas Sem Destino", que, na realidade, está de acordo com o filme mas deveria ser mais inconsistente e incompreensível; colaborou de novo com Larry Clark em Ken Park; fez documentários televisivos sobre o seu ídolo, o mágico David Blaine e dirigiu videoclips para Daniel Johnston, Sonic Youth e Bonnie "Prince" Billy. A sua estética particular afirma-se no mundo dos jovens pré-adolescentes e adolescentes problemáticos, num meio quase surreal de decomposições desconexas que envolvem várias situações ininterpretáveis, indescortináveis, incoerentes que suscitam no espectador a indiferença, a repulsa ou o baque cardíaco provocado por uma estética inimitável, pacífica em toda a sua sujidade. Só mesmo vendo é que se consegue entender.
O video para "Sunday" dos Sonic Youth por Harmony Korine:
O conceituado fotógrafo e realizador David Lachapelle trabalha com o mainstream mais underground de sempre desde que tomou contacto com o próprio Andy Warhol. Ao longo da sua carreira fez dezenas de videoclips e filmes para todos os campos musicais e fotografou o lado mais animalesco e sobrenatural de inúmeras personalidades famosas. Quando olhamos para a arte de David Lachapelle somos bombardeados!!!!!!!!!!!!!!!!! com um festim de exagero e excentricidade visual sem limites. Lachapelle faz uso de toda uma artilharia magnífica de originalidade fogosa e impetuosa hiperconcentrada nos seus cenários.
O video para "Not If You Were The Last Junkie On Earth" dos Dandy Warhols por David Lachapelle:

Morrissey - November Spawned a Monster

Thursday, December 07, 2006

// R // A // D // A // R //
A rádio Radar, a alternativa, frequência 97.8, está a promover outra votação: os cinco melhores álbuns do ano e o melhor concerto de 2006.
Não deixem de votar em:
http://www.blogradar.blogspot.com/

Monday, December 04, 2006

O primeiro semestre está a chegar ao fim e o nosso último projecto para Edição Multimédia é a elaboração de um site onde, julgo eu, vai estar alguma da informação recolhida do blog. Até agora adorei a experiência de ter o meu espaço online, um sítio onde posso divulgar aquilo que bem me apetece, no entanto, tenho estado um pouco limitada visto este blog se tratar de um trabalho universitário. Assim que acabarem as aulas deste semestre deixará de ser um trabalho e passará a ser então um espaço "livre", sem imposições ou condicionalismos de qualquer ordem!

Sunday, December 03, 2006










State of Play - Ligações Perigosas

Excelente série britânica baseada nos contornos que envolvem o jornalismo, a política e os lobbies. Numa trama complexa, o argumento desenvolve-se a partir da morte de uma jovem, assistente de um político em ascensão, que vem a saber-se ser também sua amante. Entretanto, na redacção do jornal The Herald, um grupo de jornalistas investiga o assassínio de um jovem traficante de droga. As histórias entrecruzam-se quando os jornalistas descobrem uma relação entre as duas mortes e a investigação assume uma dimensão muito mais misteriosa e arriscada.
Os episódios foram realizados por David Yates a partir de uma ideia de Paul Abbott e contam com a participação de conceituados actores nos papéis principais: John Simm, David Morrissey, Kelly McDonald, Bill Nighy, James McAvoy, Polly Walker e Amelia Bullmore.

Saturday, December 02, 2006

Tom Baker - O Rapaz que Chutava Porcos (The Boy Who Kicked Pigs)
O título desta short story de grotesco non-sense não é nenhuma metáfora, é realmente literal pois conta a sórdida história de um puto safado que tinha como diversão favorita chutar porcos, quer fosse o mealheiro da irmã, as costeletas da vizinha ou então porcos vivos. É esse o objecto da sua obsessão e da sua vingança para com o odioso resto do mundo, vingança essa que ele consegue através da provocação do caos na sua aldeia. Mas o resto do mundo, principalmente umas criaturinhas de seu nome ratazanas, tocam de dar uma fatal lição ao pequeno diabrete, começando pelo lábio inferior...

O actor Tom Baker, conhecido por ter sido Dr. Who, assina este conto surreal com ilustrações a condizer, interessante para uma negra e chuvosa tarde de sábado.

Tuesday, November 28, 2006

Os comentários de algumas pessoas que eu conheço que foram ver o filme: "Humm...não era mau de todo..."; "Aquilo era rídiculo! Afinal o que é que 'tavam uns All Star a fazer ali no meio??!"; "Tens d'ir ver, é "xelente"!!!!"; "O filme não tem mensagem nenhuma, mas não foi uma total perda de tempo". Finalmente fui ao cinema ver este Marie Antoinette de Sofia Coppola, que eu já tinha anunciado num post anterior no qual deixei claro que o conceito do filme me agradava. Agradou-me, afinal? Nãoooooooooooooooo, não me agradou simplesmente. Eu AMEI o filme!!! Não esperava qualquer tipo de mensagem ou de final moralista, não esperava factos históricos de grande relevância nem uma tragédia sangrenta que incluisse povo esfomeado e soberanos sem cabeça. Assim como está, está perfeito. Bastou-me aquela introdução ao som de Gang of Four e ao estilo gráfico Sex Pistols para logo o sangue me aquecer nas veias e começar a latejar de excitação expectante (sim, porque essencialmente a música tem esse particular efeito em mim).

A atmosfera do filme está toda ela envolta num clima de fausto, luxo, grandiosidade à francesa, festas, exibições, gastos...que eventualmente levam à decadência moral e, mais tarde, social da nobreza francesa do século XVIII. Marie Antoinette não se foca na história mais vulgarmente interpretada da revolta do povo francês contra a monarquia vigente e consequente revolução que conduziu à democracia, mas sim adopta o ponto de vista da malograda raínha Maria Antonieta (segundo uma biografia por Antonia Fraser) ao indicar as condições em que vivia a jovem, literalmente "atirada às feras" a partir do momento em que deixou a sua Aústria natal aos 14 anos para viajar até França com a finalidade de se unir em matrimónio com o então delfim Louis XVI, assim estabelecendo uma aliança política entre os dois países. A película apresenta Marie Antoinette como uma raínha que não tinha a mínima noção de quanta era a miséria em que o povo vivia, inconsciente da situação social que se desenrolava para lá dos portões do magnífico Versailles, mas apenas porque devido às suas circunstâncias familiares nobres e ricas nunca lhe tinha sido dada a conhecer a outra vertente, a popular, aquela que não incluia bailes extasiantes, banhos de champagne, sumptuosas sedas, manjares deíficos, jóias extravagantes, os melhores esteticistas ao seu dispôr, boémia ininterrupta.

O filme triunfa em toda a sua fabulosa estética: o arrebatador espaço interior e exterior de Versailles, as roupas, os sapatinhos trés mignon, os muiiiito apetitosos bolos, os cãezinhos que serviam de mascote às ladies, os cabelos (ou cabeleiras) arranjados à moda de então. Triunfa também na apresentação das personagens e respectiva interpretação dos actores: o tímido, fraco e desinteressado rei Louis XVI, que é comicamente interpretado por Jason Schwartzman; o sério e afectado conselheiro Mercy (Steve Coogan); as cínicas, invejosas e metediças "tias", papéis pertencentes a Shirley Henderson e Molly Shannon; a mal-educada e vulgar rameira (Asia Argento) que era a cortesã favorita do rei Louis XV (Rip-Torn); uma irreconhecível Marianne Faithfull como Marie Thérese, mãe de Marie Antoinette; e, como não podia deixar de ser, a própria Marie Antoinette, papel composto por uma doce e inocente Kirsten Dunst, que volta a provar os seus dotes depois de uma outra aclamada experiência logo aquando da primeira incursão de Sofia Coppola na realização com "As Virgens Suícidas".

No entanto, aquilo que mais me interessou no filme foi a banda-sonora. O cruzamento da época das Luzes com a actualidade através da música foi uma ideia genial de Sofia Coppola: ao mesmo tempo que certas cenas do filme se desenlaçam enquanto ouvimos Vivaldi, Jean-Philippe Rameau e Domenico Scarlatti, outras são-nos apresentadas ao som da melhor New Wave (ver artigo dos arquivos de Setembro) que por aí se fez: o inesquecível episódio do baile em Paris com as personagens a dançarem ao som do lindíssimo "Hong Kong Garden" de Siouxsie and the Banshees; os Bow Wow Wow a entusiasmarem com "Fools Rush In", "Aphrodisiac" e "I Want Candy"; Adam and the Ants e a deliciosa canção "Kings of the Wild Frontier"; os já citados Gang of Four a electrizarem com "Natural's Not In It"; "Ceremony", original dos Joy Division aqui pelos New Order, a representar a solidão e frustração de Marie Antoinette; The Cure a confiarem o tom mais negro e agridoce na suave "Plainsong" e na melancólica "All Cats Are Grey". Mas não é só de clássica e New Wave que vive Marie Antoinette: encontramos ainda uns enérgicos Strokes a darem voz à exultante raínha com "Whatever Happened"; o violino da electropop de Aphex Twin em "Avril 14th" e "Jynweythek Ylow"; os suecos The Radio Dept. ; os Air, já familiarizados com o universo de Sofia Coppola, introduzem "Il Secondo Giorno"; a melodia de Dustin O'Halloran em composições de piano em "Opus 36" e "Opus 23".

Monday, November 27, 2006

Ouçam Mário Cesariny e Fernando Alves a recitarem o poema "Autografia", incerto no livro de Cesariny "Pena Capital", transmitido hoje na TSF no programa Sinais de Fernando Alves:
TSF Rádio

Mário Cesariny de Vasconcelos
9 de Agosto de 1923 - 25 de Novembro de 2006

Saturday, November 25, 2006

Patrick Wolf - "The Libertine"

Patrick Wolf
Este jovem compositor londrino nascido em 1983 é desde 2003 a sensação da folktrónica made in Britain com a edição do seu álbum de apresentação "Lycanthropy". A sua sonoridade evoluio substancialmente ao segundo álbum, o fabulosamente mágico "Wind in the Wires" de 2005. Actualmente, prestes a lançar o seu terceiro trabalho de estúdio, "The Magic Position", faço aqui no blog um post carinhosamente dedicado ao mui belo e mui talentoso Patrick. Ora acompanhem...
Em "Lycanthropy", tal como o título indica, Patrick estabelece uma conexão com o seu apelido artístico -Wolf ( lobo)- e oferece-nos uma verdadeira licantropia (transformação de homem para lobisomem) através das suas composições que parecem transcender a esfera humana do real e transportam o ouvinte para uma outra dimensão de fantasia negra e tempestuosidade eminente. As letras sugestivas de "Lycanthropy" indicam a negritude em "Bloodbeat", a guerra em "A Boy like Me", a morte, o crime como a pedofilia em "The Childcatcher", a saturação citadina em "London" e "Pigeon Song", a necessidade de evasão em "To the Lighthouse", a destruição de "Demolition", o abandono da racionalidade em "Don't say No", a insubmissão em "Lycanthropy", o recurso à fantasia como escape em "Peter Pan".Neste seu trabalho introdutório a electrónica pop ainda liderava em relação à folk mais intimista por meio do uso muito regular de sintetizadores e caixas de ritmos.
A voz bela, grave e profunda de Patrick e o seu talento multi-instrumentalista (essencialmente para o violino) sobressaem mais no segundo registo, "Wind in the Wires". Depois de um ano de aprendizagem no Conservatório de Música do Trinity College de Dublin e de uma experiência solitária a viver na selvagem Cornualha no extremo sul de Inglaterra, Wolf regressa à lide musical com um àlbum plenamente maduro. Aliás, lembro-me que um crítico português, do qual não me recordo do nome, chegou a comparar Patrick Wolf a um protótipo de Dorian Gray (ver artigo sobre o livro mais abaixo) por ter conseguido atingir uma tal perfeição melódica com apenas 23 anos de idade. Este "Wind in the Wires" é de tal maneira viciante que eu o considero o melhor àlbum deste início de milénio. Nele concentram-se elementos pop, clássicos, folk, celtas, electro, ritmos ciganos em "The Libertine" e "The Gipsy King"... os rasgos de violino, as batidas cardíacas, a afluência soft e naïve de "The Shadowsea" intercalada com a violência de "Tristan", a melodia de "The Land's End" e "The Railway House", a suavidade golpeada da unicamente instrumental "Apparition", a referência genesíaca ao sonho de Jacob em "Jacob's Ladder", a profundidade intíma de "Teignmouth" e "Wind in the Wires" reflectindo a natureza na sua transformação da vida para a morte. É um esplendor na relva este álbum magnânime...
Sites consultados:
Videoclips:

Friday, November 24, 2006

Estou a aproveitar as mais recentes aulas de Edição Multimédia para fins caseiros: o uso do photoshop para criar a imagem que vou estampar numa t-shirt. Estou a trabalhar um cartoon do Robert Smith a tentar apanhar um outro desenho do Homem Aranha e uma frase entre ambos: I'm having Spiderman for dinner tonight... só para contrariar a letra da música "Lullaby" dos The Cure do dito Smith.

Thursday, November 23, 2006

Restaurante Tapas Bar Luca
A propósito de um dolce far niente num postal deste restaurante de cozinha variada, mas principalmente italiana... A comida é genuína, caseira, o atendimento é simpático, o ambiente agradável, o espaço minimalista repleto de fotos.

Tudo sobre o restaurante incluindo o menu du jour em:
-http://www.luca.pt/

Tuesday, November 21, 2006

i-D : Em contrapartida com a edição do mês passado, a "the youth issue", esta nova de Dezembro-Janeiro intitula-se "the older and wiser issue". As estrelas da capa são os cantores Cassie e P. Diddy, enquanto que no interior figura o trabalho de uma redacção inteira que tem trazido esta revista com sucesso até à idade adulta, embora a i-D tenha aquelas características bem adolescentes da inconsequência (positivamente falando), ousadia e energia imparável.
Mais informação no artigo dos arquivos do mês de Outubro e no site:

Sunday, November 19, 2006

O Retrato de Dorian Gray de Oscar Wilde
Este aclamado romance do escritor, pensador e poeta irlandês aborda os sombrios confins da mente humana através da sua busca por um ideal de beleza, de prazer e de vivência elevado ao extremo. Num golpe surreal, Wilde leva-nos ao encontro de um belo jovem aristocrata, Dorian Gray, objecto da atracção de um artista que acaba por imortalizar a juventude de Gray ao pintar o seu retrato, que esconde de seguida. Com o passar do tempo, Dorian apercebe-se que está impossibilitado de envelhecer fisicamente, permanecendo para sempre belo e jovem. Começa por tirar o máximo partido dessa situação, pervertendo gradualmente a sua personalidade, tornando-se capaz de assassinar sem dó e revelando uma frieza e cálculo invulneráveis. Enquanto isto acontece, a sua representação em tela vai envelhecendo por ele, mudando essa aparência de acordo com o seu carácter monstruoso: apenas se quebra o feitiço se Dorian olhar o seu verdadeiro Eu.
Nada mais exemplificativo da frase cliché "As aparências iludem".

Qual a significância da Monarquia hoje em dia?
Esta questão torna-se pertinente nos dias de hoje ao testemunharmos uma actividade monárquica meramente social relacionada com o figurar no jet-set internacional. Na Europa, o velho continente, na Ásia e na África continuam a existir monarquias, mais exuberantes nos dois primeiros e menos mediatizadas no último. Em qualquer uma delas não se denota uma orientação ou interveniência político-social e sócio-cultural, servindo a instituição Monarquia apenas de ex-líbris ou cartão de visita de um determinado país e a sua família real objecto vital para a sobrevivência dos paparazzi e da imprensa cor-de-rosa. Assistimos actualmente a uma concepção da Monarquia, outrora grande e poderosa, como puro entretenimento para as classes mais baixas sequiosas de mexericos.
Mas será esta questão apenas superficialidade inerente ao senso comum? Será a Monarquia algo mais do que entretenimento? Nas nações que ainda imperam sob um regime monárquico não é somente dada atenção às vaidades e particularidades da realeza enquanto que quem realmente governa o país politicamente é um estado encabeçado pelo primeiro-ministro: antes para o povo, elemento primordial numa nação, a Monarquia é um factor agregador, que tem peso nas suas convicções e que intervem na sua defesa e bem-estar. Segundo estatísticas realizadas em diversos países onde a Monarquia ainda está presente, a maioria da população orgulha-se dos seus soberanos e não gostaria de ver extinto esse elemento.

Beleza Americana - American Beauty
Só agora vi este êxito de 1999 de Sam Mendes, realizador inglês de ascendência portuguesa, que conta a história de um ano na vida de um americano comum, Lester (Kevin Spacey), narrada pelo próprio já depois de morto. Lester é um falhado que trabalha há anos no mesmo posto insignificante, tem uma mulher histérica, Carolyn (Annette Bening) e uma filha que diz que o odeia, Jane (Thora Birch). A perspectiva de vida de Lester dá uma reviravolta surpreendente quando este conhece a melhor amiga da filha, Angela (Mena Suvari), e desenvolve uma obsessão sensual por essa adolescente atrevida e convencida. Ao mesmo tempo, mudam-se novos vizinhos para a casa do lado, os algo sinistros Fitts: um pai severo (Chris Cooper) que esconde a verdadeira razão da sua repressão para com as atitudes do filho Ricky (Wes Bentley), um jovem obcecado pela beleza das coisas que filma e que se apaixona reciprocamente por Jane; e ainda a mãe (Alison Janney), uma mulher perturbada que se torna indiferente perante os constantes arrufos entre o marido e o filho.
Patentes em "Beleza Americana" estão o lolitismo, através da paixão de um homem muito mais velho por uma insinuante jovem; a nostalgia do passado relembrado por Lester, quando era jovem e inconsequente e Carolyn ainda se interessava por ele e era alegre e não frívola; uma espécie de voyeurismo não sexual praticado pelo impassível e intimidante Ricky nas suas incessantes capturas fílmicas de tudo quanto o rodeava; a rigidez metódica do ex-coronel Fitts que é a armadura usada para rejeitar a sua homossexualidade reprimida; a fabulosa ironia e arrojo adoptados pelo personagem principal aquando da descoberta de novas sensações provocadas pela sua fixação em Angela; o desespero da cínica, berrante e autoritária Carolyn ao ver-se também ela uma falhada; a simbologia do elemento vermelho, a sensualidade transmitida pelas imaginárias pétalas de rosas que aparecem nas fantasias de Lester e que significam o desflorar da sexualidade de Angela; o disfarce desta como sendo uma "cabra" linda que vai com todos, quand